sábado, 11 de março de 2017

MÃO OCULTA DE D'US - PARASHÁ TETZAVÊ, PARASHÁ ZACHOR E PURIM

Um enterro foi realizado em São Paulo, no cemitério judaico do Embu. Era uma segunda-feira de tarde e parecia um enterro normal, como qualquer outro. Mas a história por trás deste enterro é incrível.

Há alguns anos, na Santa Casa de São Paulo, faleceu um homem chamado Samuel Fishman. O hospital procurou por parentes e familiares, mas não encontrou ninguém. Eles então anunciaram sua morte em um jornal por seis meses, mas infelizmente ninguém veio para reivindicar o corpo. O hospital então solicitou à justiça permissão legal para utilizar o corpo na faculdade da Santa Casa e recebeu a permissão. O corpo foi colocado em um freezer, aguardando o momento em que seria dissecado e utilizado para estudos de medicina.

Certo dia, quase um ano e meio depois, uma mulher judia foi ao mercado para comprar bananas. Quando ela chegou em casa, olhou sem querer para o jornal no qual as bananas haviam sido embrulhadas. Era um jornal bem antigo, mas um pequeno anúncio chamou sua atenção. Era o anúncio do hospital à procura da família de Samuel Fishman. Sem nem sequer saber quem era Samuel Fishman, ela foi ao hospital e começou a fazer perguntas para obter mais informações. Ela foi informada que o corpo estava congelado e aguardando para ser utilizado em estudos. Desesperada, ela acionou o Chevra Kadisha de São Paulo para que se envolvesse no caso e fizesse os trâmites legais necessários para liberar o corpo. O Chevra Kadisha apelou aos tribunais para que o corpo fosse liberado e, após três meses de esforços incansáveis, conseguiu liberá-lo para o sepultamento no cemitério judaico.

Voluntários do Chevrah Kadisha participaram da purificação do corpo do Sr. Samuel Fishman na véspera de Tishá Be Av. Eles ficaram surpresos ao perceber que, por um ano e meio, o corpo havia permanecido intacto e nenhum estudo havia sido feito.

Esta história mostra como D'us faz as coisas acontecerem sem mostrar a Sua "face". Uma mulher passou para comprar bananas, naquele horário, naquele dia, com aquele vendedor, envoltas naquele velho jornal. Tudo para que Samuel Fishman z"l pudesse ter um enterro digno em um cemitério judaico.

Nesta semana lemos a Parashá Tetzavê (literalmente "Ordene"), que começa descrevendo as maravilhosas roupas que os Cohanim (sacerdotes) utilizavam para realizar os serviços do Mishkan (Templo Móvel). Já no final da Parashá, a Torá também fala sobre um dos principais serviços espirituais feitos no Mishkan: a oferenda dos Korbanót (sacrifícios). A palavra "Korban" vem da raiz "Karov", que significa "perto, próximo". Os Korbanót eram uma maneira de nos aproximarmos espiritualmente de D'us. Por exemplo, quando alguém comete uma transgressão, isto causa um imediato afastamento espiritual. Quando ainda existiam os Templos, a pessoa se arrependia e oferecia um Korban, reconstruindo assim seu relacionamento com D'us.

E ao final deste Shabat (11 de março) começamos a reviver Purim, uma festa muito alegre na qual recordamos o grande milagre da salvação do povo judeu das mãos dos nossos inimigos durante o Exílio Persa. O povo judeu estava se assimilando e começando a se afastar cada vez mais de seus objetivos espirituais. Foi neste cenário que Haman, um terrível Rashá (malvado), odiador dos judeus, começou a crescer e se tornou o principal ministro do rei Achashverosh. Haman aproveitou-se de sua influência e de seu poder para decretar a morte de todos os judeus. O decreto de morte, com data marcada para ocorrer no dia 13 de Adar, sacudiu o povo judeu de sua apatia espiritual. Eles entenderam seu desvio, se arrependeram de seus erros, rezaram e foram perdoados. A desgraça iminente se transformou em salvação e a tristeza se transformou em uma alegre comemoração da vitória do povo judeu sobre os seus inimigos. Normalmente a festa de Purim cai junto com a Parashá Tetzavê. Qual é a conexão entre as duas?

Logo no início do reinado do rei Achashverosh, ele quis demonstrar seu poder dando um enorme banquete, aberto a todos os súditos. Esta festa, na qual as conversas giravam em torno de promiscuidades e futilidades, certamente não era o ambiente adequado ao povo judeu. Mas apesar da proibição de Mordechai, o líder espiritual dos judeus, eles participaram desta festa e não escutaram o grande sábio da geração, deixando D'us aborrecido. Todo o decreto de morte foi uma consequência do mau comportamento do povo judeu. Quando os judeus se arrependeram, o decreto Celestial foi revogado e, como consequência, o decreto físico de morte dos judeus também foi revogado.

Porém, algo nos chama a atenção ao refletirmos sobre os detalhes da história de Purim. Por que foi necessário que D'us elevasse Haman a um cargo tão alto e desse a ele tanta honra e poder, como está escrito: "Depois destas coisas o rei Achashverosh engrandeceu Haman, o elevou e colocou sua cadeira acima de todos os ministros que estavam com ele" (Ester 3:1)? Se o propósito era apenas despertar o povo judeu, não era necessário elevar Haman, D'us poderia ter feito com que o próprio rei Achashverosh fizesse o decreto! Como a elevação de Haman, um completo Rashá, um homem que apenas buscava honra, poder e prazeres, está conectada com a salvação do povo judeu?

Explica o livro "Meam Loez", escrito por vários autores por volta do ano de 1730, que era necessário elevar Haman por um tempo limitado para que o povo judeu fizesse Teshuvá (se arrependesse e consertasse seus maus atos), e somente depois derrubá-lo e salvar os judeus. O Meam Loez está explicando dois aspectos interessantes sobre o crescimento meteórico de Haman. O primeiro aspecto é que D'us eleva os Reshaim antes de derrubá-los, como diz Shlomo HaMelech: "Antes da quebra, a grandeza" (Mishlei 16:18). De acordo com o Rav David Altshuler zt"l (século 18), mais conhecido por sua obra "Metsudat David", o Rashá é elevado e recebe honrarias e poder para que assim sua posterior queda seja muito mais dolorosa, como diz o ditado: "Quanto mais alto, maior é a queda".

Outro aspecto importante apontado pelo Meam Loez é o fato do povo judeu ter feito Teshuvá com a ascensão de Haman ao poder. Haman já era um conhecido odiador do povo judeu. O susto que foi causado aos judeus pelo fato de alguém tão perverso ter chegado a um cargo tão alto, com tanto poder e honra, certamente ajudou a despertar o coração adormecido deles. Em outras palavras, Haman foi apenas um fantoche, um instrumento nas mãos de D'us para trazer de volta o povo judeu que havia se desviado.

Há uma terceira e surpreendente resposta trazida pelo Rav Alexander Ziskind (Bielorússia, falecido em 1794), em sua famosa obra "Iessod VeShoresh Haavodá". Ele explica que podemos colocar no coração uma alegria especial ao refletirmos sobre o crescimento de Haman, pois estava de acordo com os decretos e a Supervisão Particular de D'us. E por que D'us fez isto? Para que o futuro milagre da salvação do povo judeu fosse ainda maior e mais divulgado no mundo inteiro. Através da elevação do grande inimigo e opressor do povo judeu, o Nome de D'us, que protege o povo judeu como um pastor que protege sua ovelha do ataque de 70 lobos, foi santificado entre todos os povos do mundo. Quanto mais Haman se elevou, quanto mais poder ele conseguiu, mais o Nome de D'us foi santificado. Toda a grandeza e honra alcançadas por Haman se voltou contra ele, pois a queda de Haman fez com que fosse sabido e difundido entre todos que realmente Haman não tinha nenhum poder verdadeiro e que é D'us o único que tem controle sobre tudo o que acontece.

Este ensinamento também nos foi transmitido por David Hamelech (Rei David): "O homem simplório não saberá nem o tolo entenderá isso. Quando os Reshaim desabrocham como grama e florescem aqueles que fazem o mal, é somente para destruí-los para sempre. E Você permanece para sempre nas alturas" (Tehilim 92:7-9). David Hamelech está nos ensinando que os tolos não conseguem perceber que D'us tem controle sobre tudo o que ocorre no mundo. Mesmo quando parece que os Reshaim têm sucesso, mesmo quando aparentemente eles têm poder e honra, é apenas uma preparação de D'us para destruí-los, não apenas no Mundo Vindouro, mas também neste mundo. E quando isto acontece, D'us eleva Seu nome. Portanto, quanto mais o Rashá se eleva, mais sua queda causa uma santificação do Nome de D'us.

Se pararmos para refletir sobre os acontecimentos da Meguilá, perceberemos que a subida meteórica de Haman teve ainda outro desenrolar importante para o povo judeu. Assim diz a Meguilá: "E o rei tirou o seu anel que tinha tirado de Haman e deu-o a Mordechai, e Ester deu a Mordechai o comando da casa de Haman" (Meguilat Esther 8:2). Mordechai foi elevado a ministro do rei e assumiu exatamente o mesmo posto de Haman. Isto quer dizer que, quanto mais Haman subiu, maior foi a "herança" recebida por Mordechai. O Midrash (parte da Torá Oral) explica, no versículo "Depois destas coisas, o rei Achashverosh engrandeceu Haman", que ao dar grandeza a Haman, D'us pensou: "Virá Haman, e o Rashá (malvado) apenas preparará, mas será o Tzadik (Justo) que vestirá. Virá Mordechai e pegará tudo dele e construirá o Beit Hamikdash". Justamente a grandeza dada a Mordechai após a morte de Haman fez com que ele fosse muito respeitado, trazendo aos judeus uma época de muita tranquilidade e liberdade.

Um dos motivos que normalmente Purim cai junto com a Parashá Tetzavê é que a Parashá termina falando sobre os Korbanót. D'us quer que Seu povo esteja sempre conectado com Ele. Infelizmente, se não nos conectamos através das Mitzvót e da nossa Avodat Hashem (Serviço Divino), D'us tem outras maneiras de nos despertar e de nos trazer de volta. Muitos dos sofrimentos que passamos na vida poderiam ter sido evitados se nos comportássemos da maneira correta. D'us quer a nossa proximidade e está sempre cuidando de nós com um carinho especial.

A história de Purim se repete constantemente. Em todas as gerações Reshaim se levantam para destruir o povo judeu, mas D'us sempre nos salva de todos eles. E D'us nos protege sem que Sua mão possa ser vista abertamente. Porém, quem procura nas entrelinhas da história encontra D'us manejando tudo o quer acontece a cada instante. Mesmo nas situações nas quais parece que os Reshaim estão crescendo, devemos confiar em D'us, pois tudo faz parte dos Seus planos. Até mesmo um pequeno detalhe, como o enterro honroso de um simples judeu, não passa despercebido pelos Seus olhos. E D'us tem muitos intermediários para cumprir a Sua vontade, como falamos todos os dias na nossa Tefilá (reza): "Muitos são os pensamentos no coração do homem, mas é a vontade de D'us que sempre se cumpre". Esta é a essência de Purim.
SHABAT SHALOM E PURIM SAMEACH

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Ex. 27:20-30:10, Ez.43:10-27

sexta-feira, 3 de março de 2017

VENCENDO A PREGUIÇA - PARASHÁ TERUMÁ 5777

"Era uma vez um grande palheiro que ficava perto de uma aldeia. Vários animais de pequeno porte haviam construído suas casas naquele palheiro e ali habitavam de forma harmoniosa, sem serem molestados pelos seres humanos. Entre os habitantes daquele palheiro estavam três grandes amigos: o jabuti, a tartaruga e o esquilo. O esquilo era agitado e ágil, enquanto o jabuti e a tartaruga eram muito lentos e preguiçosos.

Certo dia, os três estavam conversando animadamente no palheiro quando, de repente, ouviram pessoas gritando: "Fogo! Fogo!". Muitos animais ficaram assustados e começaram a correr para salvar suas vidas. O jabuti não se incomodou, afirmando que estava tranquilo porque sabia mais de cem maneiras de lidar com o fogo. A tartaruga também não se preocupou e disse que sabia mais de mil maneiras de como acabar com um incêndio. Somente o esquilo percebeu o real perigo e, após tentar convencer seus amigos, fugiu para salvar sua vida. Enquanto todos os animais corriam, o jabuti e a tartaruga ficaram ali, discutindo e comparando seus conhecimentos sobre combate a incêndios.


Infelizmente, dos três amigos, o esquilo foi o único que sobreviveu ao incêndio."
Esta pequena fábula ilustra a terrível influência da preguiça em nossas vidas. O preguiçoso, mesmo diante de um terrível fogo, não toma atitudes. Ao invés de correr, de se movimentar, o preguiçoso procura justificativas lógicas para continuar parado. E é por isso que o preguiçoso acaba se queimando tanto na vida.

A Parashá desta semana, Terumá (literalmente "Porção"), descreve uma das realizações mais incríveis do povo judeu: a construção do Mishkan, o Templo Móvel que funcionava como "residência" da Presença Divina no meio do povo no deserto. O Mishkan foi construído com materiais nobres, que foram prontamente doados pelo povo, como está escrito: "E esta é a porção que você pegará deles: ouro, prata e cobre; lã turquesa, lã púrpura e lã escarlate; linho e pelo de cabra; couro de carneiro tingido de vermelho; couro de Tachash (animal multicolorido, já extinto); madeira de acácia; óleo para a iluminação, especiarias para o óleo da unção e para o incenso aromático; pedras de Shoham e pedras de preenchimento, para o Avental e para o Peitoral" (Shemot 25:3-7).

Há algo nesta lista que nos chama muito a atenção. Aparentemente a ordem dos materiais listados está de acordo com o seu valor monetário, começando com os metais mais preciosos e terminando com o óleo. Porém, no final da lista aparecem as pedras de Shoam e as pedras de preenchimento, que eram pedras preciosas de valor inestimável. Então por que, se tinham um valor tão alto, elas apareciam apenas no final da lista, como se fossem materiais sem valor?

Responde o Rav Chaim ben Atar zt"l (Marrocos, 1696 - Israel, 1743), mais conhecido como Ohr HaChaim Hakadosh, que os Nessiim, príncipes das tribos, as pessoas mais influentes e ricas do povo judeu, ao escutarem que o Mishkan seria construído com as doações do povo, disseram: "Deixe o povo doar o que eles puderem e tudo o que faltar nós completaremos". Porém, no final o plano deles deu errado, pois o povo doou com tanta alegria e entusiasmo que Moshé precisou até mesmo pedir para que as doações parassem de ser trazidas. Quando os Nessiim perceberam, todos os materiais já haviam sido doados e eles acabaram ficando de fora. D'us ficou muito aborrecido com o comportamento deles e castigou-os, fazendo com que a palavra "Nessiim", normalmente escrita com a letra "Iud", fosse escrita incompleta, sem a letra "Iud" (ver Shemot 35:27). Porém, ao perceber que os Nessiim estavam arrependidos do seu erro, D'us permitiu que eles trouxessem as pedras preciosas do Avental e do Peitoral, que faziam parte das roupas do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote). Pelo fato da doação das pedras preciosas envolver algum tipo de transgressão, elas são mencionadas por último na lista de materiais doados ao Mishkan, pois apesar de seu grande valor material, a imperfeição espiritual da doação causou com que as pedras preciosas fossem inferiores aos outros materiais da lista.

Porém, ainda não está claro qual foi exatamente o erro dos Nessiim. Qualquer pessoa responsável pela captação de fundos de uma sinagoga ou de uma instituição filantrópica sonharia em escutar este tipo de oferta. Um doador que se dispõe a cobrir tudo o que falta parece ser uma pessoa muito caridosa, um verdadeiro Tzadik (Justo). Se o aborrecimento de D'us foi com o atraso das doações dos Nessiim, aparentemente eles adiaram suas doações com motivações nobres e compreensíveis. Qual foi exatamente o erro que eles cometeram? E se foi apenas um pequeno deslize, por que eles foram punidos de maneira tão dura por D'us.

Rashi (França, 1040 - 1105), no versículo no qual a palavra Nessiim aparece faltando o "Iud", nos traz a seguinte explicação: "Pelo fato dos Nessiim terem sido preguiçosos no início, eles perderam um "Yud" no seu nome". Rashi está trazendo uma explicação incrível, que demonstra que D'us vê inclusive os pensamentos mais íntimos do coração de cada ser humano. D'us revelou que, mesmo revestido por justificativas corretas, o argumento dos Nessiim era, na verdade, apenas uma desculpa. Embora os Nessiim estivessem justificando que não estavam levando imediatamente suas doações por motivos nobres, D'us sabia que no fundo o motivo era a preguiça.

O Rav Moshe Chaim Luzzatto zt"l (Itália, 1707 - Israel, 1746) explica em seu livro "Messilat Yesharim" (Caminho dos Justos) que mesmo os motivos aparentemente mais válidos para não assumirmos responsabilidades na vida normalmente não passam de desculpas que encobrem nossa preguiça e nosso desejo de não sair do lugar. Um exemplo impressionante que ilustra esta força do nosso Yetser Hará (mau instinto) é o livro "Chovot Halevavot" (Deveres do coração), uma das maiores obras de Mussar (Ética) já escritas, que certamente já teve uma incrível influência espiritual sobre dezenas de gerações de judeus. O Rav Bahya ibn Paquda (Espanha, início do século 11), autor do "Chovot Halevavot", detalhou na introdução do seu livro quantas dificuldades ele venceu para escrevê-lo. Uma das principais dificuldades foi que, depois de ter decidido escrever o livro, ele acabou mudando de ideia, baseando-se em uma série de motivos lógicos e aparentemente racionais. Por exemplo, ele imaginava que não tinha força nem entendimento suficientes para captar profundamente os ensinamentos da Torá e transmiti-los em um livro. Além disso, o livro deveria ser escrito em árabe, a língua que a grande maioria dos judeus falava na região em que ele vivia, porém ele não dominava um estilo elegante da escrita árabe. Ele também tinha medo de assumir a responsabilidade de uma difícil tarefa cuja consequência poderia ser a exposição pública de seus próprios defeitos e limitações. Por estes e outros motivos, o Rav Bahya decidiu abandonar o projeto. Os judeus de todas as gerações teriam perdido uma incrível fonte de ensinamentos espirituais.

O que levou o Rav Bahya a mudar de ideia e novamente investir em sua obra? Ele parou para refletir sobre sua decisão e chegou à conclusão que talvez suas motivações não estavam sendo completamente puras. Ele começou a suspeitar que havia escolhido a opção mais confortável, buscando apenas tranquilidade na vida. Ele chegou à conclusão que, por trás das razões aparentemente racionais, o que realmente havia motivado o cancelamento do projeto era o desejo de ficar parado na vida. Para o eterno benefício do povo judeu, ele acabou juntando forças, teve a coragem de encarar os desafios e, apesar das dificuldades, escreveu o "Chovot Halevavot". Não podemos nem imaginar o povo judeu desprovido das incríveis orientações espirituais contidas neste livro.

As razões do Rav Bahya para não escrever o livro pareciam realmente corretas e lógicas, mas ele conseguiu reconhecer, em sua grandeza espiritual, que eram razões "manchadas" pelo desejo de conforto na vida. Se alguém grande como o Rav Bahya estava sujeito às influências das nossas características negativas, em especial a preguiça, muito mais nós, em nosso nível espiritual tão baixo, devemos nos preocupar com os riscos de cairmos nas armadilhas da preguiça, um traço de caráter destruidor. Cada um de nós sempre tem razões aparentemente válidas e corretas para ignorar possíveis caminhos de melhoria na vida, mas devemos estar conscientes que, na grande maioria das vezes, é apenas a preguiça nos convencendo a ficarmos parados.

O Yetser Hará da preguiça é tão astuto que pode vir disfarçado de traços de caráter admiráveis, como a humildade. O Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986) nos ensina que temos a tendência comum de subestimarmos o nosso potencial, argumentando que temos poucos talentos e que não estamos destinados à grandeza espiritual. Mas o que parece humildade é, na verdade, o nosso Yetser Hará querendo nos enganar. Esta tendência de subestimar o nosso potencial vem da nossa preguiça, uma manifestação do nosso desejo por conforto. Atingir a grandeza espiritual requer muito esforço e disposição para encarar contratempos e até mesmo fracassos. Isto não é uma tarefa fácil, o que torna ainda mais tentador para a pessoa "se liberar" de suas responsabilidades na vida e escolher os caminhos mais fáceis e cômodos. Muitas "almas de ouro" do povo judeu podem simplesmente ter se apagado por terem se acomodado na vida.

Constantemente surgem oportunidades de crescimento e melhoria. Estas oportunidades servem para podermos crescer no nosso nível espiritual e também para influenciarmos positivamente outras pessoas em volta. A dura lição aprendida pelos Nessiim é eterna e também serve para cada um de nós. Talvez o mais poderoso fator que pode nos impedir de atingir a grandeza espiritual é o desejo pelo conforto, que deriva da preguiça. Isto faz com que a pessoa crie inúmeras razões para justificar a sua inabilidade de crescer tudo o que poderia. Foi por isso que D'us castigou os Nessiim de forma tão dura, para mostrar o quanto esta característica da preguiça é terrível e pode nos impedir de crescer e de cumprir o nosso objetivo na vida. O livro "Messilat Yesharim" nos ensina a identificar estas razões e justificativas como sendo "conselhos do Yetser Hará". Devemos, portanto, ignorá-las e continuar os nossos esforços para alcançar os nossos objetivos. Para vencer este terrível Yetser Hará, cada um precisa se esforçar, antes de tudo, para ser sincero consigo mesmo. Precisamos refletir e saber identificar quando realmente nossos argumentos são verdadeiros e quando são apenas desculpas para nos manter parados.

Viemos ao mundo material justamente para crescer, mas não há crescimento sem esforço. Fracassos são parte da vida, ninguém chega ao sucesso sem tropeços e dificuldades. Quando tentamos fazer nosso trabalho espiritual e surgem dificuldades, isto é um sinal de que estamos indo no caminho correto, pois o Yetser Hará está tentando nos impedir de alcançar nosso objetivo. Quando alguém está cavando em busca de um tesouro e bate com a pá em algo duro, é um sinal de que o tesouro está perto. O mesmo vale para a nossa vida, pois quando surgem grandes desafios e dificuldades, isto é um sinal de que o sucesso está muito perto.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 25:1-27:19, 1 Rs. 5:12 -6:13

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

DOAR COM O CORAÇÃO - PARASHÁ MISHPATIM 5777

Foi em um dia qualquer, no meio do verão, na cidade de Angra dos Reis. Um lugar paradisíaco, que estamos acostumados a ver estampado nas páginas das revistas. O garoto pobre aproximou-se da mansão, colocou o rostinho entre as grades do portão alto e ficou olhando. Evelyn, a dona da casa, uma senhora distinta, regava o jardim. Fazia a tarefa devagar, como quem distribui as gotas com carinho. O menino, em seus nove anos, segurando as grades com as duas mãos, pediu:

- Ei, dona, tem pão velho?

Ela olhou surpresa. Fechou a mangueira e começou a se aproximar do garoto. Desde a sua infância aquele tipo de situação a incomodava. Trazia uma mensagem dentro de si de que, quando alguém pedia pão velho, na verdade estava dizendo: "Me dá o pão que era meu e ficou na sua casa e você esqueceu de comer porque tem muitas outras coisas deliciosas para saborear". Ela caminhou até o portão e perguntou:

- Por que você não está na escola?

- Minha mãe não tem dinheiro para comprar o material - respondeu o garoto, com sinceridade.

Evelyn já estava tão próxima dele que quase o podia tocar. Ele tinha um rostinho tão delicado. Pena que estivesse tão sujo. Pensou nos próprios filhos, tão bem cuidados, penteados, roupas limpas, calçados brilhantes e lancheira cheia para ir para a escola. Do rostinho miúdo do garoto se destacavam os olhos. Espertos, inteligentes e sofridos.

- Seu pai mora com vocês? - arriscou Evelyn.

- Ele sumiu há muitos anos. Não sabemos onde ele está - respondeu o garoto, com voz triste.

A conversa prosseguiu. Evelyn até se esqueceu do jardim e das flores. Diante dela estava uma flor muito mais importante e com muito mais necessidades. Finalmente, Evelyn se recordou da fome do menino e, fazendo um gesto de quem se dirigia para dentro de casa a fim de buscar alguma coisa, exclamou:

- Espere um pouco, vou buscar o pão. Mas não tenho pão velho, serve novo?

- Não precisa não, a senhora já conversou comigo. Tchau - respondeu o garoto, e desapareceu ladeira abaixo.
 Aquela resposta caiu como um raio no coração de Evelyn. Ela teve a sensação de ter absorvido toda a solidão e a falta de amor daquela criança. Um menino de nove anos já sem sonhos, sem brinquedos, sem comida, sem escola e tão necessitado de carinho e de uma conversa amiga. Naquele dia Evelyn aprendeu um novo significado para o pedido de pão velho. Significa "converse comigo, me dê atenção". Por isso, ela continua dando pão novo, fresquinho. Mas, antes de tudo, compartilha o pão das pequenas conversas, um pão que nunca fica velho. O pão mata a fome do corpo, mas a palavra carinhosa nutre o coração entristecido e traz de volta a esperança de um mundo melhor.
A Parashá desta semana, Mishpatim (literalmente "Juízos"), nos ensina diversos tipos de leis, em especial as que envolvem os relacionamentos interpessoais, nos ajudando a entender o quanto a Torá é rigorosa com o nosso comportamento em relação ao nosso semelhante e o quanto devemos nos esforçar para sermos pessoas corretas e honestas. São dezenas de leis, com muitos detalhes de como devemos nos comportar mesmo nas situações difíceis que ocorrem no nosso cotidiano.

A Parashá também desperta o lado misericordioso do ser humano, ao nos ensinar leis referentes aos cuidados que devemos ter com os pobres. Por exemplo, a Torá diz que é uma obrigação emprestar dinheiro a alguém necessitado e nos ensina como fazer isso da melhor maneira, como está escrito: "Quando você emprestar dinheiro ao Meu povo, ao pobre que está com você, não se comporte com ele como um credor... se você pegar a roupa de seu companheiro como garantia, você deve devolvê-la até o por do sol. Pois esta é a sua única coberta, a veste para sua pele, com o que ele dormirá? Se ele gritar a Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso" (Shemot 22:24-26).

Este versículo descreve detalhes importantes da Mitzvá de emprestar dinheiro a alguém necessitado. Em primeiro lugar, a Torá ressalta que não devemos nos comportar como credores, nos ensinando que quando uma pessoa não tem condições de devolver o empréstimo na data combinada, não devemos pressioná-la. Devemos deixá-la à vontade, para que ela não se sinta humilhada toda vez que nos encontrar. Além disso, a Torá nos ensina que o devedor deve deixar um objeto como garantia, para caso não consiga pagar sua dívida. Porém, se a pessoa for tão pobre que este objeto de garantia for algo que ela precisa para o seu dia-a-dia, como a roupa que ela veste para dormir, então devemos constantemente devolvê-lo, para que a pessoa possa utilizá-lo sempre que necessário.

Mas o que realmente nos chama a atenção são as palavras finais do versículo: "Se ele gritar a Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso". Aparentemente a Torá está deixando claro que, caso o credor não devolva o objeto de garantia para o devedor quando este necessitar, causando com que o devedor grite desesperadamente para D'us, então Ele escutará e castigará o credor. Porém, o credor cometeu alguma transgressão somente por ter pressionado o devedor, retendo o objeto de garantia? O credor fez a sua parte e emprestou seu dinheiro. O grito é apenas entre o devedor e D'us, pois o credor não tem culpa do devedor não ter dinheiro para pagar suas dívidas. Então por que o versículo dá a entender que o credor será castigado caso pressione o devedor?

De acordo com o Rav Ovadia Sforno zt"l (Itália, 1475-1550), após escutar o grito do pobre, D'us fala para o credor: "Quando o pobre grita para Mim, Eu darei a ele um pouco do que teria dado a você, pois Eu dou a você mais do que você precisa justamente para que você possa ajudar a sustentar os outros". Isto quer dizer que D'us deveria mandar para cada ser humano exatamente o que ele precisa para as suas necessidades básicas, como ocorria no deserto, quando o "Man" caía diariamente e cada um recebia exatamente a quantidade que necessitava para sua alimentação diária. Porém, olhamos para o mundo e vemos que a distribuição das riquezas não é igual. Para alguns D'us manda "a mais", enquanto para outros D'us manda "a menos". Devemos ter a claridade de que quando recebemos "a mais", isto não é para nós mesmos, para os nossos luxos, e sim para podermos ajudar a sustentar outras pessoas. É por isso que o versículo utiliza as palavras "Eu escutarei", pois D'us escutará que o credor tem mais do que precisa para suas próprias necessidades e, mesmo assim, fica pressionando o devedor, que tem menos do que precisa. Qual será a consequência? D'us tirará o dinheiro do credor e dará ao devedor.

Este conceito foi ensinado pelo mais sábio dos homens, Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "O rico e o pobre serão visitados. D'us é quem faz todos eles" (Mishlei 22:2). O Talmud (Temurá 16a), ao explicar este versículo, relata o que acontece quando um pobre se dirige a um rico e pede "por favor, me ajude no meu sustento". Caso o rico o ajude, então está tudo bem, mas caso o rico não o ajude, sofrerá consequências. "D'us é quem faz todos eles" significa que, da mesma forma que D'us fez a pessoa ficar rica, então Ele fará esta pessoa empobrecer, e da mesma forma que D'us fez a outra pessoa ser pobre, Ele a fará enriquecer.

Mas será que isto realmente pode acontecer? A pessoa rica já tem muito dinheiro acumulado, enquanto o pobre não tem nada! Como pode ser que esta situação vai se inverter? Estamos tão imersos nas ideias equivocadas do mundo material que nos esquecemos de que as regras espirituais são diferentes do que os nossos olhos enxergam. D'us recria tudo a todo instante. O que a pessoa tem neste momento não diz nada em relação ao que vai ocorrer em um próximo momento. Nada é garantido, pois se D'us não recriar a riqueza do rico, no próximo instante ele estará completamente pobre. Portanto, D'us, que controla tudo, pode fazer o rico perder tudo e o pobre enriquecer da noite para o dia.

O mesmo conceito também se aplica em relação aos assuntos espirituais. Assim nos ensina Shlomo Hamelech: "O pobre e o homem de pensamentos profundos são visitados. D'us é quem ilumina os olhos dos dois" (Mishlei 29:13). O Talmud (Temurá 16a) explica que este versículo se refere a um aluno que vai ao seu professor e pede "por favor, me ensine Torá". Caso o professor o ensine, então está tudo bem, pois D'us iluminará os olhos dos dois, tanto do professor quanto do aluno. "Pobre", neste caso, se refere ao aluno, alguém ainda pobre em Torá. "Homem de pensamentos profundos" se refere ao professor, neste caso alguém que já tem bastante conhecimento, mas que ainda precisa crescer muito espiritualmente. Caso o professor aceite dedicar parte do seu tempo para ensinar ao seu aluno, abrindo mão do seu próprio tempo de estudo, então D'us iluminará os olhos dos dois. O professor não perderá nada, ao contrário, ganhará conhecimento e sabedoria junto com o aluno.

Porém, o Talmud continua explicando que, caso o professor se recuse a ensinar seu aluno, preferindo dedicar seu tempo apenas ao seu próprio crescimento em Torá, então D'us, quem transformou aquela pessoa em um sábio, pode transformá-lo em um grande tolo, enquanto aquele que foi criado tolo pode se transformar em um sábio. Quando alguém não é misericordioso e se recusa a dividir o que recebeu "a mais", D'us o castiga e retira dele parte do seu dinheiro e dá ao pobre. O mesmo acontece com aquele que se recusa a ensinar seu companheiro, ele é castigado e perde parte de sua sabedoria, que é dada àquele que quer aprender. É como se D'us estivesse dizendo: "Eu te dei condições financeiras, Eu te dei sabedoria e força para você poder ensinar também aos outros, então por que você quer pegar tudo apenas para você mesmo? Você acha que tem algo? Quem deu tudo isto a você fui Eu. E como a cada momento Eu renovo o que Eu dou para as pessoas, a partir deste momento eu deixarei de dar para você e começarei a dar para ele".

Este é um grande ensinamento para conseguirmos vencer o nosso egoísmo. Vivemos com excessos e luxos, enquanto muitas pessoas não têm nem mesmo o básico. E o pior de tudo é que não nos importamos com os outros. Não apenas não repartimos a parte "a mais" do nosso dinheiro, como também não dedicamos nem mesmo o nosso tempo aos outros, para ensinar algo ou simplesmente para dar atenção a quem necessita. Precisamos lembrar que tudo o que temos é por bondade de D'us, mas se não soubermos utilizar o que recebemos, podemos perder tudo. A palavra "Tzedaká" normalmente é traduzida como "caridade", mas a tradução literal é "justiça". Quando ajudamos alguém que tem menos do que nós não estamos apenas fazendo caridade, estamos fazendo justiça. Este "a mais" somente veio até nossas mãos para podermos ter o mérito de ajudar os outros e, assim, criar um mundo mais justo.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A DIFÍCIL ARTE DE ESCUTAR - PARASHÁ ITRÓ 5777

"Yossef Goldman (nome fictício) estava se despedindo da Yeshivá. Após alguns anos de estudo em Israel, ele havia crescido muito espiritualmente. Porém, agora era hora de voltar aos Estados Unidos, para dar continuidade ao seu crescimento ao lado da família. A Yeshivá organizou uma linda festa de despedida para ele. Todos os seus amigos de anos de Yeshivá estavam presentes. Mas certamente um dos mais emocionados era Avraham Katz (nome fictício), seu "Chavruta" (colega de estudos) por muitos anos. Horas por dia eles passavam juntos, imersos no estudo da Torá, e a despedida agora era dura. Em certo momento da festa, começaram os discursos de despedida. Então chegou a vez de Avraham discursar:

- Não preciso me estender nos elogios ao Yossef - começou Avraham, visivelmente emocionado - Todos que conviveram com ele conhecem suas incríveis qualidades, como sua bondade, sempre pronto a ajudar todos que necessitam, e sua seriedade no cumprimento das Mitzvót e no estudo da Torá. Mas ele tem uma qualidade que eu, como seu Chavruta de muitos anos, fui um dos poucos privilegiados a perceber. Certo dia, nós estávamos entretidos em uma passagem do Talmud muito difícil. Tínhamos visões completamente distintas sobre como entender aquela passagem. Por muito tempo ficamos em uma discussão acalorada, cada um trazendo argumentos para defender seu ponto de vista. Era uma verdadeira "guerra de Torá" que estávamos travando. Apesar de ter defendido meu ponto de vista com unhas e dentes, Yossef é uma pessoa com uma incrível capacidade de argumentação. Mesmo me esforçando muito, parecia que ele havia saído vitorioso da discussão. Porém, no final do dia ele me chamou e disse: "Avraham, depois de refletir muito sobre seus argumentos, eu entendi os cálculos que você fez para chegar às suas conclusões. E, entendendo a forma como você chegou à sua conclusão, eu percebi que realmente é você que está certo no entendimento desta passagem que estudamos".

- Quando escutei aquilo - concluiu Avraham - eu entendi a verdadeira grandeza do meu Chavruta. Mesmo defendendo o seu ponto de vista, ele soube escutar os meus argumentos. Mas, acima de tudo, ele teve a humildade de assumir que estava errado. Não é fácil, em especial em uma discussão, alguém assumir que o outro está certo. E tenho certeza que estas duas incríveis qualidades de Yossef, a humildade e ouvidos que escutam de verdade, vão fazê-lo se tornar um dia um grande Talmid Chacham (Erudito de Torá).
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A Parashá desta semana, Itró, começa descrevendo a vinda de Itró, sogro de Moshé, ao acampamento do povo judeu no deserto. Ele trouxe também a esposa de Moshé e seus filhos, que haviam ficado em Midian enquanto Moshé foi ao Egito salvar o povo judeu. Itró havia escutado sobre o grande milagre da abertura do mar e sobre a guerra contra o povo de Amalek, e escutou de Moshé também todos os detalhes da salvação do povo judeu no Egito. Ele se surpreendeu com todos os milagres e com a incrível salvação do povo judeu. Depois disso, a Parashá descreve que Itró percebeu que Moshé julgava sozinho todo o povo, algo que era pesado para ele e para o povo, e por isso sugeriu que Moshé apontasse pessoas aptas a julgar o povo junto com ele, dividindo o peso e a responsabilidade. Moshé escutou os conselhos de seu sogro e, depois de se aconselhar com D'us, criou tribunais de instâncias menores, de forma que apenas os casos mais difíceis chegavam até ele. Por último, a Parashá também traz um dos eventos mais importantes da história do povo judeu: a entrega da Torá no Monte Sinai, diante de todo o povo judeu. Mas qual é a conexão entre a visita de Itró, o seu conselho dado a Moshé e a entrega da Torá no Monte Sinai?

Quando estamos em uma discussão importante e sentimos que não estamos conseguindo transmitir nosso ponto, como reagimos? Em um primeiro momento, repetimos e insistimos. Porém, se mesmo assim não conseguimos ter sucesso em convencer o outro de que estamos certos, o que fazemos? Começou a gritar: "Você está ouvindo o que estou dizendo? Você está prestando atenção?" Todo mundo alguma vez já tropeçou neste tipo de erro. Mas por que isto acontece? Por que às vezes queremos mostrar o nosso ponto, mas parece que a outra pessoa não está nem ouvindo nossos argumentos. O mais impressionante é perceber que nós fazemos exatamente a mesma coisa. Quantas vezes achamos que estamos ouvindo a outra pessoa mas, de repente, descobrimos que nossa cabeça estava em outro lugar e não prestamos atenção em nenhuma palavra do que o outro falou? A grande pergunta que surge é: por que é tão difícil escutar os outros?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que o ser humano tem uma tendência natural de bloquear qualquer tipo de informação que contradiz a sua própria forma de ver as coisas. Isto porque, de maneira até inconsciente, nunca queremos assumir que estamos errados, pois os erros são um ataque direto à nossa autoestima. Portanto, acabamos bloqueando qualquer tipo de informação que vá contra o que acreditamos ser o correto. Mesmo quando estamos diante das provas mais convincentes, preferimos bloquear nossos ouvidos e não escutar.

Isto é algo muito ruim para nossa vida em geral, mas há uma área em particular que é profundamente afetada por este tipo de "bloqueio": o nosso estudo de Torá. E isto pode acontecer não apenas com alunos iniciantes, mas até mesmo com grandes estudantes de Torá. De acordo com o Rav Elyahu Lopian zt"l (Polônia, 1876 - Israel, 1970), mesmo pessoas que estudam com constância e se esforçam muito no estudo da Torá podem acabar se tornando incapazes de escutar outras opiniões e de se conectar com o que dizem outras pessoas. Eles ficam completamente bloqueados, absorvidos em seus próprios pensamentos e opiniões. Pessoas com este tipo de atitude não apenas serão severamente punidas por seu comportamento inadequado, mas também nunca terão sucesso em seu aprendizado de Torá. A pessoa naturalmente é tendenciosa a ser favorável às suas próprias opiniões. Portanto, caso ela não consiga escutar o que os outros dizem, nunca conseguirá esclarecer as coisas de forma precisa.

O contrário também é válido. O Rav Chaim Ozer Grodzinsky zt"l (Bielorússia, 1863 - Lituânia, 1940) foi um dos maiores sábios de Torá de sua geração. Todos conhecem a sua grandeza no domínio da Torá, sua incrível genialidade e sua habilidade de pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. Porém, poucos sabem como ele chegou a este nível tão elevado. Contam que desde muito jovem o Rav Chaim Ozer podia sempre ser encontrado entre os grandes sábios de Torá da geração. Porém, em uma discussão, o Rav Chaim Ozer nunca dizia para eles "aceitem minha opinião". Ao contrário, ele se transformou em um recipiente que reunia e acumulava todas as opiniões e explicações que ele escutava dos sábios de Torá. Ele absorveu todo o conhecimento que escutou e transformou-o em parte de sua própria essência. O segredo da grandeza do Rav Chaim Ozer foi a disposição de aprender com absolutamente tudo o que ele escutava.

É por isso que a Parashá que fala sobre a entrega da Torá no Monte Sinai começa com as seguintes palavras: "Vaishmá Itró" (E escutou Itró). Itró se reuniu ao povo judeu após ter escutado sobre o incrível milagre da abertura do mar e sobre a vitória do povo judeu contra Amalek. Mas apenas Itró escutou? O mundo inteiro havia escutado, mas Itró foi o único que internalizou a mensagem. Os nossos sábios explicam no Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas) que existem 48 ferramentas para verdadeiramente adquirir os conhecimentos da Torá. A segunda ferramenta é "Shmiat Haozen", que literalmente significa "escutar com os ouvidos". Toda vez que a Torá utiliza a palavra "Shemá", como em "Shemá Israel", isto implica um nível mais profundo de escuta, que envolve focar, prestar atenção, entender e colocar em ação. Escutar de verdade é deixar a mensagem penetrar em nossos pensamentos e nos influenciar na prática. O mundo inteiro escutou sobre os milagres que ocorreram ao povo judeu, mas somente Itró internalizou e tomou uma atitude.

Porém, há um nível ainda maior do que saber escutar as opiniões de pessoas mais elevadas do que nós: saber escutar as opiniões daqueles que estão em um nível mais baixo do que nós. Normalmente, quando escutamos uma pessoa mais baixa expressando sua opinião, nós "desligamos" os nossos ouvidos. Ao invés de escutar, nossa cabeça está focada em procurar argumentos para derrubar o que o outro está falando. Além de ser uma tremenda demonstração de falta de educação, esta atitude dificulta nossa possibilidade de crescimento em sabedoria.

Assim aprendemos daqueles que atingiram a grandeza: "Quem é o sábio? Aquele que aprende com todos" (Pirkei Avót 4:1). Mas o que significa aprender com todos? O que pessoas com menos sabedoria podem acrescentar em nossas vidas? Esta pergunta foi feita certa vez a um grande rabino, que respondeu contando algo muito interessante que havia acontecido em sua vida. Ele era um rabino muito respeitado, grande conhecedor da Torá. Certa vez ele foi convidado a dar aulas de Mishná Brurá, um livro de Halachót (leis) extremamente profundo escrito pelo Chafetz Chaim, a um grupo de Baalei Teshuvá (pessoas afastadas do judaísmo que decidiram se reaproximar da Torá). Apesar de serem pessoas ainda com pouco conhecimento de Torá, eles abordavam as Halachót através de ângulos muito diferentes do rabino e traziam questionamentos que ele nunca havia parado para pensar. Após um ano de aulas, o rabino chegou a uma incrível conclusão: por causa daquelas aulas, ele havia repensado seriamente sobre muitos fundamentos que ele já havia aceitado em sua vida, e havia chegado a um nível muito mais profundo e abrangente no entendimento das Halachót da Mishná Brurá. Ao saber escutar mesmo das pessoas com menos conhecimento, ele havia elevado de maneira significativa seu conhecimento de Torá.

É por isso que a Torá também traz como introdução à entrega da Torá o conselho de Itró a Moshé Rabeinu. Moshé foi o maior profeta da história da humanidade, havia recebido pessoalmente de D'us toda a Torá. Apesar de Itró ser uma pessoa sábia, que havia dedicado sua vida a buscar conhecimento, ele não chegava aos pés da grandeza de Moshé. Escutar Itró foi uma monumental demonstração da grandeza espiritual de Moshé. Foi a maior demonstração de que "sábio é aquele que aprende com todas as pessoas".

A Parashá nos ensina que a única maneira de se tornar grande em Torá é sendo humilde e estando com os ouvidos abertos a todos. Por educação e por sabedoria, precisamos aprender a escutar. Precisamos saber deixar o outro falar a frase até o fim e não interrompê-lo no meio já com a nossa resposta. Há muitas pessoas que fazem questão de repetir o argumento do seu companheiro antes de dar a sua opinião, para ter certeza que realmente entendeu o que o outro quis dizer. D'us não vai cobrar de nós por não estarmos sempre com a razão, mas certamente Ele nos cobrará se não soubermos escutar todas as pessoas. É sabendo escutar que se criam gigantes espirituais.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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sábado, 11 de fevereiro de 2017

RESPEITANDO O PRÓXIMO - PARASHÁ BESHALACH 5777

"Depois de alguns meses se conhecendo, Joel e Miriam ficaram noivos. Eles não cabiam em si de contentamento, pois sentiam que finalmente haviam encontrado suas metades. Como ainda estavam se conhecendo, combinaram de fazer um passeio em um parque no alto da cidade, um lugar com uma vista maravilhosa. Após passearem e conversarem muito, ao perceberem que estava anoitecendo, decidiram voltar. Foi então que Miriam comentou com Joel que a lua havia sumido. Muito romântico, Joel respondeu:

- A lua deve ter ficado envergonhada diante da sua beleza e por isso se escondeu.

Miriam se sentiu lisonjeada com a resposta tão galanteadora do seu noivo. Que homem educado e delicado. Havia ganhado um prêmio de loteria ao ter conhecido alguém assim tão especial. Alguns meses depois eles se casaram e, com o tempo, começaram a se conhecer cada vez mais e a ganhar intimidade. Após alguns anos de casamento, Miriam quis resgatar um pouquinho do romantismo da época de noivado. Ela convidou Joel para passear naquele mesmo parque. No final do passeio, quando já estava anoitecendo, novamente Miriam virou-se para Joel e comentou que a lua havia desaparecido. Ele então virou-se para ela e disse:

- Sua tonta, você não percebeu que hoje está nublado???"

Apesar de ser uma piada, muitas vezes a convivência com as pessoas faz com que deixemos de tratá-las com o devido respeito. Temos que nos cuidar muito, principalmente com as pessoas mais próximas, para nunca ofender ou destratar ninguém, em especial as pessoas mais queridas. 
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Na Parashá desta semana, Beshalach (literalmente "Quando enviou"), finalmente o povo judeu saiu em liberdade, acabando com 210 anos de uma brutal escravidão. Mas a alegria do povo judeu durou pouco, pois logo o Faraó se arrependeu de ter libertado seus escravos e saiu em sua perseguição. Os judeus se viram presos no meio do deserto, com o Mar Vermelho diante deles e os egípcios fortemente armados se aproximando ameaçadoramente. D'us então fez o grande milagre da abertura do mar, para que os judeus pudessem passar com segurança em terra firme, e depois fechou-o sobre os egípcios, matando-os e deixando seus corpos expostos na praia, para que os judeus pudessem se sentir livres de verdade ao ver seus opressores mortos.

Quando os judeus viram o grande milagre e salvação que D'us havia feito, se sentiram tão felizes que de seus corações saiu um cântico de agradecimento, o "Shirat Haiam" (Cântico do Mar). A abertura do mar foi um incrível momento de revelação e proximidade de D'us. Dentro deste Cântico estão as seguintes palavras de louvor: "Este é o meu D'us e eu O exaltarei" (Shemot 15:2). A explicação mais simples é que as pessoas puderam ter uma visão mais clara de D'us durante aquele milagre e puderam reconhecer toda a Sua bondade.

O Talmud (Shabat 133b) aprende outro ensinamento deste versículo. A palavra "Anvehu", que significa "Eu O exaltarei", vem da mesma raiz da palavra "Noi", que significa "Beleza". O Talmud nos ensina que este versículo é uma exigência de nos esforçarmos para cumprir as Mitzvót de D'us da maneira mais agradável esteticamente. Por exemplo, quando cumprimos a Mitzvá de "Arbaat HaMinim" (4 espécies), devemos procurar um Lulav de aparência bonita. Também quando construímos uma Sucá e adquirimos um Talit, devemos nos esforçar para que eles sejam visualmente bonitos. De acordo com o Rabeinu Bechaya zt"l (Espanha, 1255 - 1340), este embelezamento das Mitzvót é uma maneira através da qual nós podemos demonstrar o nosso amor por D'us.

Porém, esta explicação parece ser contraditória com um conceito ensinado pelo Rav Moshe Chaim Luzzato zt"l (Itália, 1707 - Israel, 1746), mais conhecido como Ramchal, em seu livro "Messilat Yesharim" (Caminho dos Justos). Ele divide o Serviço Divino em duas categorias: "Ahavat Hashem" (Amor a D'us) e "Irat Hashem" (Temor a D'us). Dentro do amor a D'us ele incluiu a alegria no cumprimento das Mitzvót. Sob a categoria de temor a D'us ele incluiu a submissão perante D'us e honrar as Mitzvót. Ao explicar o conceito de honrar as Mitzvót, o Ramchal traz justamente o mesmo ensinamento do Talmud que nos incentiva a embelezarmos as Mitzvót. Portanto, de acordo com o Ramchal, o embelezamento das Mitzvót estaria incluído dentro da categoria de "temor a D'us". Porém, não seria muito mais lógico enquadrar o embelezamento das Mitzvót como uma demonstração de amor a D'us, como fez o Rabeinu Bechaya? Como entender esta opinião do Ramchal?

Além disso, por que a primeira reação do povo judeu após a incrível salvação através da milagrosa abertura do mar foi o compromisso de embelezar as Mitzvót? Não seria mais apropriado em primeiro lugar eles se comprometerem a simplesmente cumprir as Mitzvót? Qual a conexão entre embelezar as Mitzvót e a incrível revelação de D'us que ocorreu na abertura do mar?

Finalmente, o Talmud (Shabat 133b) aprende outro ensinamento da palavra "Anvehu", que pode ser dividida em duas palavras: "Ani" "Vehu", que significa "Eu e Ele". Isto nos ensina que, para nos assemelharmos a D'us, devemos imitar Seus caminhos. Por exemplo, da mesma forma que Ele é misericordioso, também devemos ser misericordiosos. Mas por que aprendemos o conceito de como devemos nos relacionar com D'us da mesma palavra que aprendemos o conceito de embelezar as Mitzvót? Qual é a conexão entre os dois conceitos?

Explica o Rav Yohanan Zweig que no começo de qualquer relacionamento interpessoal há uma certa distância natural entre as duas partes. Esta distância faz com que cada uma das partes respeite a outra e esteja disposta a se relacionar de acordo com os termos da outra parte. Porém, com o tempo e a convivência, as pessoas começam a ganhar confiança e a distância natural se dissipa. Neste momento, normalmente o respeito mútuo também vai diminuindo e cada uma das partes começa a exigir que o outro se ajuste ao seu comportamento. É este "choque de vontades" que acaba alimentando o sentimento de desprezo após algum tempo de convivência.   

Os nossos relacionamentos interpessoais são um modelo do nosso relacionamento com D'us. Portanto, da mesma forma que isto ocorre entre as pessoas, esta perda de respeito também pode ocorrer no nosso relacionamento com D'us. De acordo com o Talmud (Sotá 30b), o relacionamento do povo judeu com D'us durante a abertura do mar se tornou algo tão próximo, tão tangível, que até mesmo os bebês foram capazes de perceber a presença de D'us. A percepção de D'us transcendeu, de algo apenas intelectual para algo muito mais tangível e concreto. Automaticamente a distância entre o povo judeu e D'us diminuiu. Nestas circunstâncias, esta proximidade poderia ter causado com que as sementes do desprezo tivessem sido espalhadas. O povo judeu entendeu que a única solução para este problema era imediatamente receber sobre si o compromisso de embelezar as Mitzvót.

Mas como isto resolveria o problema da falta de respeito por causa da maior proximidade? Quando vemos algo muito bonito, nosso instinto faz com que consideremos como sendo algo inacessível. A beleza eleva um objeto e cria naturalmente uma distância. Nosso objetivo na vida é construir com D'us um relacionamento de amor. Ao embelezar as Mitzvót, nós inserimos respeito no relacionamento, e é o respeito que preserva o amor. De acordo com o Ramchal, como o propósito do embelezamento das Mitzvót é inserir respeito no relacionamento entre nós e D'us, então ele considera como sendo parte do "temor a D'us". Ao embelezá-las, nós inserimos nas Mitzvót uma dignidade que cria reverência e admiração aos olhos de quem as realiza.

A fundação do amor verdadeiro em qualquer relacionamento é o respeito. O respeito garante que não haverá nenhum tipo de desprezo. Desenvolver nossa religiosidade através de emular os atos de D'us nos permite desenvolver o respeito que preservará o nosso relacionamento. É por isso que o mesmo versículo que ensina sobre o nosso relacionamento com D'us é também uma fonte da exigência de embelezar as Mitzvót, pois este ato de embelezar as Mitzvót cria o respeito necessário para manter um relacionamento saudável.

Esta Parashá traz um ensinamento extremamente importante para nossas vidas. É muito comum sermos desrespeitosos justamente com as pessoas mais próximas, pois é justamente a proximidade que acaba causando com que nos acostumemos e deixemos de respeitar os outros da maneira correta. Isto ocorre dentro das nossas casas e nos ambientes de trabalho. A Parashá nos ensina que esta é uma característica natural do ser humano e, justamente por isso, se não tomarmos nenhuma atitude, acabaremos desrespeitando e ofendendo pessoas queridas. Da mesma forma que o povo judeu procurou uma forma de manter o respeito com D'us apesar da proximidade, precisamos pensar em maneiras de como sempre manter o respeito com as pessoas que são mais próximas, pois são elas que justamente mais merecem o nosso respeito e consideração.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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Ex. 13:17-17:16, Jz. 4:4-5:31

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

SANTIFICANDO O NOME DE D'US - PARASHÁ BÔ 5777

"Josh Glick, um judeu religioso, foi logo cedo alugar um carro em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Ele precisava urgentemente do carro para resolver assuntos importantes do trabalho. Quando chegou a sua vez na fila, abriu a carteira para pegar seu cartão de crédito e sua carteira de identidade. Encontrou rapidamente o cartão de crédito mas, para seu desespero, não encontrava a carteira de identidade. Revirou todos os bolsos, procurou se tinha caído no chão da loja, mas simplesmente não encontrava. Sabia que nunca alugariam para ele um carro sem o documento, mas estava tão desesperado que resolveu tentar. Se aproximou do homem no balcão e explicou a situação. O homem então lhe fez um pedido estranho:

- Senhor, me desculpe, mas você pode arregaçar a manga esquerda do seu terno para que possa ver seu braço?

Josh achou que tinha entendido errado. O que aquele pedido estranho tinha a ver com o aluguel do carro e com a falta da carteira de identidade? Seu olhar de espanto foi percebido pelo funcionário da loja, que explicou:

- Eu só quero ver se você tem aquelas marcas no braço (que ficam por algum tempo depois que a pessoa coloca o Tefilin). Se você tiver aquelas marcas, eu sei que posso confiar em você e posso alugar o carro mesmo sem a sua carteira de identidade.

Josh, muito feliz, mostrou suas marcas de Tefilin no braço esquerdo e saiu de lá com o carro alugado. Naquele dia ele percebeu a importância de fazer "Kidush Hashem" (santificar o Nome de D'us), se comportando sempre de maneira honesta e digna, para que o povo judeu se torne, diante dos outros povos, um modelo de honestidade e retidão" (História Real, retirada do livro "Impact Stories!", de autoria do Rav Dovid Kaplan). 
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Na Parashá desta semana, Bô (literalmente "Venha"), D'us castigou os egípcios com as últimas três pragas, quebrando de vez a resistência do Faraó. Não suportando mais os sofrimentos, ele finalmente libertou os judeus. O auge do sofrimento dos egípcios foi a última praga, a Morte dos Primogênitos, quando todos os primogênitos egípcios morreram de uma só vez, enquanto os primogênitos judeus foram poupados. Em cada praga, D'us ia demonstrando um pouco mais Seu controle sobre as forças da natureza. Nesta última praga, D'us demonstrou ser o único dono da vida e da morte. Mesmo para aqueles que ainda insistiam em procurar explicações naturais para as pragas e para os milagres abertos que aconteciam no Egito, a morte dos primogênitos foi uma revelação inegável do poder de D'us. Tanto para os egípcios como para os judeus, esta última praga transformou a percepção humana em relação à presença de D'us, de algo abstrato e subjetivo em algo muito mais visível e palpável.

Esta revelação do poder de D'us acabou se transformando em um grande "Kidush Hashem", quando o Nome de D'us é santificado no mundo. E por causa deste Kidush Hashem criado, os primogênitos do povo judeu foram elevados e ganharam um status de santidade eterna. Deste momento em diante, os primogênitos se dedicariam aos Serviços Divinos. Por exemplo, eles seriam os responsáveis por todos os trabalhos feitos nos Templos Sagrados. Infelizmente, após o desastroso tropeço do povo judeu com o bezerro de ouro, no qual os primogênitos também participaram, eles perderam este grande privilégio, que foi passado para a Tribo de Levi, os únicos que não haviam se envolvido na terrível transgressão.

Porém, esta santidade recebida pelos primogênitos era tão forte que, mesmo com o bezerro de ouro, ela não foi anulada. Foi necessária uma "cerimônia" para que os primogênitos fossem "liberados" deste privilégio e ele fosse passado à Tribo de Levi. Até hoje, quando um primogênito completa 30 dias de vida, ele passa por uma cerimônia chamada "Pidion Haben", justamente para "resgatá-lo" deste nível diferenciado de santidade.

Mas este conceito desperta uma grande questão: afinal, o que os primogênitos fizeram para merecer este status espiritual tão especial? D'us mandou uma praga que matou os primogênitos egípcios, e tudo o que os primogênitos judeus fizeram foi não morrer junto com eles! Se foi uma participação tão passiva dos primogênitos judeus, então por que eles tiveram o mérito de receber tanta santidade?

Explica o Rav Yssocher Frand que este tipo de questionamento é decorrência da nossa falta de entendimento da enorme importância de fazermos Kidush Hashem. Um ato de Kidush Hashem é algo tão grande que, mesmo quando é feito de forma passiva, como ocorreu no caso dos primogênitos judeus, pelo fato de resultar em uma santificação do Nome de D'us no mundo, isto automaticamente causa um aumento da santidade daquele que participou dele. Isto quer dizer que, se os primogênitos foram recompensados de uma maneira tão grandiosa mesmo sendo meros coadjuvantes na santificação do Nome de D'us, certamente muito maior será os ganhos daqueles que conseguirem criar uma santificação do Nome de D'us de maneira ativa.

Mas como podemos santificar o Nome de D'us? Quando pensamos no conceito de "Kidush Hashem", sempre nos vêm à cabeça a ideia de pessoas fazendo grandes atos, às vezes entregando até mesmo suas próprias vidas para engrandecer o Nome de D'us. Foi o que ocorreu durante toda a história do povo judeu, como nas épocas das conquistas do Império Romano e da Inquisição, quando muitos judeus preferiram entregar suas vidas e morrer em "Kidush Hashem" do que se converter para outras religiões.

Porém, a verdade é que não é necessário morrer para fazer Kidush Hashem. Na realidade, não é necessário nem mesmo grandes atos para isto. Pequenos atos de retidão e justiça podem ter um impacto incrível no mundo. E quanto mais o mundo se afunda na escuridão da corrupção, mentira e egoísmo, maior o brilho dos nossos bons atos. As pessoas estão tão acostumadas com a desonestidade que um pequeno ato de honestidade se transforma em manchete principal da capa do jornal.

Um exemplo interessante ocorreu com o Rav Simcha Barnett. Certa vez ele estava em uma loja e, após pagar por um produto adquirido, ele recebeu de volta o seu troco. Por engano, ele contou o troco e pensou que a mulher do caixa havia se equivocado e devolvido troco a mais. Ele voltou ao caixa, comunicou à mulher o equívoco dela e devolveu parte do dinheiro. A mulher checou novamente às contas e mostrou ao rabino que o troco estava correto. O que poderia parecer um pequeno ato, quase insignificante, tomou outras proporções. A mulher, deslumbrada pela honestidade do rabino, agradeceu-o pelo incrível ato de cidadania. Ainda não satisfeita, ela agradeceu mais uma vez ao rabino pela grande gentileza. Então o rabino disse: "Senhora, eu não estou sendo gentil. Eu estou fazendo a coisa certa, apenas a coisa certa". O rabino conta que foi visível o impacto que estas palavras tiveram sobre aquela mulher. Após alguns instantes de reflexão, ela disse: "Realmente, o senhor tem razão. Isto não se trata de gentileza. Isto é apenas fazer o que é certo".

Por um lado, este tipo de acontecimento nos causa certo desânimo. Vivemos em uma sociedade com valores morais tão distorcidos que um simples ato de retidão é visto como uma incrível gentileza, algo que é "mais do que nossa obrigação". Por que devolver dinheiro que recebemos a mais seria um ato de gentileza? É um ato de justiça, é apenas ser correto, fazer o que precisa ser feito. Não devolver o troco a mais é roubo, é uma enganação! Então por que o mundo atualmente se perdeu tanto moralmente a ponto de não saber mais identificar a diferença entre fazer o que é correto e fazer o que é mais do que o necessário?

Por outro lado, este exemplo nos desperta para o incrível impacto positivo que um simples e pequeno ato de retidão pode causar nas pessoas. Quando uma pessoa vê seu companheiro fazendo atos justos e corretos, ela vê de forma um pouco mais palpável a bondade e a perfeição de D'us, expressados através do bom ato desta pessoa. Isto é chamado Kidush Hashem, a santificação do Nome de D'us.

A verdade é que esta é uma das principais missões do povo judeu neste mundo, o que é confirmado pelas palavras do nosso profeta: "Eu sou D'us. Eu chamei vocês com justiça e Eu fortalecerei sua mão; e Eu formei você, e Eu fiz de você um povo do pacto, uma luz para as nações" (Yeshayahu 42:6). Ser uma "luz para as nações" significa se transformar em um modelo através do qual todas as nações do mundo verão a justiça, a retidão e a moralidade, e serão atraídas por elas e por D'us, quem as ordenou.

Os primogênitos, com um ato passivo, receberam o mérito de uma santidade mais elevada e eterna. Pequenos atos de retidão e honestidade, feitos de forma ativa e consciente, certamente trarão muito mais mérito a cada um de nós. Para santificar o Nome de D'us não é necessário mais do que pequenos atos de bondade e de sensibilidade, utilizando com todas as pessoas palavras e gestos gentis e solidários. Tratar bem os funcionários, ser educado com o motorista do ônibus, cumprimentar o porteiro ao sair e entrar no prédio e ser solidário com os colegas de trabalho são pequenos atos que podem transformar o mundo. Isto não é fazer mais do que a nossa obrigação. Isto é cumprir a missão que viemos fazer no mundo.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

EDUCANDO COM ATITUDES - PARASHÁ VAERÁ 5777

"Naquela noite, Ricardo voltava para casa com o mesmo mau humor que o caracterizava há alguns meses. Eram tantos problemas e dificuldades que ele havia se transformado em uma pessoa amarga, triste e mal humorada. Já era tarde da noite quando ele finalmente entrou em casa. Estava tudo escuro, apenas a luz acesa da cozinha iluminava fracamente a sala. Ricardo então ouviu a voz do seu filho de quatro anos de idade vinda da cozinha:

- Mãe, por que o papai está sempre tão triste e bravo?

- Não sei, meu amor - respondeu a mãe, com paciência - Ele deve estar preocupado com os negócios. Sustentar uma família não é fácil.

- Mas o papai também fica assim bravo e triste no trabalho?

- Nas lutas diárias, seu pai precisa sempre demonstrar força e controle. Ele deve parecer alegre para agradar o chefe e os clientes. É importante para o trabalho dele. Mas quando ele volta para casa, traz muitas preocupações. Fora de casa ele precisa se cuidar para não ser grosseiro com ninguém, demonstrando estar sempre alegre e otimista. Mas o mesmo não acontece aqui em casa. Aqui, filho, ele não precisa esconder de ninguém o cansaço e as preocupações.

A criança pareceu escutar atenta. Depois, após ter refletido por algum tempo, suspirou e desabafou:

- Que pena, mãe. Não poderia ser o contrário? A família não deveria ser mais importante que os negócios? Eu gostaria tanto de ter um pai feliz em casa, pelo menos de vez em quando. Gostaria que ele chegasse em casa e me pegasse no colo, brincasse comigo, me desse um sorriso...

Naquele momento, Ricardo não aguentou as emoções. As lágrimas começaram a cair, inicialmente aos poucos, depois se transformaram em um choro compulsivo. Ele percebeu como estava maltratando sua própria família. Emocionado, ele entrou na cozinha, abriu os braços, correu para o filho, abraçou-o com força e convidou:

- Filhão, cheguei. Que saudades! Vamos brincar?"

Quando estamos em público, no trabalho ou em eventos sociais, vestimos máscaras e nos transformamos em outras pessoas. Somente quando estamos em casa é que somos nós mesmos de verdade. E precisamos prestar atenção às mensagens que transmitimos às nossas crianças quando estamos em casa, pois elas aprendem com nossas palavras, mas acima de tudo elas aprendem com as nossas atitudes. 
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Na Parashá desta semana, Vaerá (literalmente "Apareci"), após a recusa do Faraó em deixar o povo judeu sair do Egito, D'us começou a mandar terríveis pragas milagrosas, que causaram muito sofrimento aos egípcios, medida por medida por tudo o que eles haviam causado de mal ao povo judeu em mais de 200 anos de escravidão. As pragas foram minando, pouco a pouco, a resistência do Faraó e dos egípcios. Quando finalmente o povo judeu saiu em liberdade, o Egito estava completamente devastado. Mas antes de iniciar a descrição das incríveis pragas milagrosas que aconteceram no Egito, realizadas através de Moshé e seu irmão Aharon, a Torá traz uma breve genealogia do povo judeu, identificando as famílias que descenderam de cada um dos filhos de Yaacov. Por que a Torá resolveu trazer esta genealogia justamente neste momento, antes de começar a descrever as milagrosas pragas do Egito?

Explica o Rav Shimshon Raphael Hirsch zt"l (Alemanha, 1808 - 1888) que a maioria das religiões atribui aos seus líderes e fundadores descendências divinas. A Torá, ao contrário, quer ressaltar que nossos maiores líderes eram pessoas comuns, nascidas de pai e mãe, sem poderes sobrenaturais. Mesmo gigantes espirituais como Moshé e Aharon eram pessoas de carne e osso, seres humanos normais. É por isso que, justamente antes de começar o assunto das milagrosas pragas realizadas por Moshé e Aharon, a Torá mostra a genealogia deles, para deixar claro que Moshé e Aharon eram apenas intermediários de D'us, pessoas comuns, sem descendência Divina e sem poderes milagrosos. O único que verdadeiramente faz milagres é D'us.

Porém, se prestarmos atenção, perceberemos um detalhe interessante no versículo que descreve a genealogia de Aharon: "E Aharon tomou como esposa Elisheva, filha de Aminadav, irmã de Nachshon" (Shemot 6:23). Este versículo foge da normalidade, pois ao mencionar algumas personalidades, em geral a Torá identifica quem é o pai delas. Em relação a Elisheva, além do pai, a Torá escreveu também quem era seu irmão. Mas se ela era filha de Aminadav, já saberíamos automaticamente que ela é irmã de Nachshon, pois ele é identificado na Torá como "Nachshon ben Aminadav". Então por que a Torá fugiu da normalidade e mencionou também o irmão de Elisheva?

Deste pequeno detalhe do versículo, algo aparentemente insignificante, o Talmud (Baba Batra 110a) aprende algo muito importante: antes de se casar, um homem deve checar bem as características de sua futura esposa. E como isto deve ser feito? Observado as características do irmão dela. É por isso que o versículo trouxe, além do nome do pai de Batsheva, também o nome do irmão dela.

Mas este ensinamento do Talmud não parece ser muito lógico. Os filhos herdam muitas características de seus pais. Para conhecer a natureza de uma futura esposa, seria muito mais razoável investigar diretamente os pais dela. O próprio Talmud, em diversas ocasiões, ressalta a importância de se esforçar para se casar com uma mulher cujo pai seja uma pessoa com boas qualidades. Então, se são tão importantes as qualidades dos pais, por que o versículo que fala do casamento de Aharon com Batsheva enfatiza que o homem deve investigar o irmão de sua futura esposa para conhecer a verdadeira natureza dela, ao invés de incentivar a investigar diretamente os pais dela?

Explica o Rav Yohanan Zweig que muitas vezes vivemos uma vida de aparências. As pessoas não se comportam na rua da mesma maneira que se comportam dentro de casa. Quando sabemos que as pessoas estão olhando, nos comportamos de maneira exemplar, para que as pessoas nos valorizem. Nossa real personalidade, que é revelada apenas quando estamos dentro de casa, quando ninguém mais está olhando, poucas pessoas conhecem de verdade.

É isto que o versículo está nos ensinando ao incentivar o homem a investigar as características do irmão de sua futura esposa. Um adulto é capaz de projetar uma imagem que não necessariamente reflete sua verdadeira essência. As fachadas que as pessoas criam tornam praticamente impossível ter acesso à sua verdadeira natureza. Por outro lado, diferente dos adultos, as crianças não têm tanta necessidade de projetar uma imagem que dê a elas um bom status social. Portanto, o comportamento de uma criança normalmente é genuíno e reflete sua verdadeira natureza.

Porém, uma criança ainda está em fase de construção dos seus traços de caráter. Quando vemos o comportamento de uma criança, estamos enxergando não apenas suas características particulares, mas principalmente as características de seus pais, que ela intuitivamente imita por serem seus principais modelos de comportamento. Durante os anos de formação do caráter das crianças, são os pais que vão moldando os padrões de comportamento de seus filhos, através de ensinamentos e educação, mas principalmente através de exemplos.

Quando um homem investiga o irmão da sua futura esposa, desta maneira ele pode verdadeiramente investigar os pais dela, pois o comportamento de uma criança é "imune" à fachada que seus pais podem ter criado para ocultar algum mau comportamento. Portanto, o comportamento de uma criança reflete cada pequeno detalhe do comportamento dos seus pais. E é muito provável que, caso os pais tenham maus traços de caráter, estes também tenham sido absorvidos pela sua futura esposa.

Porém, se este é o motivo, então por que não procurar diretamente na própria futura esposa os traços de caráter dela? Pois as mulheres são naturalmente mais reservadas e recatadas, impedindo a detecção imediata dos traços de caráter inseridas nelas pelos seus pais. Já os homens normalmente costumam se expor mais e serem bem menos reservados e recatados. Por isso, permitem uma avaliação muita mais acurada e abrangente da natureza dos pais.

É responsabilidade dos pais educar seus filhos. A educação certamente deve vir dos ensinamentos de Torá que eles recebem na escola e das intervenções constantes dos pais para ajustar seus traços de caráter, ressaltando as boas características e canalizando as más características. Os pais precisam estar atentos a qualquer desvio dos filhos e devem aprender a criticá-los da maneira correta e no momento correto. Além disso, os pais também precisam saber elogiar e incentivar muito seus filhos, para que eles possam crescer e se tornar adultos saudáveis.

Porém, este pequeno detalhe do versículo da nossa Parashá carrega um ensinamento extremamente importante: a melhor forma de educar os nossos filhos, e certamente a mais eficiente, é através de exemplos. Se as crianças vivem cercadas de críticas, aprendem a condenar os outros. Se vivem em um ambiente com hostilidades, aprendem a brigar e a serem intransigentes. Se vivem com zombarias, aprendem a ser tímidas e retraídas. Mas se vivem com tolerância, aprendem a ser pacientes e compreensivas. Se vivem com incentivos e elogios, aprendem a ter autoconfiança e a apreciar o que os outros fazem de bom. Se vivem com justiça, aprendem a ser pessoas honestas. A forma como tratamos as crianças e, acima de tudo, a forma como nos comportamos diante das crianças, é a melhor forma de ensinamento. Se quisermos crianças melhores, antes de tudo precisamos nos transformar em seres humanos melhores. Somente assim teremos realmente um mundo melhor.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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Ex. 6:2-9:35, Ez. 28:25-29:21