sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

DOAR COM O CORAÇÃO - PARASHÁ MISHPATIM 5777

Foi em um dia qualquer, no meio do verão, na cidade de Angra dos Reis. Um lugar paradisíaco, que estamos acostumados a ver estampado nas páginas das revistas. O garoto pobre aproximou-se da mansão, colocou o rostinho entre as grades do portão alto e ficou olhando. Evelyn, a dona da casa, uma senhora distinta, regava o jardim. Fazia a tarefa devagar, como quem distribui as gotas com carinho. O menino, em seus nove anos, segurando as grades com as duas mãos, pediu:

- Ei, dona, tem pão velho?

Ela olhou surpresa. Fechou a mangueira e começou a se aproximar do garoto. Desde a sua infância aquele tipo de situação a incomodava. Trazia uma mensagem dentro de si de que, quando alguém pedia pão velho, na verdade estava dizendo: "Me dá o pão que era meu e ficou na sua casa e você esqueceu de comer porque tem muitas outras coisas deliciosas para saborear". Ela caminhou até o portão e perguntou:

- Por que você não está na escola?

- Minha mãe não tem dinheiro para comprar o material - respondeu o garoto, com sinceridade.

Evelyn já estava tão próxima dele que quase o podia tocar. Ele tinha um rostinho tão delicado. Pena que estivesse tão sujo. Pensou nos próprios filhos, tão bem cuidados, penteados, roupas limpas, calçados brilhantes e lancheira cheia para ir para a escola. Do rostinho miúdo do garoto se destacavam os olhos. Espertos, inteligentes e sofridos.

- Seu pai mora com vocês? - arriscou Evelyn.

- Ele sumiu há muitos anos. Não sabemos onde ele está - respondeu o garoto, com voz triste.

A conversa prosseguiu. Evelyn até se esqueceu do jardim e das flores. Diante dela estava uma flor muito mais importante e com muito mais necessidades. Finalmente, Evelyn se recordou da fome do menino e, fazendo um gesto de quem se dirigia para dentro de casa a fim de buscar alguma coisa, exclamou:

- Espere um pouco, vou buscar o pão. Mas não tenho pão velho, serve novo?

- Não precisa não, a senhora já conversou comigo. Tchau - respondeu o garoto, e desapareceu ladeira abaixo.
 Aquela resposta caiu como um raio no coração de Evelyn. Ela teve a sensação de ter absorvido toda a solidão e a falta de amor daquela criança. Um menino de nove anos já sem sonhos, sem brinquedos, sem comida, sem escola e tão necessitado de carinho e de uma conversa amiga. Naquele dia Evelyn aprendeu um novo significado para o pedido de pão velho. Significa "converse comigo, me dê atenção". Por isso, ela continua dando pão novo, fresquinho. Mas, antes de tudo, compartilha o pão das pequenas conversas, um pão que nunca fica velho. O pão mata a fome do corpo, mas a palavra carinhosa nutre o coração entristecido e traz de volta a esperança de um mundo melhor.
A Parashá desta semana, Mishpatim (literalmente "Juízos"), nos ensina diversos tipos de leis, em especial as que envolvem os relacionamentos interpessoais, nos ajudando a entender o quanto a Torá é rigorosa com o nosso comportamento em relação ao nosso semelhante e o quanto devemos nos esforçar para sermos pessoas corretas e honestas. São dezenas de leis, com muitos detalhes de como devemos nos comportar mesmo nas situações difíceis que ocorrem no nosso cotidiano.

A Parashá também desperta o lado misericordioso do ser humano, ao nos ensinar leis referentes aos cuidados que devemos ter com os pobres. Por exemplo, a Torá diz que é uma obrigação emprestar dinheiro a alguém necessitado e nos ensina como fazer isso da melhor maneira, como está escrito: "Quando você emprestar dinheiro ao Meu povo, ao pobre que está com você, não se comporte com ele como um credor... se você pegar a roupa de seu companheiro como garantia, você deve devolvê-la até o por do sol. Pois esta é a sua única coberta, a veste para sua pele, com o que ele dormirá? Se ele gritar a Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso" (Shemot 22:24-26).

Este versículo descreve detalhes importantes da Mitzvá de emprestar dinheiro a alguém necessitado. Em primeiro lugar, a Torá ressalta que não devemos nos comportar como credores, nos ensinando que quando uma pessoa não tem condições de devolver o empréstimo na data combinada, não devemos pressioná-la. Devemos deixá-la à vontade, para que ela não se sinta humilhada toda vez que nos encontrar. Além disso, a Torá nos ensina que o devedor deve deixar um objeto como garantia, para caso não consiga pagar sua dívida. Porém, se a pessoa for tão pobre que este objeto de garantia for algo que ela precisa para o seu dia-a-dia, como a roupa que ela veste para dormir, então devemos constantemente devolvê-lo, para que a pessoa possa utilizá-lo sempre que necessário.

Mas o que realmente nos chama a atenção são as palavras finais do versículo: "Se ele gritar a Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso". Aparentemente a Torá está deixando claro que, caso o credor não devolva o objeto de garantia para o devedor quando este necessitar, causando com que o devedor grite desesperadamente para D'us, então Ele escutará e castigará o credor. Porém, o credor cometeu alguma transgressão somente por ter pressionado o devedor, retendo o objeto de garantia? O credor fez a sua parte e emprestou seu dinheiro. O grito é apenas entre o devedor e D'us, pois o credor não tem culpa do devedor não ter dinheiro para pagar suas dívidas. Então por que o versículo dá a entender que o credor será castigado caso pressione o devedor?

De acordo com o Rav Ovadia Sforno zt"l (Itália, 1475-1550), após escutar o grito do pobre, D'us fala para o credor: "Quando o pobre grita para Mim, Eu darei a ele um pouco do que teria dado a você, pois Eu dou a você mais do que você precisa justamente para que você possa ajudar a sustentar os outros". Isto quer dizer que D'us deveria mandar para cada ser humano exatamente o que ele precisa para as suas necessidades básicas, como ocorria no deserto, quando o "Man" caía diariamente e cada um recebia exatamente a quantidade que necessitava para sua alimentação diária. Porém, olhamos para o mundo e vemos que a distribuição das riquezas não é igual. Para alguns D'us manda "a mais", enquanto para outros D'us manda "a menos". Devemos ter a claridade de que quando recebemos "a mais", isto não é para nós mesmos, para os nossos luxos, e sim para podermos ajudar a sustentar outras pessoas. É por isso que o versículo utiliza as palavras "Eu escutarei", pois D'us escutará que o credor tem mais do que precisa para suas próprias necessidades e, mesmo assim, fica pressionando o devedor, que tem menos do que precisa. Qual será a consequência? D'us tirará o dinheiro do credor e dará ao devedor.

Este conceito foi ensinado pelo mais sábio dos homens, Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "O rico e o pobre serão visitados. D'us é quem faz todos eles" (Mishlei 22:2). O Talmud (Temurá 16a), ao explicar este versículo, relata o que acontece quando um pobre se dirige a um rico e pede "por favor, me ajude no meu sustento". Caso o rico o ajude, então está tudo bem, mas caso o rico não o ajude, sofrerá consequências. "D'us é quem faz todos eles" significa que, da mesma forma que D'us fez a pessoa ficar rica, então Ele fará esta pessoa empobrecer, e da mesma forma que D'us fez a outra pessoa ser pobre, Ele a fará enriquecer.

Mas será que isto realmente pode acontecer? A pessoa rica já tem muito dinheiro acumulado, enquanto o pobre não tem nada! Como pode ser que esta situação vai se inverter? Estamos tão imersos nas ideias equivocadas do mundo material que nos esquecemos de que as regras espirituais são diferentes do que os nossos olhos enxergam. D'us recria tudo a todo instante. O que a pessoa tem neste momento não diz nada em relação ao que vai ocorrer em um próximo momento. Nada é garantido, pois se D'us não recriar a riqueza do rico, no próximo instante ele estará completamente pobre. Portanto, D'us, que controla tudo, pode fazer o rico perder tudo e o pobre enriquecer da noite para o dia.

O mesmo conceito também se aplica em relação aos assuntos espirituais. Assim nos ensina Shlomo Hamelech: "O pobre e o homem de pensamentos profundos são visitados. D'us é quem ilumina os olhos dos dois" (Mishlei 29:13). O Talmud (Temurá 16a) explica que este versículo se refere a um aluno que vai ao seu professor e pede "por favor, me ensine Torá". Caso o professor o ensine, então está tudo bem, pois D'us iluminará os olhos dos dois, tanto do professor quanto do aluno. "Pobre", neste caso, se refere ao aluno, alguém ainda pobre em Torá. "Homem de pensamentos profundos" se refere ao professor, neste caso alguém que já tem bastante conhecimento, mas que ainda precisa crescer muito espiritualmente. Caso o professor aceite dedicar parte do seu tempo para ensinar ao seu aluno, abrindo mão do seu próprio tempo de estudo, então D'us iluminará os olhos dos dois. O professor não perderá nada, ao contrário, ganhará conhecimento e sabedoria junto com o aluno.

Porém, o Talmud continua explicando que, caso o professor se recuse a ensinar seu aluno, preferindo dedicar seu tempo apenas ao seu próprio crescimento em Torá, então D'us, quem transformou aquela pessoa em um sábio, pode transformá-lo em um grande tolo, enquanto aquele que foi criado tolo pode se transformar em um sábio. Quando alguém não é misericordioso e se recusa a dividir o que recebeu "a mais", D'us o castiga e retira dele parte do seu dinheiro e dá ao pobre. O mesmo acontece com aquele que se recusa a ensinar seu companheiro, ele é castigado e perde parte de sua sabedoria, que é dada àquele que quer aprender. É como se D'us estivesse dizendo: "Eu te dei condições financeiras, Eu te dei sabedoria e força para você poder ensinar também aos outros, então por que você quer pegar tudo apenas para você mesmo? Você acha que tem algo? Quem deu tudo isto a você fui Eu. E como a cada momento Eu renovo o que Eu dou para as pessoas, a partir deste momento eu deixarei de dar para você e começarei a dar para ele".

Este é um grande ensinamento para conseguirmos vencer o nosso egoísmo. Vivemos com excessos e luxos, enquanto muitas pessoas não têm nem mesmo o básico. E o pior de tudo é que não nos importamos com os outros. Não apenas não repartimos a parte "a mais" do nosso dinheiro, como também não dedicamos nem mesmo o nosso tempo aos outros, para ensinar algo ou simplesmente para dar atenção a quem necessita. Precisamos lembrar que tudo o que temos é por bondade de D'us, mas se não soubermos utilizar o que recebemos, podemos perder tudo. A palavra "Tzedaká" normalmente é traduzida como "caridade", mas a tradução literal é "justiça". Quando ajudamos alguém que tem menos do que nós não estamos apenas fazendo caridade, estamos fazendo justiça. Este "a mais" somente veio até nossas mãos para podermos ter o mérito de ajudar os outros e, assim, criar um mundo mais justo.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex 21:1-24:18, Jr 34:8-22, 33:25-26

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A DIFÍCIL ARTE DE ESCUTAR - PARASHÁ ITRÓ 5777

"Yossef Goldman (nome fictício) estava se despedindo da Yeshivá. Após alguns anos de estudo em Israel, ele havia crescido muito espiritualmente. Porém, agora era hora de voltar aos Estados Unidos, para dar continuidade ao seu crescimento ao lado da família. A Yeshivá organizou uma linda festa de despedida para ele. Todos os seus amigos de anos de Yeshivá estavam presentes. Mas certamente um dos mais emocionados era Avraham Katz (nome fictício), seu "Chavruta" (colega de estudos) por muitos anos. Horas por dia eles passavam juntos, imersos no estudo da Torá, e a despedida agora era dura. Em certo momento da festa, começaram os discursos de despedida. Então chegou a vez de Avraham discursar:

- Não preciso me estender nos elogios ao Yossef - começou Avraham, visivelmente emocionado - Todos que conviveram com ele conhecem suas incríveis qualidades, como sua bondade, sempre pronto a ajudar todos que necessitam, e sua seriedade no cumprimento das Mitzvót e no estudo da Torá. Mas ele tem uma qualidade que eu, como seu Chavruta de muitos anos, fui um dos poucos privilegiados a perceber. Certo dia, nós estávamos entretidos em uma passagem do Talmud muito difícil. Tínhamos visões completamente distintas sobre como entender aquela passagem. Por muito tempo ficamos em uma discussão acalorada, cada um trazendo argumentos para defender seu ponto de vista. Era uma verdadeira "guerra de Torá" que estávamos travando. Apesar de ter defendido meu ponto de vista com unhas e dentes, Yossef é uma pessoa com uma incrível capacidade de argumentação. Mesmo me esforçando muito, parecia que ele havia saído vitorioso da discussão. Porém, no final do dia ele me chamou e disse: "Avraham, depois de refletir muito sobre seus argumentos, eu entendi os cálculos que você fez para chegar às suas conclusões. E, entendendo a forma como você chegou à sua conclusão, eu percebi que realmente é você que está certo no entendimento desta passagem que estudamos".

- Quando escutei aquilo - concluiu Avraham - eu entendi a verdadeira grandeza do meu Chavruta. Mesmo defendendo o seu ponto de vista, ele soube escutar os meus argumentos. Mas, acima de tudo, ele teve a humildade de assumir que estava errado. Não é fácil, em especial em uma discussão, alguém assumir que o outro está certo. E tenho certeza que estas duas incríveis qualidades de Yossef, a humildade e ouvidos que escutam de verdade, vão fazê-lo se tornar um dia um grande Talmid Chacham (Erudito de Torá).
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A Parashá desta semana, Itró, começa descrevendo a vinda de Itró, sogro de Moshé, ao acampamento do povo judeu no deserto. Ele trouxe também a esposa de Moshé e seus filhos, que haviam ficado em Midian enquanto Moshé foi ao Egito salvar o povo judeu. Itró havia escutado sobre o grande milagre da abertura do mar e sobre a guerra contra o povo de Amalek, e escutou de Moshé também todos os detalhes da salvação do povo judeu no Egito. Ele se surpreendeu com todos os milagres e com a incrível salvação do povo judeu. Depois disso, a Parashá descreve que Itró percebeu que Moshé julgava sozinho todo o povo, algo que era pesado para ele e para o povo, e por isso sugeriu que Moshé apontasse pessoas aptas a julgar o povo junto com ele, dividindo o peso e a responsabilidade. Moshé escutou os conselhos de seu sogro e, depois de se aconselhar com D'us, criou tribunais de instâncias menores, de forma que apenas os casos mais difíceis chegavam até ele. Por último, a Parashá também traz um dos eventos mais importantes da história do povo judeu: a entrega da Torá no Monte Sinai, diante de todo o povo judeu. Mas qual é a conexão entre a visita de Itró, o seu conselho dado a Moshé e a entrega da Torá no Monte Sinai?

Quando estamos em uma discussão importante e sentimos que não estamos conseguindo transmitir nosso ponto, como reagimos? Em um primeiro momento, repetimos e insistimos. Porém, se mesmo assim não conseguimos ter sucesso em convencer o outro de que estamos certos, o que fazemos? Começou a gritar: "Você está ouvindo o que estou dizendo? Você está prestando atenção?" Todo mundo alguma vez já tropeçou neste tipo de erro. Mas por que isto acontece? Por que às vezes queremos mostrar o nosso ponto, mas parece que a outra pessoa não está nem ouvindo nossos argumentos. O mais impressionante é perceber que nós fazemos exatamente a mesma coisa. Quantas vezes achamos que estamos ouvindo a outra pessoa mas, de repente, descobrimos que nossa cabeça estava em outro lugar e não prestamos atenção em nenhuma palavra do que o outro falou? A grande pergunta que surge é: por que é tão difícil escutar os outros?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que o ser humano tem uma tendência natural de bloquear qualquer tipo de informação que contradiz a sua própria forma de ver as coisas. Isto porque, de maneira até inconsciente, nunca queremos assumir que estamos errados, pois os erros são um ataque direto à nossa autoestima. Portanto, acabamos bloqueando qualquer tipo de informação que vá contra o que acreditamos ser o correto. Mesmo quando estamos diante das provas mais convincentes, preferimos bloquear nossos ouvidos e não escutar.

Isto é algo muito ruim para nossa vida em geral, mas há uma área em particular que é profundamente afetada por este tipo de "bloqueio": o nosso estudo de Torá. E isto pode acontecer não apenas com alunos iniciantes, mas até mesmo com grandes estudantes de Torá. De acordo com o Rav Elyahu Lopian zt"l (Polônia, 1876 - Israel, 1970), mesmo pessoas que estudam com constância e se esforçam muito no estudo da Torá podem acabar se tornando incapazes de escutar outras opiniões e de se conectar com o que dizem outras pessoas. Eles ficam completamente bloqueados, absorvidos em seus próprios pensamentos e opiniões. Pessoas com este tipo de atitude não apenas serão severamente punidas por seu comportamento inadequado, mas também nunca terão sucesso em seu aprendizado de Torá. A pessoa naturalmente é tendenciosa a ser favorável às suas próprias opiniões. Portanto, caso ela não consiga escutar o que os outros dizem, nunca conseguirá esclarecer as coisas de forma precisa.

O contrário também é válido. O Rav Chaim Ozer Grodzinsky zt"l (Bielorússia, 1863 - Lituânia, 1940) foi um dos maiores sábios de Torá de sua geração. Todos conhecem a sua grandeza no domínio da Torá, sua incrível genialidade e sua habilidade de pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. Porém, poucos sabem como ele chegou a este nível tão elevado. Contam que desde muito jovem o Rav Chaim Ozer podia sempre ser encontrado entre os grandes sábios de Torá da geração. Porém, em uma discussão, o Rav Chaim Ozer nunca dizia para eles "aceitem minha opinião". Ao contrário, ele se transformou em um recipiente que reunia e acumulava todas as opiniões e explicações que ele escutava dos sábios de Torá. Ele absorveu todo o conhecimento que escutou e transformou-o em parte de sua própria essência. O segredo da grandeza do Rav Chaim Ozer foi a disposição de aprender com absolutamente tudo o que ele escutava.

É por isso que a Parashá que fala sobre a entrega da Torá no Monte Sinai começa com as seguintes palavras: "Vaishmá Itró" (E escutou Itró). Itró se reuniu ao povo judeu após ter escutado sobre o incrível milagre da abertura do mar e sobre a vitória do povo judeu contra Amalek. Mas apenas Itró escutou? O mundo inteiro havia escutado, mas Itró foi o único que internalizou a mensagem. Os nossos sábios explicam no Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas) que existem 48 ferramentas para verdadeiramente adquirir os conhecimentos da Torá. A segunda ferramenta é "Shmiat Haozen", que literalmente significa "escutar com os ouvidos". Toda vez que a Torá utiliza a palavra "Shemá", como em "Shemá Israel", isto implica um nível mais profundo de escuta, que envolve focar, prestar atenção, entender e colocar em ação. Escutar de verdade é deixar a mensagem penetrar em nossos pensamentos e nos influenciar na prática. O mundo inteiro escutou sobre os milagres que ocorreram ao povo judeu, mas somente Itró internalizou e tomou uma atitude.

Porém, há um nível ainda maior do que saber escutar as opiniões de pessoas mais elevadas do que nós: saber escutar as opiniões daqueles que estão em um nível mais baixo do que nós. Normalmente, quando escutamos uma pessoa mais baixa expressando sua opinião, nós "desligamos" os nossos ouvidos. Ao invés de escutar, nossa cabeça está focada em procurar argumentos para derrubar o que o outro está falando. Além de ser uma tremenda demonstração de falta de educação, esta atitude dificulta nossa possibilidade de crescimento em sabedoria.

Assim aprendemos daqueles que atingiram a grandeza: "Quem é o sábio? Aquele que aprende com todos" (Pirkei Avót 4:1). Mas o que significa aprender com todos? O que pessoas com menos sabedoria podem acrescentar em nossas vidas? Esta pergunta foi feita certa vez a um grande rabino, que respondeu contando algo muito interessante que havia acontecido em sua vida. Ele era um rabino muito respeitado, grande conhecedor da Torá. Certa vez ele foi convidado a dar aulas de Mishná Brurá, um livro de Halachót (leis) extremamente profundo escrito pelo Chafetz Chaim, a um grupo de Baalei Teshuvá (pessoas afastadas do judaísmo que decidiram se reaproximar da Torá). Apesar de serem pessoas ainda com pouco conhecimento de Torá, eles abordavam as Halachót através de ângulos muito diferentes do rabino e traziam questionamentos que ele nunca havia parado para pensar. Após um ano de aulas, o rabino chegou a uma incrível conclusão: por causa daquelas aulas, ele havia repensado seriamente sobre muitos fundamentos que ele já havia aceitado em sua vida, e havia chegado a um nível muito mais profundo e abrangente no entendimento das Halachót da Mishná Brurá. Ao saber escutar mesmo das pessoas com menos conhecimento, ele havia elevado de maneira significativa seu conhecimento de Torá.

É por isso que a Torá também traz como introdução à entrega da Torá o conselho de Itró a Moshé Rabeinu. Moshé foi o maior profeta da história da humanidade, havia recebido pessoalmente de D'us toda a Torá. Apesar de Itró ser uma pessoa sábia, que havia dedicado sua vida a buscar conhecimento, ele não chegava aos pés da grandeza de Moshé. Escutar Itró foi uma monumental demonstração da grandeza espiritual de Moshé. Foi a maior demonstração de que "sábio é aquele que aprende com todas as pessoas".

A Parashá nos ensina que a única maneira de se tornar grande em Torá é sendo humilde e estando com os ouvidos abertos a todos. Por educação e por sabedoria, precisamos aprender a escutar. Precisamos saber deixar o outro falar a frase até o fim e não interrompê-lo no meio já com a nossa resposta. Há muitas pessoas que fazem questão de repetir o argumento do seu companheiro antes de dar a sua opinião, para ter certeza que realmente entendeu o que o outro quis dizer. D'us não vai cobrar de nós por não estarmos sempre com a razão, mas certamente Ele nos cobrará se não soubermos escutar todas as pessoas. É sabendo escutar que se criam gigantes espirituais.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 18:1-20:26, Is. 6:1-7:6; 9:6-7

sábado, 11 de fevereiro de 2017

RESPEITANDO O PRÓXIMO - PARASHÁ BESHALACH 5777

"Depois de alguns meses se conhecendo, Joel e Miriam ficaram noivos. Eles não cabiam em si de contentamento, pois sentiam que finalmente haviam encontrado suas metades. Como ainda estavam se conhecendo, combinaram de fazer um passeio em um parque no alto da cidade, um lugar com uma vista maravilhosa. Após passearem e conversarem muito, ao perceberem que estava anoitecendo, decidiram voltar. Foi então que Miriam comentou com Joel que a lua havia sumido. Muito romântico, Joel respondeu:

- A lua deve ter ficado envergonhada diante da sua beleza e por isso se escondeu.

Miriam se sentiu lisonjeada com a resposta tão galanteadora do seu noivo. Que homem educado e delicado. Havia ganhado um prêmio de loteria ao ter conhecido alguém assim tão especial. Alguns meses depois eles se casaram e, com o tempo, começaram a se conhecer cada vez mais e a ganhar intimidade. Após alguns anos de casamento, Miriam quis resgatar um pouquinho do romantismo da época de noivado. Ela convidou Joel para passear naquele mesmo parque. No final do passeio, quando já estava anoitecendo, novamente Miriam virou-se para Joel e comentou que a lua havia desaparecido. Ele então virou-se para ela e disse:

- Sua tonta, você não percebeu que hoje está nublado???"

Apesar de ser uma piada, muitas vezes a convivência com as pessoas faz com que deixemos de tratá-las com o devido respeito. Temos que nos cuidar muito, principalmente com as pessoas mais próximas, para nunca ofender ou destratar ninguém, em especial as pessoas mais queridas. 
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Na Parashá desta semana, Beshalach (literalmente "Quando enviou"), finalmente o povo judeu saiu em liberdade, acabando com 210 anos de uma brutal escravidão. Mas a alegria do povo judeu durou pouco, pois logo o Faraó se arrependeu de ter libertado seus escravos e saiu em sua perseguição. Os judeus se viram presos no meio do deserto, com o Mar Vermelho diante deles e os egípcios fortemente armados se aproximando ameaçadoramente. D'us então fez o grande milagre da abertura do mar, para que os judeus pudessem passar com segurança em terra firme, e depois fechou-o sobre os egípcios, matando-os e deixando seus corpos expostos na praia, para que os judeus pudessem se sentir livres de verdade ao ver seus opressores mortos.

Quando os judeus viram o grande milagre e salvação que D'us havia feito, se sentiram tão felizes que de seus corações saiu um cântico de agradecimento, o "Shirat Haiam" (Cântico do Mar). A abertura do mar foi um incrível momento de revelação e proximidade de D'us. Dentro deste Cântico estão as seguintes palavras de louvor: "Este é o meu D'us e eu O exaltarei" (Shemot 15:2). A explicação mais simples é que as pessoas puderam ter uma visão mais clara de D'us durante aquele milagre e puderam reconhecer toda a Sua bondade.

O Talmud (Shabat 133b) aprende outro ensinamento deste versículo. A palavra "Anvehu", que significa "Eu O exaltarei", vem da mesma raiz da palavra "Noi", que significa "Beleza". O Talmud nos ensina que este versículo é uma exigência de nos esforçarmos para cumprir as Mitzvót de D'us da maneira mais agradável esteticamente. Por exemplo, quando cumprimos a Mitzvá de "Arbaat HaMinim" (4 espécies), devemos procurar um Lulav de aparência bonita. Também quando construímos uma Sucá e adquirimos um Talit, devemos nos esforçar para que eles sejam visualmente bonitos. De acordo com o Rabeinu Bechaya zt"l (Espanha, 1255 - 1340), este embelezamento das Mitzvót é uma maneira através da qual nós podemos demonstrar o nosso amor por D'us.

Porém, esta explicação parece ser contraditória com um conceito ensinado pelo Rav Moshe Chaim Luzzato zt"l (Itália, 1707 - Israel, 1746), mais conhecido como Ramchal, em seu livro "Messilat Yesharim" (Caminho dos Justos). Ele divide o Serviço Divino em duas categorias: "Ahavat Hashem" (Amor a D'us) e "Irat Hashem" (Temor a D'us). Dentro do amor a D'us ele incluiu a alegria no cumprimento das Mitzvót. Sob a categoria de temor a D'us ele incluiu a submissão perante D'us e honrar as Mitzvót. Ao explicar o conceito de honrar as Mitzvót, o Ramchal traz justamente o mesmo ensinamento do Talmud que nos incentiva a embelezarmos as Mitzvót. Portanto, de acordo com o Ramchal, o embelezamento das Mitzvót estaria incluído dentro da categoria de "temor a D'us". Porém, não seria muito mais lógico enquadrar o embelezamento das Mitzvót como uma demonstração de amor a D'us, como fez o Rabeinu Bechaya? Como entender esta opinião do Ramchal?

Além disso, por que a primeira reação do povo judeu após a incrível salvação através da milagrosa abertura do mar foi o compromisso de embelezar as Mitzvót? Não seria mais apropriado em primeiro lugar eles se comprometerem a simplesmente cumprir as Mitzvót? Qual a conexão entre embelezar as Mitzvót e a incrível revelação de D'us que ocorreu na abertura do mar?

Finalmente, o Talmud (Shabat 133b) aprende outro ensinamento da palavra "Anvehu", que pode ser dividida em duas palavras: "Ani" "Vehu", que significa "Eu e Ele". Isto nos ensina que, para nos assemelharmos a D'us, devemos imitar Seus caminhos. Por exemplo, da mesma forma que Ele é misericordioso, também devemos ser misericordiosos. Mas por que aprendemos o conceito de como devemos nos relacionar com D'us da mesma palavra que aprendemos o conceito de embelezar as Mitzvót? Qual é a conexão entre os dois conceitos?

Explica o Rav Yohanan Zweig que no começo de qualquer relacionamento interpessoal há uma certa distância natural entre as duas partes. Esta distância faz com que cada uma das partes respeite a outra e esteja disposta a se relacionar de acordo com os termos da outra parte. Porém, com o tempo e a convivência, as pessoas começam a ganhar confiança e a distância natural se dissipa. Neste momento, normalmente o respeito mútuo também vai diminuindo e cada uma das partes começa a exigir que o outro se ajuste ao seu comportamento. É este "choque de vontades" que acaba alimentando o sentimento de desprezo após algum tempo de convivência.   

Os nossos relacionamentos interpessoais são um modelo do nosso relacionamento com D'us. Portanto, da mesma forma que isto ocorre entre as pessoas, esta perda de respeito também pode ocorrer no nosso relacionamento com D'us. De acordo com o Talmud (Sotá 30b), o relacionamento do povo judeu com D'us durante a abertura do mar se tornou algo tão próximo, tão tangível, que até mesmo os bebês foram capazes de perceber a presença de D'us. A percepção de D'us transcendeu, de algo apenas intelectual para algo muito mais tangível e concreto. Automaticamente a distância entre o povo judeu e D'us diminuiu. Nestas circunstâncias, esta proximidade poderia ter causado com que as sementes do desprezo tivessem sido espalhadas. O povo judeu entendeu que a única solução para este problema era imediatamente receber sobre si o compromisso de embelezar as Mitzvót.

Mas como isto resolveria o problema da falta de respeito por causa da maior proximidade? Quando vemos algo muito bonito, nosso instinto faz com que consideremos como sendo algo inacessível. A beleza eleva um objeto e cria naturalmente uma distância. Nosso objetivo na vida é construir com D'us um relacionamento de amor. Ao embelezar as Mitzvót, nós inserimos respeito no relacionamento, e é o respeito que preserva o amor. De acordo com o Ramchal, como o propósito do embelezamento das Mitzvót é inserir respeito no relacionamento entre nós e D'us, então ele considera como sendo parte do "temor a D'us". Ao embelezá-las, nós inserimos nas Mitzvót uma dignidade que cria reverência e admiração aos olhos de quem as realiza.

A fundação do amor verdadeiro em qualquer relacionamento é o respeito. O respeito garante que não haverá nenhum tipo de desprezo. Desenvolver nossa religiosidade através de emular os atos de D'us nos permite desenvolver o respeito que preservará o nosso relacionamento. É por isso que o mesmo versículo que ensina sobre o nosso relacionamento com D'us é também uma fonte da exigência de embelezar as Mitzvót, pois este ato de embelezar as Mitzvót cria o respeito necessário para manter um relacionamento saudável.

Esta Parashá traz um ensinamento extremamente importante para nossas vidas. É muito comum sermos desrespeitosos justamente com as pessoas mais próximas, pois é justamente a proximidade que acaba causando com que nos acostumemos e deixemos de respeitar os outros da maneira correta. Isto ocorre dentro das nossas casas e nos ambientes de trabalho. A Parashá nos ensina que esta é uma característica natural do ser humano e, justamente por isso, se não tomarmos nenhuma atitude, acabaremos desrespeitando e ofendendo pessoas queridas. Da mesma forma que o povo judeu procurou uma forma de manter o respeito com D'us apesar da proximidade, precisamos pensar em maneiras de como sempre manter o respeito com as pessoas que são mais próximas, pois são elas que justamente mais merecem o nosso respeito e consideração.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 13:17-17:16, Jz. 4:4-5:31

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

SANTIFICANDO O NOME DE D'US - PARASHÁ BÔ 5777

"Josh Glick, um judeu religioso, foi logo cedo alugar um carro em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Ele precisava urgentemente do carro para resolver assuntos importantes do trabalho. Quando chegou a sua vez na fila, abriu a carteira para pegar seu cartão de crédito e sua carteira de identidade. Encontrou rapidamente o cartão de crédito mas, para seu desespero, não encontrava a carteira de identidade. Revirou todos os bolsos, procurou se tinha caído no chão da loja, mas simplesmente não encontrava. Sabia que nunca alugariam para ele um carro sem o documento, mas estava tão desesperado que resolveu tentar. Se aproximou do homem no balcão e explicou a situação. O homem então lhe fez um pedido estranho:

- Senhor, me desculpe, mas você pode arregaçar a manga esquerda do seu terno para que possa ver seu braço?

Josh achou que tinha entendido errado. O que aquele pedido estranho tinha a ver com o aluguel do carro e com a falta da carteira de identidade? Seu olhar de espanto foi percebido pelo funcionário da loja, que explicou:

- Eu só quero ver se você tem aquelas marcas no braço (que ficam por algum tempo depois que a pessoa coloca o Tefilin). Se você tiver aquelas marcas, eu sei que posso confiar em você e posso alugar o carro mesmo sem a sua carteira de identidade.

Josh, muito feliz, mostrou suas marcas de Tefilin no braço esquerdo e saiu de lá com o carro alugado. Naquele dia ele percebeu a importância de fazer "Kidush Hashem" (santificar o Nome de D'us), se comportando sempre de maneira honesta e digna, para que o povo judeu se torne, diante dos outros povos, um modelo de honestidade e retidão" (História Real, retirada do livro "Impact Stories!", de autoria do Rav Dovid Kaplan). 
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Na Parashá desta semana, Bô (literalmente "Venha"), D'us castigou os egípcios com as últimas três pragas, quebrando de vez a resistência do Faraó. Não suportando mais os sofrimentos, ele finalmente libertou os judeus. O auge do sofrimento dos egípcios foi a última praga, a Morte dos Primogênitos, quando todos os primogênitos egípcios morreram de uma só vez, enquanto os primogênitos judeus foram poupados. Em cada praga, D'us ia demonstrando um pouco mais Seu controle sobre as forças da natureza. Nesta última praga, D'us demonstrou ser o único dono da vida e da morte. Mesmo para aqueles que ainda insistiam em procurar explicações naturais para as pragas e para os milagres abertos que aconteciam no Egito, a morte dos primogênitos foi uma revelação inegável do poder de D'us. Tanto para os egípcios como para os judeus, esta última praga transformou a percepção humana em relação à presença de D'us, de algo abstrato e subjetivo em algo muito mais visível e palpável.

Esta revelação do poder de D'us acabou se transformando em um grande "Kidush Hashem", quando o Nome de D'us é santificado no mundo. E por causa deste Kidush Hashem criado, os primogênitos do povo judeu foram elevados e ganharam um status de santidade eterna. Deste momento em diante, os primogênitos se dedicariam aos Serviços Divinos. Por exemplo, eles seriam os responsáveis por todos os trabalhos feitos nos Templos Sagrados. Infelizmente, após o desastroso tropeço do povo judeu com o bezerro de ouro, no qual os primogênitos também participaram, eles perderam este grande privilégio, que foi passado para a Tribo de Levi, os únicos que não haviam se envolvido na terrível transgressão.

Porém, esta santidade recebida pelos primogênitos era tão forte que, mesmo com o bezerro de ouro, ela não foi anulada. Foi necessária uma "cerimônia" para que os primogênitos fossem "liberados" deste privilégio e ele fosse passado à Tribo de Levi. Até hoje, quando um primogênito completa 30 dias de vida, ele passa por uma cerimônia chamada "Pidion Haben", justamente para "resgatá-lo" deste nível diferenciado de santidade.

Mas este conceito desperta uma grande questão: afinal, o que os primogênitos fizeram para merecer este status espiritual tão especial? D'us mandou uma praga que matou os primogênitos egípcios, e tudo o que os primogênitos judeus fizeram foi não morrer junto com eles! Se foi uma participação tão passiva dos primogênitos judeus, então por que eles tiveram o mérito de receber tanta santidade?

Explica o Rav Yssocher Frand que este tipo de questionamento é decorrência da nossa falta de entendimento da enorme importância de fazermos Kidush Hashem. Um ato de Kidush Hashem é algo tão grande que, mesmo quando é feito de forma passiva, como ocorreu no caso dos primogênitos judeus, pelo fato de resultar em uma santificação do Nome de D'us no mundo, isto automaticamente causa um aumento da santidade daquele que participou dele. Isto quer dizer que, se os primogênitos foram recompensados de uma maneira tão grandiosa mesmo sendo meros coadjuvantes na santificação do Nome de D'us, certamente muito maior será os ganhos daqueles que conseguirem criar uma santificação do Nome de D'us de maneira ativa.

Mas como podemos santificar o Nome de D'us? Quando pensamos no conceito de "Kidush Hashem", sempre nos vêm à cabeça a ideia de pessoas fazendo grandes atos, às vezes entregando até mesmo suas próprias vidas para engrandecer o Nome de D'us. Foi o que ocorreu durante toda a história do povo judeu, como nas épocas das conquistas do Império Romano e da Inquisição, quando muitos judeus preferiram entregar suas vidas e morrer em "Kidush Hashem" do que se converter para outras religiões.

Porém, a verdade é que não é necessário morrer para fazer Kidush Hashem. Na realidade, não é necessário nem mesmo grandes atos para isto. Pequenos atos de retidão e justiça podem ter um impacto incrível no mundo. E quanto mais o mundo se afunda na escuridão da corrupção, mentira e egoísmo, maior o brilho dos nossos bons atos. As pessoas estão tão acostumadas com a desonestidade que um pequeno ato de honestidade se transforma em manchete principal da capa do jornal.

Um exemplo interessante ocorreu com o Rav Simcha Barnett. Certa vez ele estava em uma loja e, após pagar por um produto adquirido, ele recebeu de volta o seu troco. Por engano, ele contou o troco e pensou que a mulher do caixa havia se equivocado e devolvido troco a mais. Ele voltou ao caixa, comunicou à mulher o equívoco dela e devolveu parte do dinheiro. A mulher checou novamente às contas e mostrou ao rabino que o troco estava correto. O que poderia parecer um pequeno ato, quase insignificante, tomou outras proporções. A mulher, deslumbrada pela honestidade do rabino, agradeceu-o pelo incrível ato de cidadania. Ainda não satisfeita, ela agradeceu mais uma vez ao rabino pela grande gentileza. Então o rabino disse: "Senhora, eu não estou sendo gentil. Eu estou fazendo a coisa certa, apenas a coisa certa". O rabino conta que foi visível o impacto que estas palavras tiveram sobre aquela mulher. Após alguns instantes de reflexão, ela disse: "Realmente, o senhor tem razão. Isto não se trata de gentileza. Isto é apenas fazer o que é certo".

Por um lado, este tipo de acontecimento nos causa certo desânimo. Vivemos em uma sociedade com valores morais tão distorcidos que um simples ato de retidão é visto como uma incrível gentileza, algo que é "mais do que nossa obrigação". Por que devolver dinheiro que recebemos a mais seria um ato de gentileza? É um ato de justiça, é apenas ser correto, fazer o que precisa ser feito. Não devolver o troco a mais é roubo, é uma enganação! Então por que o mundo atualmente se perdeu tanto moralmente a ponto de não saber mais identificar a diferença entre fazer o que é correto e fazer o que é mais do que o necessário?

Por outro lado, este exemplo nos desperta para o incrível impacto positivo que um simples e pequeno ato de retidão pode causar nas pessoas. Quando uma pessoa vê seu companheiro fazendo atos justos e corretos, ela vê de forma um pouco mais palpável a bondade e a perfeição de D'us, expressados através do bom ato desta pessoa. Isto é chamado Kidush Hashem, a santificação do Nome de D'us.

A verdade é que esta é uma das principais missões do povo judeu neste mundo, o que é confirmado pelas palavras do nosso profeta: "Eu sou D'us. Eu chamei vocês com justiça e Eu fortalecerei sua mão; e Eu formei você, e Eu fiz de você um povo do pacto, uma luz para as nações" (Yeshayahu 42:6). Ser uma "luz para as nações" significa se transformar em um modelo através do qual todas as nações do mundo verão a justiça, a retidão e a moralidade, e serão atraídas por elas e por D'us, quem as ordenou.

Os primogênitos, com um ato passivo, receberam o mérito de uma santidade mais elevada e eterna. Pequenos atos de retidão e honestidade, feitos de forma ativa e consciente, certamente trarão muito mais mérito a cada um de nós. Para santificar o Nome de D'us não é necessário mais do que pequenos atos de bondade e de sensibilidade, utilizando com todas as pessoas palavras e gestos gentis e solidários. Tratar bem os funcionários, ser educado com o motorista do ônibus, cumprimentar o porteiro ao sair e entrar no prédio e ser solidário com os colegas de trabalho são pequenos atos que podem transformar o mundo. Isto não é fazer mais do que a nossa obrigação. Isto é cumprir a missão que viemos fazer no mundo.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

EDUCANDO COM ATITUDES - PARASHÁ VAERÁ 5777

"Naquela noite, Ricardo voltava para casa com o mesmo mau humor que o caracterizava há alguns meses. Eram tantos problemas e dificuldades que ele havia se transformado em uma pessoa amarga, triste e mal humorada. Já era tarde da noite quando ele finalmente entrou em casa. Estava tudo escuro, apenas a luz acesa da cozinha iluminava fracamente a sala. Ricardo então ouviu a voz do seu filho de quatro anos de idade vinda da cozinha:

- Mãe, por que o papai está sempre tão triste e bravo?

- Não sei, meu amor - respondeu a mãe, com paciência - Ele deve estar preocupado com os negócios. Sustentar uma família não é fácil.

- Mas o papai também fica assim bravo e triste no trabalho?

- Nas lutas diárias, seu pai precisa sempre demonstrar força e controle. Ele deve parecer alegre para agradar o chefe e os clientes. É importante para o trabalho dele. Mas quando ele volta para casa, traz muitas preocupações. Fora de casa ele precisa se cuidar para não ser grosseiro com ninguém, demonstrando estar sempre alegre e otimista. Mas o mesmo não acontece aqui em casa. Aqui, filho, ele não precisa esconder de ninguém o cansaço e as preocupações.

A criança pareceu escutar atenta. Depois, após ter refletido por algum tempo, suspirou e desabafou:

- Que pena, mãe. Não poderia ser o contrário? A família não deveria ser mais importante que os negócios? Eu gostaria tanto de ter um pai feliz em casa, pelo menos de vez em quando. Gostaria que ele chegasse em casa e me pegasse no colo, brincasse comigo, me desse um sorriso...

Naquele momento, Ricardo não aguentou as emoções. As lágrimas começaram a cair, inicialmente aos poucos, depois se transformaram em um choro compulsivo. Ele percebeu como estava maltratando sua própria família. Emocionado, ele entrou na cozinha, abriu os braços, correu para o filho, abraçou-o com força e convidou:

- Filhão, cheguei. Que saudades! Vamos brincar?"

Quando estamos em público, no trabalho ou em eventos sociais, vestimos máscaras e nos transformamos em outras pessoas. Somente quando estamos em casa é que somos nós mesmos de verdade. E precisamos prestar atenção às mensagens que transmitimos às nossas crianças quando estamos em casa, pois elas aprendem com nossas palavras, mas acima de tudo elas aprendem com as nossas atitudes. 
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Na Parashá desta semana, Vaerá (literalmente "Apareci"), após a recusa do Faraó em deixar o povo judeu sair do Egito, D'us começou a mandar terríveis pragas milagrosas, que causaram muito sofrimento aos egípcios, medida por medida por tudo o que eles haviam causado de mal ao povo judeu em mais de 200 anos de escravidão. As pragas foram minando, pouco a pouco, a resistência do Faraó e dos egípcios. Quando finalmente o povo judeu saiu em liberdade, o Egito estava completamente devastado. Mas antes de iniciar a descrição das incríveis pragas milagrosas que aconteceram no Egito, realizadas através de Moshé e seu irmão Aharon, a Torá traz uma breve genealogia do povo judeu, identificando as famílias que descenderam de cada um dos filhos de Yaacov. Por que a Torá resolveu trazer esta genealogia justamente neste momento, antes de começar a descrever as milagrosas pragas do Egito?

Explica o Rav Shimshon Raphael Hirsch zt"l (Alemanha, 1808 - 1888) que a maioria das religiões atribui aos seus líderes e fundadores descendências divinas. A Torá, ao contrário, quer ressaltar que nossos maiores líderes eram pessoas comuns, nascidas de pai e mãe, sem poderes sobrenaturais. Mesmo gigantes espirituais como Moshé e Aharon eram pessoas de carne e osso, seres humanos normais. É por isso que, justamente antes de começar o assunto das milagrosas pragas realizadas por Moshé e Aharon, a Torá mostra a genealogia deles, para deixar claro que Moshé e Aharon eram apenas intermediários de D'us, pessoas comuns, sem descendência Divina e sem poderes milagrosos. O único que verdadeiramente faz milagres é D'us.

Porém, se prestarmos atenção, perceberemos um detalhe interessante no versículo que descreve a genealogia de Aharon: "E Aharon tomou como esposa Elisheva, filha de Aminadav, irmã de Nachshon" (Shemot 6:23). Este versículo foge da normalidade, pois ao mencionar algumas personalidades, em geral a Torá identifica quem é o pai delas. Em relação a Elisheva, além do pai, a Torá escreveu também quem era seu irmão. Mas se ela era filha de Aminadav, já saberíamos automaticamente que ela é irmã de Nachshon, pois ele é identificado na Torá como "Nachshon ben Aminadav". Então por que a Torá fugiu da normalidade e mencionou também o irmão de Elisheva?

Deste pequeno detalhe do versículo, algo aparentemente insignificante, o Talmud (Baba Batra 110a) aprende algo muito importante: antes de se casar, um homem deve checar bem as características de sua futura esposa. E como isto deve ser feito? Observado as características do irmão dela. É por isso que o versículo trouxe, além do nome do pai de Batsheva, também o nome do irmão dela.

Mas este ensinamento do Talmud não parece ser muito lógico. Os filhos herdam muitas características de seus pais. Para conhecer a natureza de uma futura esposa, seria muito mais razoável investigar diretamente os pais dela. O próprio Talmud, em diversas ocasiões, ressalta a importância de se esforçar para se casar com uma mulher cujo pai seja uma pessoa com boas qualidades. Então, se são tão importantes as qualidades dos pais, por que o versículo que fala do casamento de Aharon com Batsheva enfatiza que o homem deve investigar o irmão de sua futura esposa para conhecer a verdadeira natureza dela, ao invés de incentivar a investigar diretamente os pais dela?

Explica o Rav Yohanan Zweig que muitas vezes vivemos uma vida de aparências. As pessoas não se comportam na rua da mesma maneira que se comportam dentro de casa. Quando sabemos que as pessoas estão olhando, nos comportamos de maneira exemplar, para que as pessoas nos valorizem. Nossa real personalidade, que é revelada apenas quando estamos dentro de casa, quando ninguém mais está olhando, poucas pessoas conhecem de verdade.

É isto que o versículo está nos ensinando ao incentivar o homem a investigar as características do irmão de sua futura esposa. Um adulto é capaz de projetar uma imagem que não necessariamente reflete sua verdadeira essência. As fachadas que as pessoas criam tornam praticamente impossível ter acesso à sua verdadeira natureza. Por outro lado, diferente dos adultos, as crianças não têm tanta necessidade de projetar uma imagem que dê a elas um bom status social. Portanto, o comportamento de uma criança normalmente é genuíno e reflete sua verdadeira natureza.

Porém, uma criança ainda está em fase de construção dos seus traços de caráter. Quando vemos o comportamento de uma criança, estamos enxergando não apenas suas características particulares, mas principalmente as características de seus pais, que ela intuitivamente imita por serem seus principais modelos de comportamento. Durante os anos de formação do caráter das crianças, são os pais que vão moldando os padrões de comportamento de seus filhos, através de ensinamentos e educação, mas principalmente através de exemplos.

Quando um homem investiga o irmão da sua futura esposa, desta maneira ele pode verdadeiramente investigar os pais dela, pois o comportamento de uma criança é "imune" à fachada que seus pais podem ter criado para ocultar algum mau comportamento. Portanto, o comportamento de uma criança reflete cada pequeno detalhe do comportamento dos seus pais. E é muito provável que, caso os pais tenham maus traços de caráter, estes também tenham sido absorvidos pela sua futura esposa.

Porém, se este é o motivo, então por que não procurar diretamente na própria futura esposa os traços de caráter dela? Pois as mulheres são naturalmente mais reservadas e recatadas, impedindo a detecção imediata dos traços de caráter inseridas nelas pelos seus pais. Já os homens normalmente costumam se expor mais e serem bem menos reservados e recatados. Por isso, permitem uma avaliação muita mais acurada e abrangente da natureza dos pais.

É responsabilidade dos pais educar seus filhos. A educação certamente deve vir dos ensinamentos de Torá que eles recebem na escola e das intervenções constantes dos pais para ajustar seus traços de caráter, ressaltando as boas características e canalizando as más características. Os pais precisam estar atentos a qualquer desvio dos filhos e devem aprender a criticá-los da maneira correta e no momento correto. Além disso, os pais também precisam saber elogiar e incentivar muito seus filhos, para que eles possam crescer e se tornar adultos saudáveis.

Porém, este pequeno detalhe do versículo da nossa Parashá carrega um ensinamento extremamente importante: a melhor forma de educar os nossos filhos, e certamente a mais eficiente, é através de exemplos. Se as crianças vivem cercadas de críticas, aprendem a condenar os outros. Se vivem em um ambiente com hostilidades, aprendem a brigar e a serem intransigentes. Se vivem com zombarias, aprendem a ser tímidas e retraídas. Mas se vivem com tolerância, aprendem a ser pacientes e compreensivas. Se vivem com incentivos e elogios, aprendem a ter autoconfiança e a apreciar o que os outros fazem de bom. Se vivem com justiça, aprendem a ser pessoas honestas. A forma como tratamos as crianças e, acima de tudo, a forma como nos comportamos diante das crianças, é a melhor forma de ensinamento. Se quisermos crianças melhores, antes de tudo precisamos nos transformar em seres humanos melhores. Somente assim teremos realmente um mundo melhor.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

ULTRAPASSANDO SEU POTENCIAL - PARASHÁ VAYECHI 5777

"Um fazendeiro possuía terras ao longo do litoral. Ele constantemente anunciava estar precisando de empregados, mas a maioria das pessoas estava pouco disposta a trabalhar em sua fazenda, pois temia as terríveis tempestades que varriam aquela região, fazendo estragos nas construções e plantações. Procurando por novos empregados, o fazendeiro recebeu muitas recusas. Finalmente, um homem baixo e magro, de meia-idade, se mostrou interessado.

- Você é um bom lavrador? - perguntou o fazendeiro, desconfiado.

- Bem, eu posso dormir enquanto os ventos sopram - respondeu o pequeno homem.

Embora confuso com a resposta, o fazendeiro, desesperado por ajuda, o empregou. O pequeno homem trabalhou bem, mantendo-se ocupado do alvorecer até o anoitecer. O fazendeiro estava muito satisfeito com o trabalho de seu novo funcionário. Então, certa noite, um vento ruidoso veio anunciando uma forte tempestade que se aproximava. O fazendeiro pulou da cama, agarrou um lampião e correu até o alojamento do empregado. Sacudiu o pequeno homem e gritou:

- Levante rápido! Uma tempestade está chegando! Amarre as coisas antes que tudo seja arrastado!

O pequeno homem virou-se na cama e disse tranquilamente:

- Não, senhor. Eu lhe falei que posso dormir enquanto os ventos sopram.

Dizendo isso, deitou-se para o outro lado e voltou a dormir. Enfurecido pela resposta descarada, o fazendeiro quis despedi-lo imediatamente, mas se apressou em sair para preparar tudo antes da tempestade. Trataria depois daquele empregado preguiçoso. Porém, para seu assombro, ele descobriu que todos os montes de feno já tinham sido cobertos com lonas firmemente presas ao solo. As vacas estavam bem protegidas no celeiro, os frangos estavam bem guardados nos viveiros, as portas estavam muito bem travadas e as janelas estavam bem fechadas e seguras. Tudo estava amarrado e bem preso, nada poderia ser arrastado pela tempestade. Somente então o fazendeiro entendeu o que seu empregado quis dizer sobre "dormir enquanto o vento soprava". Aquele não era apenas um bom trabalhador, era bem melhor do que o fazendeiro imaginava".

Existem trabalhadores que fazem seu trabalho de maneira correta e honesta, mas existem alguns poucos que fazem ainda mais do que é esperado deles. O mesmo vale na vida, pois muitos se esforçam para alcançar seu potencial espiritual, mas há aqueles que conseguem se superar e ultrapassar seus próprios limites. 
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Nesta semana lemos a Parashá Vayechi (literalmente "E viveu"), que conta sobre a morte do nosso último patriarca, Yaacov Avinu. Ele viveu seus últimos anos no Egito, após o reencontro com seu filho Yossef. Antes de falecer, Yaacov falou suas últimas palavras para cada um de seus filhos. Alguns receberam Brachót (Bênçãos), enquanto outros foram repreendidos por algum ato errado ou por algum traço de caráter negativo. Mas talvez a Brachá que mais chama a atenção é a que Yaacov deu a Efraim e Menashé, seus netos, filhos de Yossef. Assim Yaacov disse para eles: "Israel (o povo judeu) será abençoado através de vocês, dizendo: 'Que D'us possa fazer de você como Efraim e Menashé' " (Bereshit 48:20). Esta Brachá de Yaacov é utilizada na noite de Shabat e na véspera de Yom Kipur, quando os pais abençoam seus filhos com estas palavras.

Porém, esta Brachá de Yaacov desperta um enorme questionamento. Sobre personagens incríveis como Avraham, Ytzchak, Yaacov e Moshé, a Torá se alongou bastante, descrevendo os enormes testes que eles venceram na vida e os traços de caráter desenvolvidos por cada um deles. Já em relação a Efraim e Menashé, a Torá não conta absolutamente nada sobre suas vidas e sobre seus traços de caráter. Então, entre todas as personalidades da Torá e entre todos os personagens ilustres da história do povo judeu, por que justamente Efraim e Menashé foram os escolhidos para serem eternos modelos para os filhos do povo judeu? O que Yaacov percebeu de tão especial neles?

Explica o Rav Shmuel Hoiminer zt"l (Bielorússia, 1913 - Israel, 1977) que os filhos e netos de Yaacov estiveram sempre perto dele, recebendo uma forte influência espiritual de crescimento e temor a D'us. Quando Yaacov voltou para Israel, saindo da casa de Lavan, seus filhos e netos puderam também estar perto de Ytzchak, um incrível modelo de santidade. Por muitos anos eles puderam viver na Terra de Israel, uma terra sagrada, se dedicando ao estudo da Torá.

Mas não foi assim com Efraim e Menashé. Diferente dos outros filhos e netos de Yaacov, eles nasceram e cresceram no Egito, uma terra estranha e imersa em impureza espiritual. Eles estavam distantes da sagrada Terra de Israel e da influência positiva dos patriarcas. Além disso, como Yossef era o vice-rei do Egito, um homem extremamente poderoso, em sua casa entravam e saíam constantemente ministros, magos e pessoas importantes. Efraim e Menashé cresceram rodeados de riqueza, poder e luxúria.

O que se poderia esperar da educação de Efraim e Menashé? O normal seria eles terem se tornado crianças mimadas, acostumadas ao luxo e à ostentação. Rodeados pelas idolatrias e promiscuidades egípcias, dificilmente eles conseguiriam manter a retidão e o temor a D'us. Yaacov, quando escutou que seu filho Yossef havia passado 22 anos no Egito, achou que ele já havia morrido espiritualmente. Porém, quando Yaacov chegou ao Egito, ficou impressionado ao perceber que Efraim e Menashé não haviam sido afetados pela impureza egípcia e nem por todo o materialismo que os cercava. Eles não admiravam o grande império egípcio e não haviam aprendido nenhum dos seus costumes e condutas. Eles haviam sido educados no colo de Yossef, com um incrível temor a D'us, apesar de todas as dificuldades. Certamente não havia sido um caminho repleto de rosas. Sem dúvida eles passaram por muitos testes e se depararam com dificuldades enormes em seu caminho, mas conseguiram vencer e superar todos os obstáculos, se blindando contra qualquer influência negativa egípcia.

Foi exatamente por este motivo que Yaacov escolheu Efraim e Menashé como modelos de todas as crianças do povo judeu. Pelo seu poder de superação e pela capacidade de vencer as dificuldades sem se deixar influenciar pelos maus exemplos em volta. É uma Brachá importante para todo o povo judeu, em todas as épocas, mas principalmente quando estamos no exílio, cercados de ideias estranhas ao judaísmo e de más influências.

Porém, de acordo com o Rav Yaacov Wainberg zt"l (EUA, 1923 - 1999), há um entendimento mais profundo nesta Brachá de Yaacov. A esperança de todos os pais é conseguir ver seus filhos tendo sucesso na vida. E o que significa sucesso? É conseguir completar nosso potencial. Mas Efraim e Menashé fizeram mais do que isso. Eles ultrapassaram seu potencial, eles alcançaram mais do que Yossef esperava deles. As tribos de Israel foram formadas por cada um dos filhos de Yaacov. Porém, Efraim e Menashé, apesar de serem apenas netos de Yaacov, atingiram um status tão elevado quanto o dos filhos de Yaacov, a ponto de cada um deles ter se tornado uma tribo em Israel. Efraim e Menashé tinham seu lugar dentro do acampamento do povo judeu no deserto e receberam suas porções na Terra de Israel, além de várias outras implicações. Tudo isso foi uma consequência de Yaacov, com sua Brachá, ter elevado Efraim e Menashé ao mesmo nível das outras tribos. E foi justamente esta a Brachá que Yaacov quis dar para todo o povo judeu: que não apenas possamos cumprir o nosso objetivo na vida, mas que possamos ultrapassá-lo, como fizeram Efraim e Menashé.

Infelizmente vivemos muito longe desta realidade. Não apenas não ultrapassamos nossas expectativas espirituais, mas acabamos nem mesmo as alcançando. De acordo com o Zohar, uma das principais fontes místicas judaicas, a alma da pessoa, alguns instantes antes do seu falecimento, dá um grito que pode ser escutado de um extremo do mundo ao outro extremo. O que é este grito, que pode ser ouvido em todos os mundos espirituais? No momento em que a pessoa está pronta para sair deste mundo, D'us mostra para ela uma imagem do que ela deveria ter alcançado durante sua estadia temporária no mundo material. A alma fica desesperada ao perceber a enorme diferença que há entre o que ela deveria ter alcançado e o que ela realmente alcançou. Neste grito amargo, que ecoa em todo o universo, é como se a alma estivesse dizendo: "Pobre de mim, que não cheguei nem perto do meu potencial!".

Por isso, devemos nos inspirar em Efraim e Menashé. Em primeiro lugar, saber que nenhum sucesso espiritual vem sem esforço. E em segundo lugar, lembrar que devemos almejar em nossas vidas alcançar até mais do que o nosso potencial. Se nos esforçarmos muito neste mundo, como fizeram Efraim e Menashé, e não desistirmos diante das dificuldades, poderemos "dormir tranquilamente enquanto os ventos sopram".
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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sábado, 7 de janeiro de 2017

A SOBREVIVÊNCIA DO POVO JUDEU - PARASHÁ VAYIGASH 5777

"Após uma aula de Torá, um homem se aproximou do Rav Baruch Ber Leibowitz zt"l (Bielorrússia, 1862 - Lituânia,1939) e perguntou:

- Rabino, desculpe a franqueza, mas se alguém que apoia o estudo da Torá recebe a mesma recompensa do que aquele que estuda Torá, então qual é a diferença entre eles? Em outras palavras, por que devo me esforçar para estudar Torá, se posso doar muito dinheiro e sustentar diversas instituições de Torá?

O Rav Leibowitz abriu um enorme sorriso e respondeu:

- Sua pergunta é excelente. É verdade que os dois terão Olam Habá (Mundo Vindouro). A diferença, meu querido, é que aquele que estuda Torá também tem Olam Hazé (Mundo material)".

O que significa esta resposta do Rav Leibowitz? Algumas pessoas veem o estudo da Torá apenas como um meio para ganhar sua recompensa no Olam Habá. Mas aquele que já provou a doçura da Torá sabe que não há maior alegria neste mundo do que o estudo da Torá. 
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Através das gerações, a sobrevivência milagrosa do povo judeu é surpreendente. Diante de uma história de sofrimentos, tristezas e perseguições, o povo judeu enfrentou suas adversidades com resiliência e, mesmo sendo derrubado milhares de vezes, sempre conseguiu se reerguer. Muitos na história já questionaram: afinal, qual é o segredo da sobrevivência do povo judeu? Como o povo judeu venceu, através dos milênios, a assimilação, se mantendo um povo diferente e com tradições únicas? A resposta está em um detalhe interessante da Parashá desta semana, Vayigash (literalmente "se aproximou"). Na Parashá ocorre o desfecho de uma das histórias mais dramáticas da Torá. Yossef, depois de ter sido vendido e ter permanecido 22 anos longe de seu pai, finalmente se reencontrou e se revelou aos seus irmãos. Após uma série de acontecimentos que pareciam sem sentido para os irmãos de Yossef, como um governante insistentemente acusando-os de serem espiões, o dinheiro que sempre reaparecia nas sacolas de produtos comprados no Egito e a prisão de Shimon, tudo se esclareceu com as palavras "Eu sou Yossef" (Bereshit 45:3). Os irmãos, ao escutarem, ficaram em estado de choque e não puderam dizer nada.

Os comentaristas explicam que o silêncio dos irmãos de Yossef era por vergonha, por terem entendido que haviam julgado Yossef de maneira equivocada. Naquele momento eles perceberam que Yossef era um Tzadik (Justo) e que seus sonhos eram profecias que estavam se materializando. Yossef, ao perceber o grande choque que havia causado aos seus irmãos, tentou confortá-los, expressando seu perdão e deixando claro que não havia guardado nenhum rancor no coração. Ele também instruiu seus irmãos a trazerem Yaacov e suas famílias para morarem no Egito, para poderem ter sustento durante os anos de terrível seca e escassez. No final das instruções, Yossef acrescentou uma frase enigmática: "Não fiquem agitados no caminho" (Bereshit 45:24). De acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), Yossef estava aconselhando seus irmãos a não se envolverem durante o caminho em acaloradas discussões de Halachá (Lei judaica), para não acabarem se perdendo.

Porém, esta explicação de Rashi é difícil de ser entendida, pois faz com que o conselho de Yossef pareça algo sem sentido. Os irmãos de Yossef haviam acabado de passar pelo maior choque de suas vidas ao reencontrar seu irmão desaparecido. Será que durante o caminho de volta para casa os irmãos de Yossef não estariam refletindo sobre sua decisão incorreta de vender o próprio irmão? Então por que Yossef ficou preocupado que eles se concentrariam tanto no estudo da Torá e nas discussões de Halachá que acabariam se perdendo? Por que era tão óbvio para Yossef que seus irmãos naturalmente se dedicariam ao estudo da Torá em sua viagem?

Poderíamos pensar que Yossef se baseou na existência da Mitzvá de estudar Torá mesmo quando estamos no caminho, como repetimos diariamente no Shemá Israel: "E você deve dizê-las (as palavras de Torá) quando estiver sentado na sua casa ou quando estiver andando no caminho" (Devarim 6:7). Porém, isto se aplicaria também a momentos de stress e de profunda reflexão sobre um grave erro cometido? Certamente os irmãos de Yossef deviam estar em um momento de extremo sofrimento e stress, pois sabiam que teriam que encarar seu pai e revelar a ele que haviam mentido nos últimos 22 anos sobre o destino de Yossef. Quem, nestas condições, teria a presença de espírito necessária para se dedicar ao estudo de Torá?

Explica o Rav Yaacov Weinberg zt"l (EUA, 1923 - 1999) que no judaísmo, quanto mais nos aprofundamos em um questionamento e repetimos a pergunta em nossas cabeças, mais começamos a perceber que a pergunta já é parte da resposta. Isto também se aplica à nossa pergunta. Estamos acostumados a enxergar o cumprimento das Mitzvót, e em especial o estudo da Torá, como algo que traz frutos apenas para o "Olam Habá" (Mundo Vindouro). Às vezes chegamos a acreditar que viemos a este mundo para terríveis sacrifícios e dificuldades apenas para podermos futuramente aproveitar do fruto dos nossos esforços. Mas isto é um grande equívoco, pois o cumprimento das Mitzvót, e em particular o estudo da Torá, já nos trazem inúmeros benefícios no mundo material.

Quando as pessoas estão em momentos de stress, elas procuram formas de relaxar. Alguns saem para praticar esportes, outros preferem escutar uma música tranquila. Mas aqueles que já sentiram a doçura da Torá sabem que não há nada mais relaxante do que se envolver com o estudo da Torá, como afirmou David Hamelech: "Se não fosse Sua Torá o meu prazer, eu teria perecido em minha aflição" (Tehilim 119:92). David Hamelech passou por terríveis sofrimentos na vida. Foi perseguido por diversos inimigos, perdeu filhos tragicamente e sofreu tentativas de golpe. E qual era o único antídoto para se manter tranquilo? O seu estudo de Torá.

Portanto, a pergunta não é "como os irmãos de Yossef poderiam estudar Torá em um momento tão conturbado?", e sim "como os irmãos de Yossef poderiam não estudar Torá em um momento tão conturbado?". Sob uma pressão tremenda, seria natural os irmãos de Yossef buscarem a tranquilidade mental através do estudo da Torá. Isto é ainda mais verdade em uma situação como a que os irmãos de Yossef se encontravam. A Torá é o nosso "Manual de Instruções" da vida e, portanto, era natural que eles quisessem se envolver com um estudo mais sério da Torá, em busca de orientação Divina sobre como lidar com os problemas do momento.

Este é o segredo da imortalidade do povo judeu: o estudo da Torá. A Torá uniu os judeus através da história e nos salvou da assimilação. O povo judeu somente pode ser uma nação única por causa da Torá. Não somos uma nação baseada em uma terra, em uma língua ou em uma cultura. Se não fosse pela Torá, este povo espalhado pelo mundo inteiro já teria rapidamente desaparecido, afogado na assimilação.

É interessante perceber que a Torá garante a sua própria continuidade de geração em geração. Valores como educação e alfabetização para as massas são conceitos modernos no mundo. A até cerca de 200 anos atrás, a educação era vista apenas como um privilégio das elites. Muitas religiões inclusive tinham interesse de que as massas permanecessem analfabetas e sem acesso à educação, pois assim garantiam que poucas pessoas tivessem acesso a livros e pudessem questionar sua fé. Mas o judaísmo, ao contrário, sempre buscou a educação das massas, desde a entrega da Torá no Monte Sinai, há mais de 3.300 anos. D'us nos ordenou o estudo da Torá todos os dias das nossas vidas. Por isso, os judeus sempre foram incentivados a saber ler e escrever, garantindo a alfabetização e a educação das massas. Desde o Monte Sinai, o início do povo judeu como uma nação, o estudo da Torá e o aprimoramento intelectual foram, e continuam sendo, nossa força vital. Somente através do estudo da Torá é que nós, o "Povo do Livro", podemos viver de acordo com nosso nome.

Durante toda a história do povo judeu sempre houveram pessoas que dedicaram suas vidas ao estudo da Torá. Para que isto fosse possível, sempre existiram doadores caridosos que sustentavam estas pessoas e ajudavam a manter as instituições de Torá. Desde a época das tribos, quando a tribo de Yssachar se dedicava ao estudo da Torá, enquanto a tribo de Zevulun se dedicava ao comércio e sustentava a tribo de Yssachar, dividindo com eles o mérito do estudo da Torá. Porém, apesar do ato de doar dinheiro para sustentar instituições de Torá ser algo muito grandioso, isto não nos isenta do nosso próprio estudo. D'us quer que o povo judeu seja um povo de pessoas com educação aprimorada. O judaísmo não tem medo dos questionamentos e das discussões que envolvem a religião. Somente poderemos ser boas pessoas se estivermos sempre conectados ao estudo da Torá, de forma séria e consistente. Assim, estaremos garantindo não apenas o sucesso e a tranquilidade para o Mundo Vindouro, mas também para nossas vidas no mundo material. Este é o segredo do povo judeu.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 44:18-47:27, Ez. 37:15-28