sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

RECATO EM TODOS OS ATOS - PARASHÁ TETZAVÊ E PURIM 5775

"Um Gabai Tzedaká (pessoa que recolhe dinheiro para distribuir aos necessitados) foi certa vez até a casa de um homem muito rico para pedir dinheiro para sua organização, que distribuía comida de Shabat para famílias carentes. O homem rico, após ouvir a diferença que sua doação poderia fazer para muitas famílias necessitadas, ofereceu doar quinhentos dólares, mas com a condição que o Gabai revelasse o nome das pessoas para quem o dinheiro iria. O Gabai se desculpou, afirmando que a organização não divulgava a identidade das pessoas que eram ajudadas. O homem rico ainda tentou insistir, aumentando a oferta de doação para mil dólares, mas exigindo em troca saber quem estaria desfrutando do Shabat por causa de sua doação. Novamente o Gabai se desculpou e se negou a lhe dar este tipo de informação. O homem rico então se exaltou e falou em voz alta e firme:

- Escute, vou doar dez mil dólares para sua organização, mas com uma condição: eu tenho o direito de saber quem eu estou ajudando com o meu dinheiro!
- Nós nunca divulgamos e nunca divulgaremos as identidades das pessoas que nós ajudamos - respondeu o Gabai, sem perder a calma - Você pode me oferecer até mesmo um milhão de dólares, e ainda assim eu não vou revelar a você para quem o seu dinheiro está indo.

Ao escutar a resposta do Gabai, o homem rico baixou a voz e disse, quase sussurrando:

- Agora eu vejo que posso realmente confiar em você. Por favor, me coloque na sua lista de pessoas que necessitam ser ajudadas. Todos pensam que eu ainda sou rico, mas na realidade eu perdi todo o meu dinheiro no mercado de ações. Eu tinha vergonha de te procurar, pois não queria que as pessoas ficassem sabendo. Mas agora eu sei que vai ser realmente mantido em segredo..."

É muito importante desenvolver nossa sensibilidade com o próximo e controlar o que falamos, mesmo que a consequência seja perder oportunidades ou até mesmo dinheiro (História Real).
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Nesta semana lemos a Parashá Tetzavê, que descreve as roupas que os Cohanim (sacerdotes) e o Cohen Gadol (Sumo sacerdote) utilizavam durante os Serviços Divinos feitos no Mishkan (Templo Móvel). E na próxima 4ª feira de noite (04 de março) começa a festa de Purim, na qual relembramos a incrível salvação do povo judeu nos dias de Mordechai e Esther. Haman, descendente do povo de Amalek, o maior inimigo do povo judeu, havia decretado a "Solução Final" dos judeus da Pérsia, mas D'us, de forma oculta, nos salvou. Normalmente a festa de Purim coincide com a Parashá Tetzavê. Qual a conexão entre elas?
A Meguilat Esther, que conta a história de Purim, é composta por vários acontecimentos que isoladamente parecem irrelevantes, mas quando conectados demonstram que tudo estava sendo orquestrado de forma magistral por D'us. A história descreve o exílio do povo judeu na época do Rei Achashverosh, o governador do Império Persa. Após ser desacatado por sua esposa, a rainha Vashti, o Rei Achashverosh decidiu matá-la e coroar outra rainha em seu lugar. Centenas de jovens foram levadas ao palácio real para um concurso, e entre elas estava Esther, uma moça judia. Mas a Meguilá nos conta um detalhe interessante: Esther não quis revelar sua origem e seu povo. Por que ela guardou este segredo?

A resposta está em um pequeno detalhe da Parashá Tetzavê. Uma das oito roupas que o Cohen Gadol usava chamava-se "Choshen" (Peitoral), e era composta por engastes de ouro nos quais eram colocadas 12 pedras preciosas, onde cada pedra representava uma das tribos de Israel. Segundo o Midrash (parte da Torá Oral), a última pedra do "Choshen", chamada de "Yashpe" (jaspe), estava relacionada com a Tribo de Biniamin. O Midrash explica que o nome "Yashpe" é uma contração das palavras "Yesh" e "Pe", que literalmente significam "tem boca". Por que justamente esta pedra preciosa foi escolhida para representar a Tribo de Biniamin? Pois seu nome reflete um louvável traço de caráter demonstrado por Biniamin, um dos filhos de Yaacov. O Midrash nos conta que, apesar de Biniamin saber que seu irmão Yossef havia sido vendido como escravo por seus próprios irmãos, ele nunca revelou isto para seu pai. Portanto, ele foi louvado pelo seu silêncio.

Porém, este ensinamento do Midrash levanta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, se Biniamin estava sendo louvado pelo seu silêncio, por que a pedra preciosa que o representava era chamada de "Yashpe", que significa "tem boca"? Não seria mais apropriado o nome da pedra ser "Einpe", que significa "não tem boca"? E que bom traço de caráter Biniamin demonstrou através do seu silêncio?

Explica o Rav Yochanan Zweig que para entender qual é o bom traço de caráter de Biniamin precisamos observar o comportamento de sua mãe, Rachel, quando ela estava em um momento de enorme pressão. O Talmud (Meguilá 13b) nos ensina que quando Yaacov decidiu casar-se com Rachel, ele suspeitou que seu sogro Lavan utilizaria todos os tipos de artimanhas e malandragens para  substituir Rachel por sua irmã Lea. Como medida preventiva, Yaacov deu a Rachel uma senha secreta que a identificaria na noite do casamento. Mas ao levar em consideração a humilhação pública que sua irmã passaria, Rachel revelou para Lea a senha secreta, permitindo que a enganação de Lavan tivesse sucesso. O Talmud identifica o comportamento de Rachel como um exemplo de "Tzniut" (recato), e afirma que por causa desta "Tzniut" ela meritou grandes descendentes que também demonstraram atos exemplares de "Tzniut". O Talmud cita como exemplo a rainha Esther, que demonstrou sua "Tzniut" ao não revelar sua origem e seu povo durante o concurso de escolha da nova rainha. Mas o que o ato de Rachel, e principalmente o de Esther, tem a ver com "Tzniut"?

Normalmente "Tzniut" é definido como sendo um "código de recato", que determina a forma de como vamos nos vestir e nos comportar. Olhamos a "Tzniut" como uma obrigação apenas na área de "Bein Adam LaMakom" (entre a pessoa e D'us). Porém, o Talmud está aumentando a abrangência do conceito de "Tzniut", incluindo na exigência de recato também obrigações na área de "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu semelhante), isto é, dando à "Tzniut" uma responsabilidade social.

As leis de "Tzniut" exigem que a pessoa viva de uma maneira que ela não invada o espaço dos outros. Nossas ações devem ser medidas em termos de como elas vão impactar os outros, e isto deve levar em consideração a sensibilidade de cada um. A maneira de se vestir exigida pela Halachá (Lei judaica) não é ditada apenas por quanto do nosso corpo deve estar coberto, mas também leva em conta a consciência social de que se vestir de uma maneira provocativa pode ser um ataque à sensibilidade dos outros. Roupas que atendem às especificações "Haláchicas" em termos do comprimento das peças ainda assim podem transgredir as leis de "Tzniut" se forem roupas que chamam muita atenção.

Mas permanecer dentro do nosso próprio espaço e não invadir o espaço dos outros não se aplica apenas ao vestuário. A fala é uma área na qual temos muita dificuldade para levar em consideração a sensibilidade dos outros. Frequentemente nós falamos por causa do benefício que teremos com o que estamos dizendo, mas não percebemos que podemos estar causando danos aos outros com o conteúdo, o volume de voz e o quanto nos alongamos nas nossas conversas.

Todos os exemplos de "Tzniut" atribuídos à nossa matriarca Rachel e seus descendentes envolvem o domínio sobre as palavras pronunciadas. No caso de Rachel, foi ressaltado o fato de ela ter conseguido o discernimento do tempo correto para divulgar informações importantes. Em relação aos seus descendentes, foram ressaltadas suas habilidades de se abster de revelar informações, mesmo envolvendo custos pessoais. De acordo com o Rav Yochanan Zweig, o motivo de Esther não ter revelado sua origem foi porque ela tinha uma ascendência real, era descendente direta de Shaul Hamelech, o primeiro rei de Israel. Ela entendeu que revelar esta informação colocaria as outras participantes do concurso em desvantagem, e por isso ficou quieta. Assim Esther demonstrou que havia herdado de Rachel as características de "Tzniut", isto é, a sensibilidade com o próximo mesmo quando isto envolve uma perda pessoal.

E onde vemos a "Tzniut" de Biniamin? Uma pessoa que passou por uma experiência terrivelmente traumática frequentemente é incapaz de falar abertamente sobre o tema, pelo medo que, ao trazer novamente o assunto à tona, isto causará com que a experiência negativa seja reavivada. Uma das formas de superar este medo é conversando com uma pessoa que se preocupa com ela, pois isso ajuda a aliviar um pouco o peso do trauma. Biniamin certamente passou por uma experiência tremendamente traumática quando seu único irmão materno, Yossef, foi vendido como escravo por seus irmãos paternos. Foi uma perda irreparável para Biniamin, e o único com quem ele poderia dividir seus sentimentos era seu pai. Mesmo assim, o Midrash nos ensina que ele se conteve e não falou nada para seu pai.

Ao atibuir a "Yashpe" como a pedra preciosa que representa Biniamin, a Torá está atestando que o motivo pelo qual Biniamin não contou ao seu pai sobre o destino verdadeiro do seu irmão não foi o resultado de sua inabilidade de lidar com o seu trauma. Ao contrário, a Torá ressalta que "Yesh pe", "tem boca", isto é, Biniamim tinha todas as condições psicológicas de lidar com seu trauma e contar tudo o que sabia para o seu pai. Embora ele certamente obteria um enorme benefício emocional ao desabafar com seu pai, a consciência da dor que seu pai sentiria quando ficasse claro para ele o terrível ato de seus filhos fez com que Biniamin decidisse permanecer calado. Esta sensibilidade aguçada de proteger os outros da dor, mesmo que o preço seja um sacrifício pessoal, deriva da perfeição do traço de caráter de "Tzniut" que Biniamin herdou de sua mãe.

Da Parashá aprendemos que tão importante quanto a "Tzniut" das nossas roupas é a "Tzniut" das nossas bocas. Precisamos nos cuidar muito com o que falamos, como falamos e porque falamos, para que nossas palavras não sejam piores do que o nosso silêncio.

SHABAT SHALOM e PURIM SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
 http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 27:20-30:10, Ez.43:10-27
 
 
 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

TZEDAKÁ NUNCA É DEMAIS - PARASHÁ TERUMÁ 5775

"O Rav Yoel Teitelbaum zt"l (Império Austro-Húngaro, 1887 - EUA, 1979), mais conhecido como Satmer Rebe, foi um dos maiores "Gabaim Tzedaká" (pessoa que recolhe fundos para distribuir aos necessitados) de sua geração. Todo o dinheiro que chegava às suas mãos, milhares de dólares todos os meses, era imediatamente distribuído entre os pobres e necessitados.

Certa vez chegou ao Rebe de Satmer um homem muito pobre, que começou a se queixar das adversidades e dificuldades pelas quais passava na vida. Comentou que havia perdido precocemente sua esposa, e ela havia deixado vários órfãos sob seus cuidados. Disse também que era manco de uma perna, o que causava muita dificuldade para conseguir um bom emprego. Falou ainda que não tinha nem mesmo condições para comprar comida para alimentar seus filhos pequenos. Após desabafar por alguns minutos, com os olhos cheios de lágrimas, o homem estendeu a mão ao Rebe de Satmer para receber algum dinheiro. Como de costume, o Rebe de Satmer ficou muito sensibilizado e deu àquele homem uma boa quantia de dinheiro. Ele se despediu do pobre com muitas Brachót, desejando que sua situação melhorasse. O homem pobre agradeceu e saiu de lá mancando.

Após alguns minutos entrou na sala do Rebe de Satmer o zelador da sinagoga. Como ele estava aflito e visivelmente alterado, o Rebe percebeu que havia algo errado. O homem, quase sem fôlego, começou a falar:

- Rebe, sabe aquele homem que saiu daqui há alguns minutos, dizendo que era manco? Ele é um mentiroso! Eu o vi saindo da sinagoga mancando, mas quando ele virou a esquina, apoiou o pé no chão e começou a andar normalmente! Além disso, ele disse que era viúvo, mas sua esposa o estava esperando na esquina. Rebe, tudo o que ele contou é mentira!!!

O zelador da sinagoga viu que o Rebe ficou agitado com o que escutou. Ele achou que o Rebe o mandaria correr atrás daquele homem para recuperar o dinheiro, já que tratava-se de um impostor. Mas, para sua surpresa, o Rebe deu um grande suspiro e disse:

- Uau, que enorme alegria você me deu com esta notícia. Baruch Hashem que este homem não é manco, que ele não é viúvo, e que não existem as dificuldades que ele contou…"

Quando damos Tzedaká (caridade) para uma pessoa necessitada, o principal que devemos usar não é a carteira, e sim o coração. 
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Na Parashá desta semana, Terumá, a Torá começa a descrever a construção do Mishkan (Templo Móvel), o lugar onde residia a Presença Divina. O Mishkan também era o local onde eram feitos vários Serviços Divinos, como a oferenda de Korbanót (sacrifícios), a oferenda de incensos e o acendimento da Menorá. Para estes Serviços Divinos foram construídos, junto com a estrutura do Mishkan, vários utensílios, tais como o altar de sacrifícios, o altar de incensos e a Menorá, feitos de ouro puro ou de outros materiais nobres. De onde saíram estes materiais nobres utilizados na construção do Mishkan e de seus utensílios?

A resposta está nas primeiras palavras da Parashá: "Fale com os Filhos de Israel e peguem para mim uma doação" (Shemot 25:2). Todos os materiais para a construção do Mishkan e seus utensílios foram doados pelo povo, e cada um doou de acordo com sua vontade. Estes materiais nobres vieram dos objetos preciosos que os judeus pegaram dos egípcios quando estavam saindo do Egito. Nossos sábios ressaltam que há algo interessante na palavra "Terumá" (תרומה), que significa "doação". As mesmas letras desta palavra, rearranjadas, formam a palavra "Hamotar" (המותר), que significa "o excesso". Qual a relação entre doações e excessos?

Explica o Rav Ytzchak Zilberstain shlita que quando D'us nos julga, Ele utiliza duas medidas: Din (Julgamento) e Cheshbon (Cálculos). Din é o julgamento que leva em consideração somente o ato no momento em que a pessoa o cometeu, enquanto Cheshbon é o julgamento que também leva em consideração os atos da pessoa em outros momentos. Por exemplo, quando alguém com necessidades financeiras pede ajuda a uma pessoa e ela se nega a ajudar, argumentando que não tem condições financeiras, neste momento esta pessoa é julgada por D'us por sua omissão. Como o Din julga a pessoa apenas naquele momento, isto dá para ela o benefício da dúvida e é levada em consideração a possibilidade da pessoa realmente não ter condições de ajudar por estar "apertada". Mas este julgamento não é encerrado imediatamente, ele fica suspenso, até que na semana seguinte esta mesma pessoa passa o dia inteiro no shopping, "torrando" dinheiro em coisas completamente supérfluas. Neste momento entra o Cheshbon, e a pessoa passa a ser duramente questionada: por que ela não foi comedida nos seus gastos do shopping da mesma maneira que foi comedida nos seus gastos de doação aos necessitados? Onde foi parar a dificuldade financeira que não a deixava ajudar os pobres? O Cheshbon prova que, na verdade, a "falta de dinheiro" era apenas uma desculpa egoísta para não ajudar alguém com necessidades.

Este conceito ajuda a responder nossa pergunta. Quando D'us encontra na casa de uma pessoa certos excessos, esta pessoa é imediatamente colocada em um grande teste. Pelos móveis caros da casa, é perceptível que o dono não se importa em gastar dinheiro e está disposto a esbanjar, sem peso na consciência, altas quantias em coisas completamente desnecessárias e luxos apenas ostensivos. Isto é considerado "excesso", pois a pessoa não necessita realmente de grande parte das coisas que compra. Então D'us fica aguardando o momento em que um pobre ou alguém recolhendo dinheiro para alguma causa importante for bater na porta daquela pessoa. Neste momento, no qual a pessoa tem a possibilidade de gastar seu dinheiro fazendo uma doação, D'us observa se a quantia doada será proporcional aos gastos com as coisas supérfluas da casa. Será que a mesma característica de ser "mão aberta" demonstrado na compra daquele magnífico sofá na loja mais cara da cidade se repetirá quando o assunto em questão for os gastos com Mitzvót?

Portanto, esta é a relação entre "doação" e "excesso". Enquanto para os nossos luxos pessoais, nosso "excessos", não medimos gastos, será que o mesmo acontece em relação à nossa ajuda aos necessitados? Nosso Ipad precisa ser o mais moderno e o nosso Iphone precisa ser o mais atual, mas será que nossos gastos com Tzedaká também são assim tão "caprichados"? Achamos que testes são apenas as dificuldades e os desafios pelos quais passamos, mas na verdade todas as coisas boas que D'us nos dá também são testes. Por exemplo, quando Ele nos dá dinheiro em abundância, Ele está testando se utilizaremos a Brachá (benção) que recebemos para também beneficiar pessoas menos favorecidas ou se utilizaremos de forma egoísta o que Ele nos presenteou. Por isso nossos sábios nos advertem que o teste da abundância é ainda mais difícil do que o teste da escassez.

Porém, se por um lado vimos que há uma enorme cobrança se tivermos a possibilidade e não dermos Tzedaká aos necessitados, por outro lado nossos sábios ressaltam os enormes benefícios recebidos por aqueles que dão Tzedaká e ajudam a sustentar os pobres e necessitados. Quando cumprimos qualquer Mitzvá da Torá, os méritos adquiridos ficam guardados para o Olam Habá (Mundo Vindouro), mas neste mundo não recebemos nenhum tipo de recompensa, como afirma o Talmud (Kidushin 39b) "Não há recompensa pelas Mitzvót neste mundo". Outra fonte do Talmud (Eruvin 22a) também afirma: "Hoje (no Mundo Material) é para cumpri-las (as Mitzvót), e amanhã (no Mundo Vindouro) é para receber suas recompensas". Mas em relação à Mitzvá de Tzedaká o Talmud (Taanit 9a) afirma: "Doe seu dízimo (aos pobres e necessitados) para que você possa enriquecer". Isto quer dizer que, diferente do que ocorre nas outras Mitzvót, aquele que dá Tzedaká já recebe uma recompensa neste mundo, sem perder o que está guardado para ele no Mundo Vindouro.

A palavra "Tzedaká" normalmente é traduzida como "caridade", mas a tradução correta é "justiça". Significa que, quando uma pessoa que recebeu de D'us muitos bens ajuda alguém em piores condições, ela não está fazendo uma bondade, e sim um ato de justiça. Afinal, para que D'us deu para ela tanto dinheiro, para que ela gastasse de forma egoísta com excessos ou para que utilizasse para transformar este mundo em um lugar melhor? É indiscutível que o mundo material nos dá muitos prazeres, mas certamente não há prazer e alegria maior do que saber que fizemos a diferença na vida de alguém que precisava de ajuda.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Ex. 25:1-27:19, 1 Rs. 5:12 -6:13

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

INTEIRO E NÃO PELA METADE - PARASHÁ MISHPATIM 5775

"Certa vez Eliezer, um jovem estudante de Torá, aprendeu uma grande lição sobre como fazer Chessed (bondade) com os necessitados. Ele foi convidado para comer uma Seudá (refeição) de Shabat na casa do Sr. Stern (nome fictício), no mesmo Shabat em que o dono da casa também tinha convidado um homem pobre para a Seudá. Após o primeiro prato, onde apenas alguns pedaços de pão e saladinhas haviam sido servidos, o Sr. Stern animadamente começou a cantar músicas de Shabat. Uma música, duas músicas, três músicas se passaram, mas a animação do Sr. Stern não passava. Já na quinta música o pobre, não aguentando mais de fome, desabafou:

- Por favor, chega de músicas e vamos para o próximo prato de comida!

O Sr. Stern olhou para o pobre, incrédulo, e respondeu rispidamente:

- Por favor, um pouco de Derech Eretz (bons modos), meu amigo!

A esposa do Sr. Stern, que estava na cozinha, ao escutar a discussão na sala, entrou e disse para o marido:

- Querido, não entendi. Você convidou este senhor para te ouvir cantando, para ensiná-lo a se portar com Derech Eretz ou para alimentá-lo?" (História Real).

Quando fazemos bondades, precisamos fazer de maneira completa, dando a cada um o que ele realmente necessita, e não o que nós achamos que é importante.
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Nesta semana lemos a Parashá Mishpatim, que traz muitas Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), entre elas algumas Mitzvót associadas ao empréstimo de dinheiro, como está escrito: "Quando você emprestar dinheiro para o Meu povo, para a pessoa pobre que estiver com você, não se comporte com ele como um credor; não coloque juros sobre ele. E se você pegar as roupas do seu companheiro como garantia, até o por do sol você deve devolver a ele, pois é a única vestimenta dele, é a roupa para sua pele, com o que ele se deitará? Porque se ele gritar para Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso" (Shemot 22:24-26).

Superficialmente, estes versículos nos ensinam algumas Mitzvót simples e fáceis de serem entendidas. Porém, se refletirmos um pouco, nos despertam alguns questionamentos. Em primeiro lugar, vemos que a Torá incluiu outras Mitzvót, como a Mitzvá de devolver o objeto penhorado e a proibição de cobrar juros, junto com a Mitzvá de emprestar dinheiro, como forma de garantir que o Chessed (bondade) seja feito de maneira completa. Mas por que a Torá se preocupou com isso? O importante não é apenas fazer bondade, mesmo que não seja de forma completa?

Além disso, estas Mitzvót associadas ao empréstimo de dinheiro também despertam questionamentos. Por exemplo, está escrito "não se comporte com ele como um credor". Explica o Rav Shlomo Itzchaki zt"l (França, 1040 - 1105), mais conhecido como Rashi, que se sabemos que a pessoa está passando por dificuldades no momento e é incapaz de devolver o empréstimo, não devemos pressioná-la mesmo que tenha chegado o prazo do pagamento. Ao contrário, Rashi ressalta que devemos fazê-la se sentir como se o empréstimo nunca tivesse acontecido, para não envergonhá-la. Mas este ensinamento é estranho, pois se chegou a data combinada para o pagamento, por que o credor não pode cobrar a dívida? É errado querer receber o próprio dinheiro de volta?

Outro ponto intrigante é a proibição de cobrar juros. Há um Midrash (parte da Torá Oral) que nos ensina o quanto cobrar juros é grave. De acordo com o Midrash, sempre que alguém comete uma transgressão, os anjos do Céu tentam procurar méritos para o transgressor, para aliviar as consequências espirituais. Mas se a transgressão for a cobrança de juros, os anjos não procuram nenhum mérito para o transgressor. Porém, por que cobrar juros é proibido, se uma pessoa que está em uma situação difícil, precisando urgentemente de dinheiro, não se importa em pagar um pouco a mais quando estiver em uma situação mais confortável? Apesar disso, por algum motivo a Torá proíbe, de maneira muito rigorosa, o empréstimo a juros, mesmo que seja com taxas muito baixas. Por que tanta rigorosidade se, afinal, a pessoa fez uma bondade com o próximo necessitado?

Finalmente aprendemos dos versículos que, ao pegarmos uma roupa como garantia de pagamento de um empréstimo, se esta for a única roupa que a pessoa tem para usar, somos obrigados a devolver nos momentos em que ela necessitar da roupa. Por exemplo, se a garantia for um cobertor, ele pode ficar na posse do credor durante o dia, mas todas as noites o cobertor deve ser devolvido para que a pessoa possa se cobrir. Porém, esta lei aparentemente anula todo o propósito do devedor deixar um objeto como garantia, pois se ele pode continuar utilizando o objeto normalmente todas as vezes em que necessitar, ele fica muito menos motivado a pagar o empréstimo. Apesar de parecer contraditório, mesmo assim a Torá exige que o objeto penhorado seja devolvido ao seu dono sempre que ele precisar. Portanto, qual é a lógica destas Mitzvót associadas à Mitzvá de emprestar dinheiro ao necessitado e o que elas vêm nos ensinar?

Explica o Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979) que a Parashá está nos ensinando a como fazer Chessed da maneira correta. O ponto em comum  entre todas estas leis é que elas ressaltam a importância de, quando fazemos um ato de Chessed, fazê-lo da maneira mais completa possível, pois um Chessed "defeituoso" diminui muito seu impacto positivo sobre a pessoa que recebe. Por isso, mesmo esta incrível Mitzvá de emprestar dinheiro para alguém necessitado precisa ser feita com extremo cuidado, sem pressionar de nenhuma maneira a pessoa. Mas não vemos o mesmo nível de cobrança com a pessoa que nem mesmo faz Chessed. Como pode ser que o "meio Chessed" pode ser mais grave do que não fazer Chessed?

Há um ensinamento interessante e enigmático do Talmud (parte da Torá Oral) que talvez nos ajude a responder esta pergunta. O Talmud (Sotá 13b) afirma que uma pessoa que começa uma Mitzvá mas não a termina é punido de uma maneira muito severa. Porém, por que um castigo tão duro para alguém que pelo menos começou a Mitzvá, se aquele que não faz nada da Mitzvá não é punido de maneira tão rígida? Explica o Rav Moshe Shterenbuch shlita que nosso julgamento depende da claridade que temos sobre o que é certo e o que é errado. Quanto maior a claridade, maior o nível de cobrança. Aquele que iniciou uma Mitzvá demonstra que, por querer cumpri-la, ele aprecia o valor da Mitzvá. Portanto, se ele deixa de terminá-la, é como se estivesse desprezando algo que ele sabe que é muito elevado e importante, e por isso o castigo é tão severo. Já aquele que nem começou a Mitzvá é considerado alguém que ainda não entende a importância das Mitzvót, que não tem claridade, e por isso é julgado de uma maneira mais leniente.

De acordo com o Rav Chaim Shmulevitz, o mesmo se aplica aos atos de Chessed. Quanto mais a pessoa sabe o verdadeiro valor do Chessed e sua importância, mais rigidamente ele é tratado caso não faça o Chessed da maneira correta. É por isso que aquele que cobra juros, que pressiona o devedor ou que não devolve o objeto tomado como garantia, apesar de apreciar o valor de um ato de Chessed, ao mesmo tempo despreza este ato ao fazê-lo de maneira incompleta, pois junto com a bondade vem algum tipo de sofrimento ao devedor. Já aquele que nem se ocupa em fazer bondades demonstra que não entendeu o valor verdadeiro deste ato e, por isso, é tratado de forma menos rigorosa.

Portanto, fica um importante ensinamento para as nossas vidas: quando decidimos fazer Chessed com outra pessoa, é muito importante nos esforçarmos ao máximo para aumentar os efeitos positivos deste Chessed e não deixar que nenhuma mancha diminua o verdadeiro valor deste belo ato. Parece algo teórico, mas este conceito certamente se aplica a muitas situações cotidianas. Por exemplo, quando alguém nos pede uma ajuda ou qualquer tipo de favor e nós, apesar de aceitarmos, o fazemos com relutância, demonstrando que não estamos fazendo com muita vontade. Embora seja de qualquer maneira uma bondade, esta relutância causa certo incômodo naquele que pediu o favor, pois ele se sente desconfortável de ter causado um inconveniente. Por isso devemos sempre nos esforçar para ajudar os outros com um sorriso no rosto, mesmo quando nos pedem algo difícil ou trabalhoso. Isto aumenta muito os benefícios do Chessed que fazemos, pois além de ajudar a pessoa necessitada, não a deixamos com a consciência pesada por ter nos incomodado.

O mesmo se aplica quando damos uma Tzedaká (caridade) para um pobre. Temos que saber que é humilhante para uma pessoa ter que pedir dinheiro, e se damos a Tzedaká com a cara fechada, como se fosse um grande peso, a ajuda vem com uma carga negativa. Por isso, sempre que damos Tzedaká, devemos fazer com um sorriso no rosto. O próprio Talmud (Baba Batra 9b) afirma que aquele que dá Tzedaká sem entusiasmo recebe 6 Brachót, mas aquele que dá com um sorriso e com alegria recebe 17 Brachót, quase o triplo! Isto acontece pois aquele que faz Chessed sem entusiasmo diminui muito o efeito da sua bondade, enquanto aquele que faz Chessed com um sorriso demonstra o quanto ele realmente valoriza o ato de ajudar o próximo. Quando nos importamos de verdade com os necessitados, D'us também se preocupa com as nossas necessidades. Mas se ignoramos o que os outros necessitam, certamente também nossas próprias necessidades serão ignoradas por D'us.

O versículo termina com as palavras "porque se ele gritar para Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso", para nos ensinar que, mesmo se fizermos uma grande bondade, se junto com isso causarmos também sofrimento e humilhação para a pessoa beneficiada, então seremos cobrados. Daqui aprendemos que não adianta fazermos "meias bondades" na vida. Se queremos de verdade ajudar alguém, deve ser como todo nosso coração e com toda a nossa força, com um sorriso no rosto, para que aquele que recebe as bondades possa se sentir feliz de maneira completa, e não pela metade.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Ex. 21:1-24:18, Jr 34:8-22, 33:25-26

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O BEM ESTAR DOS OUTROS - PARASHÁ ITRÓ 5775

"O Sr. Johnson pediu para conversar com seu supervisor e foi convidado a ir à sala dele. O Sr. Johnson estava com uma expressão séria no rosto quando entrou, e começou a falar:

- Chefe, tenho um pedido importante para fazer. Amanhã minha esposa está planejando fazer uma grande arrumação e limpeza em casa. Ela me pediu ajuda, e me deixou responsável pela limpeza da garagem e do sótão, e certamente será um trabalho duro, que inclui empurrar móveis pesados de um lado para o outro, empacotar coisas e jogar muito lixo fora. Além disso, ela me disse que precisa de ajuda para cuidar das crianças, mantê-las ocupadas, dar comida e banho nelas. Por isso, preciso que você me dispense amanhã do trabalho para que eu possa ajudá-la.

- Johnson - respondeu o chefe - você é um ótimo funcionário e eu entendo a necessidade de sua esposa. Porém, infelizmente estamos atualmente com poucos funcionários e não temos ninguém para te substituir. Por isso, não posso te dispensar de jeito nenhum amanhã, me desculpe.

Para a surpresa do supervisor, que esperava uma reação de nervosismo e irritação, Johnson imediatamente abriu um enorme sorriso, deu um grande abraço no supervisor e disse:

- Obrigado, chefe. Sabia que eu podia contar com você..."

Será que nos nossos relacionamentos estamos realmente preocupados com as necessidades dos outros e sempre buscando formas de ajudar, ou preferimos buscar formas de nos isentar das nossas responsabilidades?

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 Nesta semana lemos a Parashá Itró. Entre outros assuntos, a Parashá traz os Dez Mandamentos, entregues ao povo judeu na primeira e última vez na história da humanidade na qual D'us se revelou a um povo inteiro. Estes mandamentos são fundamentais para a nossa conduta, tanto em relação à D'us quanto em relação ao próximo. D'us dividiu os Mandamentos em duas tábuas, cinco Mandamentos baseados no nosso relacionamento com Ele e cinco Mandamentos baseados no nosso relacionamento com o próximo, justamente para nos ensinar como o nosso relacionamento com o próximo é tão importante aos olhos de D'us.

O primeiro mandamento, que é a base para todas as Mitzvót da Torá, nos chama a atenção em seus detalhes. Está escrito: "Eu sou Hashem, teu D'us, que te tirou do Egito" (Shemot 20:2). Este Mandamento exige de nós Emuná, a crença de que existe um Criador, que criou todo o Universo e controla cada pequeno detalhe de tudo o que ocorre com "Hashgachá Prati" (Supervisão Particular). Mas por que está escrito que Hashem é o D'us que nos tirou do Egito? Não teria sido mais apropriado Hashem ter se definido como o D'us que criou o Universo? Se D'us é definido como o Criador, isto O coloca como o único responsável por toda a existência, mas se Ele é definido como Aquele que nos tirou do Egito, isto O coloca apenas como o responsável por um evento histórico, algo muito menor, que não expressa a verdadeira grandeza Dele. Portanto, por que utilizar esta expressão logo no primeiro Mandamento?

O Rav Shlomo Itzchaki zt"l (França, 1040 - 1105), mais conhecido como Rashi, traz duas explicações. Em primeiro lugar, Rashi explica que é como se D'us estivesse dizendo ao povo judeu: "Eu sou o D'us que tirou vocês do Egito, e isto já é razão suficiente para que vocês sirvam a Mim". Aparentemente Rashi está explicando que nós somos obrigados a servir a D'us pelo fato Dele ter nos salvado da tirania do Faraó. Rashi traz também outra explicação, baseada em um Midrash (parte da Torá Oral) que afirma que quando D'us estava punindo os egípcios, Ele apareceu ao povo judeu como um "homem de guerra", enquanto no Monte Sinai, no momento da entrega da Torá, Ele apareceu como um "homem idoso cheio de misericórdia". Como havia o risco de o povo judeu achar que existiam duas divindades independentes, então D'us fez questão de afirmar "Eu sou o D'us que tirou vocês do Egito", isto é, existe apenas um único D'us, que se manifestou de forma diferente nas duas ocasiões. D'us estava se identificando no Monte Sinai como sendo aquela mesma força que havia tirado o povo judeu do Egito, para desfazer qualquer mal entendido.

Porém, há algo aparentemente contraditório nas duas explicações trazidas por Rashi. Se o Midrash afirma que D'us apareceu para o povo judeu no Monte Sinai como um idoso cheio de misericórdia, então como este idoso misericordioso estava afirmando que o povo judeu deveria se subjugar a Ele? Não parecem ideias contrárias, alguém demandando subserviência e, ao mesmo tempo, sendo um ancião misericordioso?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está no entendimento correto das palavras do Rashi. Quando o povo judeu saiu do Egito, iniciou-se um relacionamento do povo com D'us. A primeira resposta do Rashi não significa que a base do nosso relacionamento com D'us é que nós devemos a Ele nossa fidelidade por Ele ter nos salvado do Egito. Ao contrário, Rashi está explicando que a base para qualquer relacionamento saudável é que cada uma das partes se preocupe com o bem estar do outro. O fato de Hashem ter nos tirado do Egito reflete Sua compaixão e o cuidado com o povo judeu e é, portanto, a pedra fundamental do relacionamento. O que Rashi está nos ensinando é que a expressão "isto já é razão suficiente para que vocês sirvam a Mim" significa que é apropriado que o ato de D'us, de nos ter tirado do Egito, seja a base para que sirvamos a Ele, pois foi a demonstração do Seu comprometimento e da Sua preocupação com o nosso bem estar. Por isso a Torá afirma que, a partir daquele momento, era a nossa vez de mostrar o nosso comprometimento.

O relacionamento criado no Monte Sinai entre D'us e o povo judeu é descrito pelos nossos sábios como um casamento e, portanto, deveria refletir um caráter de exclusividade. Se estivesse declarado que D'us é o Criador do Universo, isto não indicaria nenhuma preocupação especial e única com o povo judeu, e por isso não poderia ser a pedra fundamental do casamento entre os dois. Já a saída do Egito, que foi feita única e exclusivamente para o povo judeu, é a base apropriada para nossa conexão eterna.

Esta Parashá nos traz um incrível ensinamento sobre o nosso relacionamento com D'us que também deve ser utilizado em todos os nossos relacionamentos humanos. A base de qualquer relacionamento, para que ele seja sincero, verdadeiro e duradouro, precisa ser a vontade de fazer o bem, de querer ajudar o outro, e não uma motivação egoísta, de pensar no que podemos ganhar com o relacionamento. Não são raras as histórias de pessoas ricas, cheias de "amigos", que ficaram sozinhas após terem perdido seu dinheiro. Por que isto acontece? Pois não eram amigos verdadeiros, eram apenas oportunistas querendo aproveitar e "sugar" tudo o que fosse possível. O amigo de verdade é aquele que quer o seu bem, que quer fazer algo por você, não aquele que quer apenas receber.

Isto não se aplica apenas nos relacionamentos de amizade, mas também é a base para um casamento verdadeiro e duradouro. O primeiro casamento registrado na Torá é o de Adam e Chavá (Adão e Eva), enquanto eles ainda estavam no Gan Éden. Quando D'us criou o mundo, havia apenas Adam, e D'us exclamou: "Não é bom o homem estar sozinho; farei para ele uma companheira correspondente a ele" (Bereshit 2:18). Mas esta afirmação de D'us é difícil de ser entendida. Há um Midrash (parte da Torá Oral) que afirma que Adam estava em um lugar paradisíaco, com os anjos servindo-o com as melhores iguarias e cuidando de todas as suas necessidades. Então por que D'us afirmou que não era bom o homem estar sozinho? O que faltava para ele? Respondem os nossos sábios que realmente não faltava nada para Adam receber, mas mesmo assim ainda faltava algo para ele ser completo: alguém com quem ele pudesse fazer bondades. Enquanto Adam não tinha Chavá, ele não podia se comportar como D'us, que apenas faz bondades sem receber nada em troca. Cada vez que nos comportamos como D'us, nos conectamos a Ele e nos preenchemos, enquanto toda vez que nos comportamos ao contrário de D'us, nos desconectamos Dele e aumentamos ainda mais o nosso vazio existencial.

A essência de um casamento verdadeiro é quando há comprometimento entre as partes, quando o foco de cada um é visar o bem estar do outro, buscar maneiras de como fazer bondades, não apenas querer receber e ter proveito. Hoje em dia há muitos divórcios, pois as pessoas perderam até mesmo a claridade de qual é o propósito do casamento. O casamento se tornou algo egoísta, uma tentativa de preencher o que nos falta. Mas tudo isso vem da falta de claridade de que o que nos preenche de verdade é o que fazemos e doamos para os outros, não o que recebemos.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Exodo 18, 1- 20,26

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

VIVENDO COM RESPONSABILIDADE - PARASHÁ BESHALACH 5775


"Numa granja, havia uma galinha que se destacava das outras por sua coragem, espírito de aventura e ousadia. Ela não tinha limites, pois sentia a responsabilidade de ser um exemplo para as outras galinhas. Suas atitudes contagiavam e motivavam. O dono da granja, porém, não apreciava estas qualidades e estava aborrecido com ela.

Um dia, o dono da granja fincou um bambu no meio do campo, amarrou nele uma extremidade de um barbante e a outra extremidade ele amarrou no pé daquela galinha.  Desse modo, de repente, o mundo tão amplo da galinha foi reduzido a exatamente até onde o barbante lhe permitia chegar.  A galinha tentou se libertar algumas vezes, mas depois desistiu. E assim começou a passar seus dias ali, ciscando, comendo e dormindo, dia após dia, até que se acomodou. De tanto andar nesse círculo, a grama que era verde foi desaparecendo e ficou somente terra.  Era interessante ver delineado um círculo perfeito em volta dela.  Do lado de fora, onde a galinha não podia chegar, a grama verde. Do lado de dentro, só terra.

Depois de um tempo, o dono da granja teve dó da galinha, pois ela era tão agitada e corajosa, mas havia se tornado uma ave pacata. Então ele cortou o barbante que a prendia pelo pé e a soltou. Agora a galinha estava livre, o horizonte novamente seria seu limite, ela poderia ir para onde quisesse. Mas a galinha, mesmo solta, não ultrapassava o limite que ela própria havia criado em sua cabeça.  Só ciscava e andava dentro do círculo, no seu limite imaginário. Olhava para o lado de fora, mas não tinha coragem suficiente para se "aventurar" a ir até lá.  Preferiu ficar do lado conhecido, em sua zona de conforto. Esqueceu-se de sua responsabilidade de ser um exemplo e, com o passar do tempo, envelheceu e ali morreu".

Quando nos acomodamos e aceitamos passivamente que as dificuldades da vida nos derrubem, terminamos sem forças para lutar. Temos que viver com garra, com a vontade de vencer os desafios, com a responsabilidade de nos tornarmos um exemplo para o mundo. Isto nos dará a energia que precisamos para alcançar o sucesso. 
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Na Parashá desta semana, Beshalach, o povo judeu havia sido libertado pelo Faraó, após ele ter sentido na pele a tremenda força de D'us, demonstrada através das 10 pragas que destruíram o Egito. Mas a felicidade do povo judeu durou pouco, pois mais uma vez D'us endureceu o coração do Faraó, fazendo-o decidir perseguir os judeus para novamente escravizá-los. Tudo isto ocorreu para que D'us pudesse terminar o processo de libertação do povo judeu. No Mar Vermelho, quando D'us abriu o mar para o povo judeu e fechou-o sobre os egípcios, matando-os e deixando seus corpos à mostra na praia, os judeus puderam ter a certeza de que a escravidão egípcia havia terminado, física e psicologicamente, para sempre.

A abertura do Mar Vermelho é um dos eventos mais importantes da história do povo judeu, no qual D'us quebrou as leis da natureza para nos salvar, demonstrando o amor infinito que Ele sente por nós. Quando lemos os versículos que descrevem a travessia do mar, parece ter sido um evento tranquilo, sem muitas dificuldades. Mas os nossos sábios ensinam que houve um grande desafio, só superado pela coragem de uma das Tribos de Israel.

De acordo com a Tossefta (Parte do Talmud - Tratado de Brachót, 4:16), quando os judeus chegaram ao Mar Vermelho, divididos em 12 Tribos, se depararam com um mar revolto e perigoso. Começou então uma imensa discussão para saber quem seria a primeira Tribo a entrar no mar, cada Tribo tentando tirar de si a responsabilidade e tentando empurrá-la para as outras Tribos. Finalmente os membros da Tribo de Yehudá decidiram pular na água e enfrentar o desafio, santificando o Nome de D'us. De acordo com a Tossefta, isto foi tão valoroso que é considerado uma das atitudes que deu à Tribo de Yehudá o mérito de se tornar a Tribo dos reis de Israel. Pelo fato da Tribo de Yehudá ter agido de forma tão proativa e corajosa, estando disposta a encarar o enorme desafio enquanto as outras tribos preferiram ficar procurando desculpas para se esquivar de sua responsabilidade, ela foi recompensada com o mérito eterno de liderar o povo judeu.

A palavra "responsabilidade" muitas vezes nos causa um sentimento negativo, pois normalmente é difícil e desconfortável assumir responsabilidades. Dá trabalho, traz novas preocupações e desafios. Preferimos continuar tranquilos em nossa "zona de conforto", e por isso tentamos evitar assumir posições de responsabilidade durante a vida. Porém, esta busca de conforto não é compatível com a visão judaica da vida. Ao contrário de ser algo negativo, assumir responsabilidades é algo que nos energiza e nos dá forças. De acordo com o Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979), a Tribo de Yehudá decidiu entrar no mar pois se sentiu pessoalmente responsável pelo resto do povo judeu e entendeu que deveria cumprir a obrigação que recaía sobre ela. Neste momento, justamente por este sentimento de responsabilidade em relação ao resto do povo, ela se tornou a maior de todas as Tribos de Israel. Imediatamente as pessoas da Tribo de Yehudá receberam uma força e um poder adicional, que permitiu a elas ter a coragem de entrar no mar e fazer com que o grande milagre da abertura das águas acontecesse, possibilitando ao povo judeu inteiro atravessar com segurança o mar completamente seco. Por tomar sobre si a responsabilidade, a Tribo de Yehudá meritou receber um dos mais importantes papéis dentro do povo judeu e se tornar, para sempre, a Tribo dos reis de Israel.

O Rav Chaim Shmulevitz zt"l traz uma prova do quanto uma pessoa que assume responsabilidades na vida é vista com bons olhos por D'us. O Talmud Yerushalmi (Bikurim 3:3) afirma que três tipos de pessoas são dignas de receber expiação por todos os seus pecados: um sábio, um "chatan" (pessoa recém-casada) e alguém que subiu em grandeza. O Talmud traz uma passagem da Torá para comprovar que o "chatan" é perdoado por seu pecados: "E foi Essav a Ishmael, e tomou para si (como esposa) Machlat, filha de Ishmael" (Bereshit 28:9). O Talmud questiona esta passagem, pois o nome da filha de Ishmael era Bassmat, não Machlat. Então por que a Torá não escreveu o nome verdadeiro dela? Pois a palavra "Machlat" tem a mesma raiz de "Mochel", que significa "perdoar". Isto nos ensina que, no dia do casamento de Essav com Bassmat, ele foi perdoado por todos os pecados que havia cometido na vida.

Mas como entender este ensinamento do Talmud? Essav era um completo Rashá (malvado), que praticava as piores transgressões possíveis e imagináveis, e em nenhum momento a Torá diz que ele se arrependeu dos seus maus atos. Sabemos que mesmo no dia de Yom Kipur, o Dia do Perdão, nossos erros não são perdoados a não ser que estejamos sinceramente arrependidos de todos eles. Então como pode ser que, mesmo sem esforço e sem nenhum tipo de arrependimento, as transgressões de Essav foram perdoadas?

Responde o Rav Chaim Shmulevitz zt"l que o que há de único e especial em um homem recém-casado é que ele aceitou sobre si a responsabilidade de cuidar de sua esposa, e não há nada maior do que alguém que recebe sobre si o jugo da responsabilidade. Por isso um "chatan" recebe uma "Siata Dishmaia" (Auxílio dos Céus) especial, para ajudá-lo a ter sucesso em cumprir sua nova obrigação na vida, e ele é perdoado por todos os seus pecados para que possa deixar para trás seu passado e consiga fazer jus à sua nova responsabilidade assumida. Receber sobre si um novo nível de responsabilidade é um feito tão grande que a pessoa merita ser vista por D'us como alguém que recomeça a vida com uma folha nova, em branco, na qual ela literalmente recomeça a escrever sua história em um novo nível de existência. Foi por isso que Essav, mesmo sem nenhum arrependimento, foi perdoado por seus pecados no momento em que se casou.

A medida de quanto uma pessoa está disposta a receber sobre si responsabilidades é um dos fatores determinantes da grandeza que ela atingirá na vida. D'us nos deu o livre arbítrio para que possamos utilizá-lo de forma a nos responsabilizarmos por cumprir nossas obrigações. O livre arbítrio é, em essência, a habilidade de fazer escolhas, de decidir mudar, de querer crescer e atingir nosso potencial verdadeiro. Se uma pessoa faz esta escolha, então ela se torna uma nova criatura, cujo passado foi deixado para trás. É uma oportunidade de recomeçar e de ganhar novas forças para atingir o sucesso.

É verdade que às vezes a responsabilidade pode ser vista como um peso, algo que nos restringe e nos força a fazer coisas que não queremos nem gostamos de fazer. Mas o ato da Tribo de Yehudá nos ensina o contrário. Foi justamente a característica de tomar sobre si a responsabilidade, de se preocupar com o resto do povo, que permitiu que eles atingissem a grandeza. Quando a tribo de Yehudá se deparou com o mar revolto diante deles, eles fizeram a decisão de tomar sobre si a responsabilidade, ao invés de procurar jogá-la sobre os outros. Quando eles receberam sobre si cumprir a obrigação que recaía sobre eles, a Tribo de Yehudá se elevou a um nível muito mais alto.

O mesmo vale para cada um de nós. Se tivermos a coragem de ousar e nos levantarmos para assumir nossas reais responsabilidades na vida, pensando em tudo o que podemos fazer pelas nossas famílias e pelo mundo, certamente atingiremos uma grandeza que nunca poderíamos nem mesmo sonhar. Que possamos aproveitar as oportunidades que surgem na vida para que, ao receber as responsabilidades que recaem sobre nós, possamos atingir o nosso verdadeiro potencial.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 13:17-17:16, Jz. 4:4-5:31

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

ACERTO DE CONTAS - PARASHÁ BÔ 5775

 "Adam e Josef eram dois irmãos judeus que viviam na Rússia. Adam era um bom rapaz, mas Josef era encrenqueiro e gostava de colocar medo nas pessoas. Ele se alegrava de saber que podia fazer o que quisesse e nada aconteceria com ele, pois ninguém tinha coragem de castigá-lo para ensinar-lhe bons modos. As pessoas da comunidade dele se perguntavam se algum dia seus maus atos seriam castigados.
 Certa vez Adam e Josef resolveram partir em uma viagem sem destino certo. Em uma noite gelada eles entraram em um bar e, para fugir do frio, sentaram-se em uma mesa no canto do salão e pediram duas doses de vodca. Pouco tempo depois alguns camponeses russos, muito antissemitas, entraram na hospedaria. Eles começaram a beber muito e, quando já estavam completamente bêbados, levantaram-se para dançar em roda pelo salão. Foi quando um dos malvados russos viu os dois judeus sentados no canto e resolveu se divertir com eles. Cada vez que ele dava uma volta completa no salão, fazia questão de passar ao lado do pobre Josef, que estava sentado mais perto da roda de camponeses, e lhe dava um soco na cabeça.

Quando Adam viu que seu irmão apanhava muito e com ele não acontecia nada, decidiu trocar de lugar para receber as pancadas no lugar do irmão. Porém, exatamente no momento em que eles trocaram de lugar, o agressor russo pensou: "Acho que este judeu já apanhou o suficiente. A partir de agora vou começar a bater no irmão dele, que está sentado do outro lado..."

Cada sofrimento que recebemos é "sob medida". Não existem sofrimentos a mais nem a menos, pois não há erros nos cálculos Celestiais. No momento certo, cada mau ato será devidamente cobrado. 
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Na Parashá da semana passada, Vaerá, após as constantes recusas do Faraó em libertar o povo judeu, D'us mandou sobre os egípcios as primeiras sete pragas. E na Parashá desta semana, Bô, a Torá descreve as últimas três pragas: Gafanhotos, Escuridão e Morte dos primogênitos. Mas por que a Torá dividiu as pragas em duas Parashiót? E por que a divisão foi feita justamente desta maneira?

Além disso, antes da aplicação das três últimas pragas, D'us fez uma pequena introdução, na qual Ele transmitiu duas mensagens. Ele comandou Moshé a apresentar-se diante do Faraó para comunicar que ainda viriam mais pragas, como está escrito: "E disse D'us para Moshé: 'Venha ao Faraó, pois eu endureci seu coração e o coração de seus servos' " (Shemot 10:1), e comandou os judeus a contarem aos seus filhos os milagres que D'us fez no Egito, como está escrito: "Para que vocês contem nos ouvidos dos seus filhos e aos filhos dos seus filhos o que Eu fiz no Egito" (Shemot 10:2). Porém, estas duas mensagens se aplicariam também às sete pragas anteriores. Então por que somente agora D'us transmitiu estas duas mensagens a Moshé e ao povo judeu?

Também há algo que nos chama a atenção na última praga, a Morte dos primogênitos, na qual D'us matou todos os filhos primogênitos dos egípcios e poupou os filhos primogênitos dos judeus. Diferente das outras pragas, antes desta praga os judeus não ficaram assistindo passivamente, eles tiveram que participar. Cada judeu foi comandado a sacrificar um cabrito, que era uma das divindades no Egito, diante dos olhos dos egípcios, e pintar os batentes e umbrais das portas de suas casas com o sangue do cabrito sacrificado. Explicam os nossos sábios que esta incrível demonstração de Emuná (fé) do povo judeu foi necessária para aumentar os méritos dos judeus e protegê-los de qualquer dano no momento em que D'us estivesse aplicando a última praga. Este conceito foi reforçado quando D'us ensinou a Moshé sobre a praga da Morte dos primogênitos: "E Eu passarei pelo Egito nesta noite, e Eu golpearei todo primogênito na terra do Egito... E Eu verei o sangue (dos batentes e umbrais) e Eu saltarei sobre vocês, e vocês não serão atingidos pela praga" (Shemot 12:12,13). De acordo com o Rav Shlomo Itzchaki (França, 1040 - 1105), mais conhecido como Rashi, a palavra "Passachti", que significa "saltarei", também significa "terei misericórdia", ensinando que esta praga somente não atingiu também os judeus pelo mérito adicional que eles adquiriram e pela misericórdia de D'us. Mas por que nas outras pragas D'us atingiu somente os egípcios, e os judeus não precisaram de nenhum mérito adicional? E por que não está escrito que D'us utilizou uma medida a mais de misericórdia para poupar os judeus das outras pragas?

Explica Rashi, baseado em um Midrash (parte da Torá Oral), que as 10 pragas não foram aleatórias, elas seguiram uma estratégia de guerra. Quando um exército quer atacar e conquistar uma cidade, a primeira estratégia é cortar o suprimento de água, forçando os moradores a se renderem. Caso eles se recusem a se render, é lançada uma guerra psicológica, fazendo muito ruído para amedrontar os habitantes e fazê-los desistir da luta. Da mesma forma, a primeira coisa que D'us atacou foi o suprimento de água dos egípcios, transformando toda a água do Egito em sangue. Mas como isto não foi suficiente para os egípcios se renderem, então D'us mandou sobre eles os sapos, que emitiam um ruído assustador, causando pânico. E assim foi com cada uma das pragas, que iam minando as forças e destruindo a autoconfiança dos egípcios, até que eles finalmente se renderam.

O Midrash traz ainda mais uma motivação para D'us ter mandado as pragas sobre os egípcios. As pragas não foram meros "tapas" que D'us estava dando nos egípcios. Cada praga foi "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), isto é, para cada sofrimento que os egípcios haviam causado aos judeus durante o período de escravidão, eles foram castigados exatamente da mesma maneira. Cada praga foi "sob medida", uma punição exata para cada mau ato dos egípcios. Portanto, o Midrash está deixando claro que as pragas tiveram dois propósitos diferentes: forçar o Faraó e seu povo a se renderem e cumprirem a vontade de D'us, e punir os egípcios por cada sofrimento que eles haviam causado ao povo judeu.

É interessante perceber que depois da sétima praga, Granizo, os egípcios já haviam se rendido, como o próprio Faraó proclamou: "D'us é o Único Justo, enquanto eu e meu povo somos os malvados" (Shemot 9:27). Mas a partir deste momento D'us começou a endurecer o coração do Faraó, para que ele não deixasse o povo judeu sair. Mesmo que o Faraó já havia aceitado as exigências de D'us, as pragas precisavam continuar, para punir os egípcios e cumprir a promessa feita por D'us para Avraham Avinu: "Mas também a nação que eles servirão Eu julgarei" (Bereshit 15:14). A medida do castigo merecido pelos egípcios somente terminou com a aplicação das dez pragas. Mesmo com a rendição após a sétima praga, eles ainda precisavam passar pelo sofrimento das últimas três pragas.

Segundo o Rav Yohanan Zweig, desta maneira é possível entender a separação entre as pragas em duas Parashiót diferentes. As sete primeiras foram focadas em derrubar as resistências do Faraó e dos egípcios, e as três últimas tinham uma natureza punitiva. Enquanto as pragas tinham como propósito apenas derrubar a resistência do Faraó, não foi exigido nenhum mérito especial do povo judeu. Mas quando as pragas adquiriram uma natureza punitiva, então o Atributo de Justiça de D'us foi desencadeado e o povo judeu também passou a ser examinado de uma maneira mais rigorosa e minuciosa, e por isso precisava de méritos para se proteger do castigo.

Os judeus haviam se assimilado muito no Egito, e muitos faziam até mesmo idolatria. Por isso Moshé teve medo das consequências para o povo judeu das últimas três pragas. Consciente do perigo iminente ao povo, Moshé ficou relutante em continuar sua missão após a sétima praga, e por isso foi necessário um comando especial de D'us para que Moshé se apresentasse diante do Faraó para informá-lo de que as pragas continuariam. E Moshé estava certo em seus temores, pois quando o Atributo de Justiça de D'us foi desencadeado, ocorreram consequências trágicas também para o povo judeu. Há um Midrash que afirma que 80% do povo judeu morreu na nona praga, Escuridão, para que a morte deles fosse encoberta pela escuridão e os egípcios não pudessem testemunhar que os judeus também estavam sendo castigados.

E por que D'us comandou que o milagre das pragas fosse transmitido aos nossos filhos apenas nas últimas três pragas? D'us criou o mundo material para que Ele pudesse se ocultar, causando muitas vezes a impressão de que injustiças acontecem. Não são raras as vezes em que escutamos pessoas questionando a bondade de D'us com a famosa pergunta: "Por que as pessoas boas sofrem, enquanto as pessoas ruins têm tranquilidade na vida?". Certamente os judeus no Egito também tiveram este questionamento. Eles não entendiam como os egípcios causavam a eles tantos sofrimentos e nada acontecia. Onde estava a justiça de D'us? Não haveria nenhuma cobrança daqueles maus atos? Por isso D'us quis transmitir ao povo judeu uma mensagem eterna, passada de pai para filho, de que a justiça Divina sempre se cumpre. Cada sofrimento causado aos judeus foi vingado, cada detalhe da escravidão infligida pelos egípcios teve o seu preço, e no devido momento tudo foi cobrado por D'us. Mesmo quando os egípcios já tinham se rendido, eles continuaram recebendo sofrimentos, Midá Kenegued Midá, até que tudo estivesse pago.

Infelizmente vivemos em tempos difíceis, quando o roubo, a corrupção, a enganação e a violência parecem sempre ficar impunes. Mas da nossa Parashá fica a certeza de que, no momento certo, a justiça prevalecerá. Da mesma forma como ocorreu no Egito, várias outras vezes na história as situações que pareciam perdidas se reverteram e se transformaram em grandes salvações. Grandes inimigos do povo judeu, como o Faraó e Haman, que pareciam estar acima da lei, no momento adequado foram humilhados e destruídos. Devemos sempre fazer a nossa parte para estabelecer a justiça no mundo, mas podemos ter a tranquilidade de saber que uma pessoa pode até escapar da justiça humana, mas nunca da justiça Divina.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 10:1-13:16, Jr 46:13-28

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

TUDO É PARA O BEM - PARASHÁ VAERÁ 5775

 "Alguns jovens estavam em uma discussão filosófica profunda. Um deles apresentou uma questão provocadora: "Como vocês teriam criado o mundo se vocês fossem D'us?". Os outros jovens ficaram em silêncio, cada um refletindo e chegando às suas próprias conclusões.
 - Se eu fosse D'us, mudaria isso, aquilo e aquela outra coisa! - disse o primeiro.
 - Se eu fosse D'us, teria mudado isso e aquilo também! - respondeu o segundo.
 Cada jovem que respondia apontava algumas falhas no mundo e sugeria como elas poderiam ser eliminadas. Apenas um dos jovens permanecia em silêncio, pensativo. Quando questionaram sua opinião, ele deu um sorriso e disse, inocentemente:
 - Se eu fosse D'us, eu teria criado o mundo exatamente com ele é, sem pôr nem tirar nada!"
 Muitas vezes gostaríamos que as coisas fossem diferentes. Mas nos esquecemos que o mundo foi criado com perfeição e que tudo o que acontece passa pela Supervisão Divina. Não há como melhorar o mundo perfeito que D'us criou, apenas nos resta entender que somos limitados e nunca conseguiremos enxergar o quadro completo como Ele enxerga.
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Na Parashá desta semana, Vaerá, a Torá começa a descrever o processo de libertação do povo judeu da escravidão egípcia e as primeiras das 10 pragas enviadas por D'us. E a Parashá começa com as seguintes palavras: "E disse D'us (Elokim) para Moshé e falou para ele: 'Eu sou Hashem. Eu me revelei para Avraham, para Itzchak e para Yaacov como 'Kel Shakai', mas o Meu nome 'Hashem' não Me fiz conhecer a eles. E também estabeleci com eles Meu pacto, de dar para eles a terra de Knaan" (Shemot 6:2,3). Mas qual a diferença entre os nomes através dos quais D'us se revelou a Moshé e aos patriarcas? E qual a relação com o fato de D'us ter feito um pacto com os patriarcas de dar para eles a Terra de Israel? E por que a Parashá começou com D'us falando estas palavras para Moshé, comparando-o aos patriarcas?

A resposta está em um incrível Midrash (Torá Oral) que explica que as palavras destes versículos são uma grande bronca que D'us estava dando em Moshé. Mas para entender a bronca, temos que voltar ao final da Parashá da semana passada, Shemot. Moshé foi pela primeira vez, ordenado por D'us, pedir para o Faraó libertar o povo o judeu e acabar com os terríveis sofrimentos pelos quais os judeus passavam. Porém, ao invés de escutar Moshé, o Faraó endureceu ainda mais o trabalho deles, causando mais sofrimentos ao povo judeu. Quando Moshé viu que o sofrimento do povo havia aumentado, questionou: "D'us, por que Você fez mal a este povo? Por que você me enviou?" (Shemot 5:22).

Este questionamento de Moshé desagradou muito a D'us, pois aos patriarcas Ele havia se revelado apenas como 'Kel Shakai', uma forma menos explícita da grandeza e da bondade perfeita de D'us, enquanto para Moshé Ele havia se revelado como 'Hashem' (o Nome de 4 letras: iud – kei – vav – kei), uma forma muito mais explícita. Além disso, D'us havia mandado testes muito difíceis para os patriarcas e havia prometido a eles a Terra de Israel, mas fez com que tivessem que comprar partes da terra por altos preços, como no caso de Avraham, que pagou uma fortuna por um pequeno pedaço de terra para enterrar sua esposa Sara. Apesar de D'us ter se revelado de uma maneira menos explícita e de ter testado os patriarcas, eles nunca questionaram as atitudes Dele. Já Moshé, em sua primeira missão sob o comando de D'us, questionou a Sua bondade.

Mas esta bronca que Moshé recebeu desperta um grande questionamento. D'us comparou Moshé aos patriarcas, que tiveram muitos testes em suas vidas e nunca questionaram D'us. Porém, esta comparação não está correta, pois da mesma forma que os patriarcas nunca reclamaram com D'us sobre acontecimentos difíceis em suas vidas particulares, também Moshé não estava questionando D'us sobre acontecimentos difíceis em sua vida particular. Como um líder exemplar e responsável pelo seu povo, ele questionou D'us sobre o aumento das dificuldades e sofrimentos que recaíram sobre os judeus após ele cumprir a sua missão ordenada por D'us. Como Moshé poderia se calar diante do sofrimento do povo do qual ele era responsável, vendo que eles estavam gemendo de dor e não podiam mais suportar o peso dos terríveis sofrimentos e castigos aos quais eles eram diariamente submetidos? Então por que D'us se irritou com a reação de Moshé, se era esta a reação esperada de um verdadeiro líder?
A pergunta fica ainda mais difícil ao observarmos que houve outro momento na história do povo judeu em que Moshé, nosso grande líder, teve que intervir em prol dos judeus. Quando os judeus fizeram o bezerro de ouro no deserto, D'us quis destruir todo o povo. Moshé, em desespero, questionou: "D'us, por que Sua fúria deve queimar contra Seu povo?" (Shemot 32:11). Porém, daquela vez as palavras de Moshé foram escutadas por D'us e o povo foi salvo da destruição. Qual foi a diferença entre a reação de Moshé diante dos sofrimentos da escravidão, que mereceu uma bronca, e a reação diante da ameaça de destruição do povo por causa do bezerro de ouro, que foi louvável?

Explica o Rav Yaacov Naiman (Bielorússia, 1909 - EUA, 2009) que a bronca de D'us não foi pela atitude de Moshé, de ter se levantado em defesa do povo judeu. Ao contrário, esta foi a atitude correta, de um verdadeiro líder. A prova disso é que quando Moshé se levantou para implorar pela salvação do povo judeu após o bezerro de ouro, suas súplicas foram escutadas e D'us não se ressentiu de sua atitude. Mas o erro que Moshé cometeu quando se levantou para protestar contra os sofrimentos do povo judeu foi as palavras que ele utilizou. A expressão "por que Você fez mal a este povo?" foi um questionamento sobre a bondade de D'us. Não existe maldade nos atos de D'us. Tudo o que Ele faz é para o nosso bem, e mesmo situações difíceis e sofrimentos são bondades. D'us enxerga o passado, o presente e o futuro, e Ele sabe exatamente o que é o melhor para cada um de nós em cada momento.

Apesar do gigantesco nível espiritual de Moshé, sua frase demonstrou uma pequena falha na sua Emuná (fé), ao não perceber que o trabalho mais pesado e o acréscimo de sofrimentos eram para o bem do povo. Alguns comentaristas da Torá explicam que havia uma "cota" de sofrimentos pelos quais o povo judeu precisava passar antes da libertação. Ao aumentar o peso do trabalho, D'us estava acelerando o processo e antecipando o fim da escravidão. É como uma panela que está sobre o fogo e que não pode ser retirada antes do cozimento completo da comida. Ao aumentarmos o fogo, antecipamos o fim do cozimento e podemos tirar a panela do fogo antes. Moshé deveria ter entendido que havia bondade nos atos de D'us, apesar de, aos nossos olhos limitados, parecer algo ruim e negativo.

As consequências desta pequena falha de Moshé foram terríveis. Logo após o questionamento dele, D'us respondeu: "Agora você vai ver o que Eu farei com o Faraó" (Shemot 6:1). O Rav Shlomo Itzchaki  (França, 1040 - 1105), mais conhecido como Rashi, explica que estas palavras de D'us não foram apenas um aviso de que a redenção do povo judeu estava efetivamente começando naquele momento, mas as palavras incluíam também um decreto duro contra Moshé. Por que D'us utilizou a palavra "agora"? Para indicar que agora Moshé veria os milagres da saída do Egito, mas futuramente ele não veria os milagres que aconteceriam na conquista da Terra de Israel. Em outras palavras, D'us estava decretando naquele momento que, por causa de sua falha de Emuná, Moshé não entraria em Israel junto com o resto do povo. Apesar de ser um decreto ainda revogável através de Tefilá (reza) e Tzedaká, é um bom indicador de como são duras as consequências da falta de Emuná.

Quando olhamos as primeiras palavras da Parashá, "E disse D'us (Elokim) para Moshé e falou para ele: 'Eu sou Hashem'", há mais um interessante ensinamento. O versículo começa com 'Elokim', um dos nomes de D'us, e termina como 'Hashem' (o Nome de 4 letras: iud – kei – vav – kei), outro nome de D'us. Cada nome de D'us representa uma forma Dele se conectar conosco. 'Elokim' representa a característica de Din (Justiça), enquanto 'Hashem' representa a característica de Rachamim (Misericórdia). Na resposta ao questionamento de Moshé, D'us estava dando-lhe uma lição. Mesmo nos momentos em que Ele está nos julgando, isto é, utilizando Seu atributo de justiça, Ele sempre mistura Seu atributo de misericórdia, visando sempre o nosso bem. Mesmo nos castigos, nas dificuldades e nos sofrimentos, há muito amor de D'us por nós, há muita misericórdia. A Emuná é o que nos dá a força para vencermos estes momentos difíceis.

Deste ensinamento fica para nós uma lição muito importante e profunda. Passamos diariamente por testes e dificuldades, que muitas vezes estão acima do nosso entendimento limitado. Os patriarcas conseguiram chegar ao nível de entender que tudo é para o bem, e mesmo as coisas que vão contra a nossa lógica são, em última instância, bondades gigantescas de D'us. Nós também temos este potencial, basta pararmos para refletir um pouco sobre o que acontece em nossas vidas. Quantas vezes olhamos para trás e percebemos que eventos que pareciam negativos foram, na verdade, positivos e nos ajudaram? Quantas pessoas que, por causa de dificuldades que passaram, acabaram se superando e se tornando pessoas de sucesso? Da mesma forma que muitas vezes vemos as bondades de D'us, precisamos ter a Emuná e a humildade de saber que somos limitados, e mesmo quando não conseguimos enxergar imediatamente Sua bondade, precisamos saber que em última instância tudo passa pelo controle e pela supervisão de D'us, que quer apenas o nosso bem. Assim, viveremos mais tranquilos e mais felizes, com a certeza de que há Alguém que o tempo inteiro cuida de nós com atenção e carinho.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Ex. 6:2-9:35, Ez. 28:25-29:21