sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

QUEM CONTROLA O UNIVERSO - PARASHAT VAERÁ 5776

"O Rav Fischel Schachter conta a história de uma mulher, sobrevivente do Holocausto, que se estabeleceu nos Estados Unidos depois da guerra. Ela se casou, mas doze anos se passaram e ela não conseguia ter filhos. Certo dia, sentada em um consultório médico na Madison Avenue, em Manhattan, ela escutou algo que a abalou profundamente. O médico, um grande especialista em fertilização, disse após revisar seus exames:

- Senhora, vou dizer algo duro, mas que é para o seu bem. Acho que você deveria desistir. Medicamente falando, não há mais nada que possamos fazer. É mais fácil crescer cabelo na palma da minha mão do que você ter um filho.

A mulher saiu de lá completamente arrasada. Ela entrou em um ônibus na Madison Avenue e, durante o trajeto, foi relembrando de detalhes da sua vida. Recordou os horrores que passou ainda jovem na Polônia, quando perdeu todos os parentes, arrastados de casa e assassinados pelos nazistas diante dos seus olhos. Quando ela chegou aos Estados Unidos, completamente sozinha, ela queria desesperadamente começar uma nova família. Porém, depois de doze longos anos, suas esperanças estavam despedaçadas. Ela não tinha nem mesmo vontade de descer do ônibus, queria ficar ali para sempre. Ficou dando voltas pela cidade o dia inteiro, perdida em seus pensamentos. Finalmente, já tarde da noite, o motorista informou que já estava voltando para a garagem e que ela precisava descer do ônibus. A mulher disse, em voz baixa, que não queria descer, pois não tinha mais razão para viver. O motorista, já estressado após um longo dia de trabalho, disse:

- Escute, senhora. Eu tive um dia duro, estou cansado. Eu não sei qual é o seu problema, mas certamente você não vai resolvê-lo ficando aqui neste ônibus.

Cabisbaixa e envergonhada, ela desceu do ônibus e começou a caminhar. De repente ela parou e, com os olhos cheios de lágrimas, olhou para o céu e disse:

- D'us, Você sempre esteve comigo o tempo todo.  Você salvou minha vida inúmeras vezes. Você me trouxe até aqui e me permitiu recomeçar a minha vida. Está tudo em Suas mãos, e eu sei que não tenho o direito de desistir. O motorista do ônibus está certo, Você não salvou minha vida para eu viver no ônibus da Madison Avenue. Por favor, me diga o que fazer. Eu não vou desistir. Vou continuar Te servindo, D'us, não importa o que aconteça.

Um ano depois ela milagrosamente teve um filho. E muito tempo depois, no momento em que faleceu, ela havia deixado no mundo bisnetos suficientes para fazer o cabelo daquele médico da Madison Avenue ficar de pé".

O Rav Fischel Schachter, quando conta esta história, afirma que ouviu tudo diretamente da boca desta mulher, que ele conhecia muito bem. Era sua própria mãe, e ele é aquele bebê milagroso. Ele conta esta história como um ensinamento de que devemos sempre confiar em D'us, não importa o quanto algo possa parecer impossível.   
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Nesta semana lemos a Parashá Vaerá, que começa a descrever algumas das dez pragas com as quais D'us castigou os egípcios e que culminaram com a libertação do povo judeu de mais de dois séculos de escravidão. Mas se pararmos para refletir sobre estas dez pragas, surge uma grande pergunta. Sabemos que se D'us quisesse, uma única praga teria sido suficiente para quebrar a arrogância e a obstinação do Faraó. Bastaria D'us ter aumentado a intensidade ou a duração de qualquer uma das pragas até o ponto em que o Faraó não pudesse mais suportar. Então por que D'us mandou dez pragas, além de tantos outros milagres e sinais que Ele fez diante dos olhos dos egípcios?

Respondem os nossos sábios que realmente D'us não precisava ter feito tantos milagres, mas um dos motivos pelos quais Ele fez foi para responder um questionamento do Faraó. Quando Moshé foi, em nome de D'us, pedir ao Faraó para que ele libertasse o povo judeu, o Faraó respondeu: "Quem é D'us, para que eu escute Sua voz e envie o povo de Israel? Não conheço D'us" (Shemot 5:2). Foi por isso que D'us mandou as dez pragas e outros tantos milagres, para mostrar ao Faraó quem Ele era e qual era o tamanho da Sua força. Foi uma forma de divulgar o poder e o controle que D'us tem sobre o mundo, como está escrito: "Pois agora Eu poderia ter estendido Minha mão e golpeado você (Faraó) e seu povo com a peste, e vocês seriam exterminados da terra. Mas por causa disso Eu te fiz aguentar, para te mostrar a Minha força e para que Meu Nome seja declarado sobre toda a terra" (Shemot 9:15).

Explica o Rav Yaacov Kanievsky zt"l (Ucrânia, 1899 - Israel, 1985), mais conhecido como Steipler, que a praga do sangue demonstrou o controle de D'us sobre as águas, em especial pelo fato da água dos egípcios ter se transformado em sangue, enquanto a água dos judeu ter continuado normal. Na praga dos sapos D'us demonstrou Seu controle sobre as criaturas que vivem na água, e os sapos somente incomodaram os egípcios. Com a praga das feras selvagens D'us demonstrou Seu controle também sobre os animais da terra, que somente atacaram egípcios. Na praga dos gafanhotos D'us demonstrou Seu controle sobre todas as criaturas que voam, além de demonstrar o controle dos ventos, pois os gafanhotos foram trazidos através de um forte vento leste, e foram removidos com um forte vento oeste. O mais interessante é que nenhuma destas pragas atingiu os judeus, apesar deles viveram na cidade de Goshen e serem vizinhos dos egípcios, demonstrando que D'us controla com Supervisão Particular e detalhada até mesmo o que acontece com cada gafanhoto do mundo.

Mas as lições de D'us não pararam por aí. Com a peste que atingiu os animais egípcios, D'us demonstrou o controle sobre a vida de todos os animais, e nenhum animal dos judeus foi atingido. Com a praga da morte dos primogênitos D'us demonstrou que controla também a vida dos seres humanos, pois entre os egípcios apenas os primogênitos morreram, e todos ao mesmo tempo, conforme Moshé havia advertido o Faraó, enquanto nenhum primogênito judeu morreu. Na praga dos piolhos D'us demonstrou o controle sobre a terra, pois o pó da terra se transformou em piolhos, e eles atacaram apenas os egípcios.

O Faraó também aprendeu, de maneira dolorosa, o controle de D'us em outras áreas. A praga da sarna demonstrou o controle de D'us sobre a saúde e as doenças que afligem o ser humano, pois enquanto os egípcios sofreram na pele a praga da sarna, os judeus não foram atingidos. Na praga da escuridão D'us demonstrou que é Ele quem ilumina o mundo, e apenas pelo Seu decreto que os corpos celestes iluminam a Terra. A mesma luz que iluminava os judeus em Goshen não chegava aos egípcios, que estavam imersos na escuridão. E finalmente a praga do granizo demonstrou o controle de D'us sobre as chuvas, o granizo e o fogo. Esta praga demonstrou que as chuvas não são apenas um fenômeno que ocorre por forças da natureza, e sim pelo decreto de D'us. E é apenas a vontade de D'us que pode transformar a chuva em granizo, e que pode fazer a "paz" entre a água e o fogo, dois elementos que normalmente se anulam, mas que se uniram nesta praga para cumprir o decreto de D'us.

O Faraó questionou quem é D'us e até onde chega Sua força, e D'us respondeu de forma detalhada. Até mesmo no momento em que o povo judeu saiu do Egito, outro milagre demonstrou Sua força e Seu poder. D'us ordenou aos judeus que pedissem aos seus vizinhos egípcios objetos de ouro, de prata e roupas finas. Os egípcios deveriam estar odiando os judeus com todas as suas forças, pois sabiam que era por causa dos judeus que eles estavam sofrendo de maneira tão intensa e dolorosa. Mas D'us fez com que os judeus encontrassem graça aos olhos dos egípcios e eles deram seus objetos preciosos de boa vontade aos judeus, apesar de logicamente não terem vontade de fazer isso, demonstrando que D'us tem controle até mesmo sobre as emoções das pessoas.

Na abertura do mar novamente o poder de D'us foi ressaltado aos olhos dos egípcios, para ser divulgado para todas as nações do mundo, em todas as gerações. A água, que deveria fluir, se abriu e formou duas muralhas firmes, permitindo aos judeus atravessarem em terra firme, e voltou ao seu estado natural no momento em que os egípcios foram atravessar o mar. As rodas das poderosas carruagens de guerra dos egípcios foram derretidas, mas o mesmo fogo que derreteu as rodas não consumiu as outras partes das carruagens, demonstrando que na realidade não é por causa das forças da natureza que o fogo queima, e sim por esta ser a vontade de D'us.

O Faraó poderia ter recebido sua resposta de maneira menos dolorosa. Como Avraham Avinu, ele poderia ter aprendido sobre o poder e o controle de D'us simplesmente observando a perfeição de tudo o que Ele criou. De acordo com o livro "Chovót HaLevavót" (Os deveres do coração), a melhor maneira de desenvolver a nossa Emuná (fé) é observando e refletindo sobre a perfeição das criações de D'us. É isto o que o Faraó deveria ter feito, e assim poderia ter entendido quem é D'us e até onde chega a Sua força. 
Mas a lição não fica apenas para o Faraó, é uma lição eterna, para cada um de nós. Há momentos em nossas vidas em que nossas esperanças são despedaçadas, e tudo em que estávamos apostando parece de repente se perder. Nesses momentos podemos facilmente cair em desespero e nos sentir abandonados. Mas não devemos desistir. Devemos, em vez disso, dizer: "D'us, eu não entendo, mas sei que tudo na minha vida está em Suas mãos. Vou tentar o meu melhor para ter sucesso, mesmo nestas condições difíceis nas quais Você me colocou, pois Você sabe o que é melhor para mim". Se conseguirmos agir desta maneira, desenvolveremos nossa Emuná e abriremos as portas para recebermos Brachót que nunca chegariam até nós de outra forma. Pois o mesmo D'us que fez cada uma das dez pragas milagrosas, com Supervisão Particular e detalhada, atingindo os egípcios e poupando os judeus, é o D'us que cuida de nossas vidas.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 6:2-9:35, Ez. 28:25-29:21


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

CÁLCULOS HUMANOS x CÁLCULOS DIVINOS - PARASHAT SHEMOT 5776

No inverno de 1892, uma enorme sombra recaiu sobre o povo judeu. A Yeshivá de Vologin, uma das mais proeminentes Yeshivót da época, um modelo de Torá em toda a Europa, estava em perigo. Naquela época, o Rosh Yeshivá (Diretor espiritual) era o Rav Naftali Tzvi Yehuda Berlin zt"l (Rússia, 1816 - Polônia, 1893), mais conhecido como Netziv, um gigante de Torá. As autoridades russas, querendo arrancar a Torá do povo judeu, decretaram que na Yeshivá de Vologin fosse ensinado diariamente duas horas de estudos não judaicos. Junto com o decreto veio uma ameaça: se a diretoria se recusasse a cumprir a ordem das autoridades, a Yeshivá seria fechada.

O Netziv não quis receber sobre si a responsabilidade de decidir sozinho algo tão importante. Ele reuniu os maiores sábios de Torá da Europa em um encontro especialmente dedicado a discutir aquele assunto. A discussão foi difícil, pois havia muitos prós e contras para os dois lados. Todos concordavam que seria algo muito negativo incluir as duas horas de estudos não judaicos em uma Yeshivá, mas muitos consideravam que ainda assim o prejuízo seria menor do que fechar completamente a Yeshivá. Até que o Rav Yossef Dov Halevi Soloveitchik (Império Russo, 1820 - 1892), mais conhecido como Beis Halevi, com lágrimas nos olhos, pediu a palavra. Emocionado, ele falou:

- É verdade que temos a obrigação de manter a Torá com toda a sua força e cultivar cada vez mais alunos, para que possamos transmitir a Torá às próximas gerações. Mas isto deve ser feito da maneira como ensinaram nossos antepassados. Agora que as autoridades querem nos obrigar a ensinar a Torá de novas formas, a responsabilidade não recai mais sobre nós. Devolveremos o problema Àquele quem nos deu a Torá, para que Ele faça o que achar o melhor. Portanto, eu decido que, de acordo com os ensinamentos da Torá, a Yeshivá deve ser fechada.

E assim realmente aconteceu. A Yeshivá de Vologin, o maior modelo de estudo de Torá da Europa, foi fechada. Mas explica o Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bieloríssia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, que a história não terminou aqui. Se a Yeshivá de Vologin tivesse decidido continuar com as condições impostas pelas autoridades russas, provavelmente a Torá da nossa geração teria sido esquecida. Esta é a forma de atuação do Yetser Hará (má inclinação): primeiro a Yeshivá abriria uma exceção ao permitir duas horas de estudos não judaicos, mas com o tempo provavelmente a situação se inverteria e restaria apenas duas horas de estudo de Torá. Porém, como o Netziv teve a coragem de fazer o que era correto, a Torá encontrou outros caminhos para sua continuidade. Naquela mesma época foram abertas muitas Yeshivót na Lituânia e na Polônia, que produziram os novos gigantes de Torá da geração. A Torá é como um manancial de água, pois mesmo que alguém tampe sua saída em um lugar, ela encontrará seus caminhos para fluir em outro lugar. 
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Nesta semana começamos o segundo livro da Torá, Shemot, que descreve a terrível escravidão do povo judeu no Egito, após a morte de Yaacov e seus filhos. A Parashá desta semana, Shemot, também descreve o nascimento de Moshé, o homem que, sob o comando de D'us, fez enormes milagres e salvou o povo judeu da escravidão.

Durante a descrição dos duros decretos do Faraó contra o povo judeu, há um versículo que nos chama a atenção: "E foi um homem da casa de Levi e tomou para si uma filha de Levi. E a mulher engravidou e deu a luz a um filho" (Shemot 2:1,2). O homem descrito neste versículo era Amram, o líder do povo judeu e um grande Tzadik (Justo). A mulher descrita no versículo era Yocheved, uma mulher corajosa que constantemente arriscava sua vida e enfrentava o temível Faraó para salvar os bebês do povo judeu. E o bebê que nasceu era Moshé Rabeinu, nosso grande salvador. Porém, o que significam as palavras "e foi um homem"? Para onde Amram foi?

Explica o Talmud (Sotá 12a) que "e foi um homem" refere-se a Amram ter ido de acordo com o conselho de sua filha, Miriam. Apesar de ser uma criança, Miriam já tinha uma sabedoria acima do normal. Durante os anos de escravidão, os egípcios eram extremamente cruéis e causavam muitos sofrimentos aos judeus, com terríveis castigos físicos e psicológicos. Além disso, os astrólogos do Faraó haviam previsto o nascimento do salvador do povo judeu, mas também viram que este salvador seria punido através das águas (o que realmente ocorreu quando Moshé, ao invés de pedir água para a pedra, golpeou-a, sendo castigado por este ato com a proibição de entrar na Terra de Israel). Ao escutar a temerosa notícia de que o salvador do povo judeu estava para nascer, o Faraó decretou que todos os bebês que nascessem fossem atirados ao rio. Amram, ao perceber que não havia sentido em trazer filhos ao mundo naquelas condições, decidiu se separar de sua esposa Yocheved. Como ele era o líder da geração, sua atitude serviu como exemplo para o resto do povo, e todos se divorciaram de suas esposas para não terem mais filhos.

Foi neste contexto que Miriam quis aconselhar seu pai. Ela percebeu que seu pai havia cometido um grave equívoco ao se divorciar, e demonstrou racionalmente que ele estava causando ao povo judeu algo ainda mais duro do que o próprio decreto do Faraó. Em primeiro lugar, pois o Faraó havia feito um decreto que atingia apenas os homens, mas Amram havia decretado algo que afetava tanto os homens quanto as mulheres. Além disso, o Faraó havia decretado a morte dos judeus apenas no Olam Hazé (mundo material), enquanto Amram havia decretado a morte dos judeus no Olam Hazé e no Olam Habá (Mundo Vindouro), pois a única maneira de chegar ao Olam Habá é passando pelo Olam Hazé.

A grandeza de Amram foi demonstrada através de sua enorme humildade. Mesmo que o conselho vinha de uma criança, de sua própria filha, ele percebeu que ela tinha razão e se arrependeu de seu erro, imediatamente casando-se novamente com sua esposa. É justamente sobre este novo casamento de Amram e Yocheved que descreve o versículo antes do nascimento de Moshé. Mas o que Miriam havia entendido que até mesmo Amram, o líder do povo judeu, não havia? De acordo com a lógica humana, Amram parecia estar certo. Os judeus já estavam há quase dois séculos imersos em terríveis sofrimentos, então por que ter filhos em um mundo tão cruel, sem esperanças de melhorias? Afinal, qual foi o erro de Amram?

O Tanach traz outro grande Tzadik que cometeu um erro parecido. O Rei Chizkiahu ficou doente e sentiu que suas forças diminuíam a cada dia. Ele recebeu a visita do profeta Yeshaiahu, que vinha trazer uma mensagem de D'us: a morte do rei se aproximava, e ele também perderia o Mundo Vindouro. Mas o Rei Chizkiahu era uma pessoa muito correta e não entendeu porque merecia um castigo assim tão duro. O profeta explicou que Chizkiahu estava sendo punido por nunca ter se casado. Porém, Chizkiahu explicou que havia um forte motivo para esta sua decisão. Ele sabia profeticamente que seu filho seria uma grande Rashá (malvado), e por isso quis evitar a vinda de alguém tão ruim ao mundo. O profeta explicou para ele que, a partir do momento em que D'us havia dado aos seres humanos a Mitzvá de "Pru Urvu" (crescer e multiplicar), não temos o direito de fazer cálculos sobre as consequências desta Mitzvá. Chizkiahu entendeu seu erro, escutou as palavras do profeta e se arrependeu de uma maneira tão sincera que D'us o perdoou e lhe acrescentou ainda muitos anos de vida.

Explica o Chafetz Chaim que muitas pessoas em nossa história, mesmo sendo Tzadikim e grandes em Torá, acabaram cometendo este tipo de erro. Os casos de Amram e Chizkiahu nos ensinam algo muito importante em relação ao ser humano e suas obrigações. Não temos a permissão de querer analisar tudo o que ocorre de acordo com a nossa lógica e entendimento, e direcionar nossas vidas de acordo com os nossos sentimentos. Mesmo quando queremos fazer "melhor do que D'us pediu", isto é, mesmo quando somos sinceros e realmente queremos fazer o que é correto de acordo com o nosso entendimento, mesmo assim devemos sempre lembrar o quanto somos limitados, pois o ser humano somente consegue enxergar as consequências dos seus atos a curto prazo, enquanto D'us consegue enxergar tudo a longo prazo. Quando D'us nos comanda algo, não há lugar para questionamentos nem cálculos racionais.

Dizemos todos os dias na nossa reza da manhã: "Muitos são os pensamentos no coração do ser humano, mas é a vontade de D'us que sempre se cumpre", e a Torá nos traz muitos exemplos práticos deste conceito espiritual. O Faraó decretou que todos os bebês homens fossem atirados no rio, inclusive os bebês egípcios, pelo medo de que o salvador do povo judeu nasceria naquele momento. Mas foi justamente este decreto que fez com que Batia, a filha do Faraó, encontrasse Moshé dentro da cestinha e o criasse dentro do palácio real, sendo alimentado e protegido pelo mesmo Faraó que fez de tudo para exterminá-lo. Quando Yossef foi vendido pelos seus irmãos ao Egito, parecia algo terrível, uma tragédia, mas na verdade era a preparação para a salvação do povo judeu, pois Yossef conseguiu acabar com a fome que mataria sua família. Já a ida de Yaacov para o Egito, para reencontrar Yossef depois de 22 anos, parecia algo bom e feliz, mas na realidade era o início do exílio do povo judeu, a preparação para a terrível escravidão que viria. E se pararmos para refletir, perceberemos algo ainda mais incrível. Miriam e seu conselho estão por trás do próprio nascimento de Moshé, o salvador do povo judeu, o que Amram teria evitado caso não tivesse se casado novamente com Yocheved. Isso demonstra o quanto somos limitados e que apenas D'us, que controla tudo, sabe exatamente os impactos e as consequências de cada pequeno acontecimento.


A Parashá Shemot é um grande ensinamento de que os atos e artimanhas do ser humano na realidade não conseguem causar nenhum impacto real nos decretos Divinos. Como ensinam os nossos sábios: "A Teshuvá (arrependimento), a Tefilá (reza) e os atos de Tzedaká (caridade) podem mudar um Decreto Celestial". Todos os nossos outros atos são apenas para despertar a Misericórdia Divina. Quando insistimos em fazer cálculos e ir contra a vontade de D'us, não apenas não alcançamos nosso objetivo, mas também as consequências muitas vezes saem ao contrário do que planejávamos, como ocorreu com o Faraó. Isto nos ensina a cumprirmos a vontade de D'us, mesmo quando possa parecer ilógico, pois apesar dos nossos esforços, no final será a vontade Dele que se cumprirá.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
ÊXODO l:1-6:1, Is. 27:6-28:13, 29:22-23

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

INTEIRO, E NÃO PELA METADE - PARASHAT VAIECHI 5776

O Rav Israel Salanter zt"l (Lituânia, 1810 - Prússia, 1883) foi um dos maiores rabinos de sua geração. Ele se destacou não apenas na grandeza de seu conhecimento de Torá, mas principalmente no trabalho que ele fazia, consigo mesmo e com seus alunos, para atingir a excelência nos traços de caráter. Ele instituiu em sua Yeshivá (centro de estudo de Torá) que, além do estudo do Talmud, os alunos também deveriam dedicar parte do dia ao estudo de Mussar (estudo que ajuda a pessoa a se tornar um ser humano melhor). Ele incentivava mesmo seus melhores alunos, aqueles que mais se destacavam no estudo do Talmud, a também estudarem Mussar.

Certa vez, alguém que não concordava com os métodos de ensino do Rav Salanter questionou a permissão de interromper o estudo de Talmud para estudar Mussar, alegando que isso provavelmente comprometeria a grandeza no estudo de Torá dos alunos dele. O Rav Salanter respondeu que havia aprendido isto de uma Halachá (Lei Judaica) em relação às Brachót que fazemos antes de comer algo. Ao ver a expressão de dúvida no rosto da pessoa que havia questionado, o Rav Salanter explicou:

- Existe uma série de prioridades para fazermos Brachót nos alimentos. Por exemplo, quando temos uma fruta completa e outra apenas pela metade, o correto é fazer a Brachá na fruta inteira. Já quando temos uma fruta pequena e outra grande, a prioridade é fazer a Brachá na fruta grande. Porém, o que fazemos quando temos uma fruta inteira e pequena, e outra que é grande mas não está inteira? Para qual das duas damos a preferência da Brachá?

- A Halachá ensina que a preferência é dada para a fruta inteira, mesmo que seja menor - respondeu o Rav Salanter - Isto significa que é mais importante a pessoa ser menor em Torá e completa do que grande em Torá e incompleta. Por isso, aquele que estuda Torá e também trabalha em seus traços de caráter, tornando-se alguém completo, está em um nível maior do que aquele que tem mais estudo de Torá e é menos refinado em seus traços de caráter. 
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Nesta semana lemos a Parashat Vaiechi, a última Parashat do livro de Bereshit, que descreve as Brachót eternas que Yaacov deu aos seus filhos antes de sua morte. Cada um dos filhos de Yaacov recebeu uma Brachá única e especial, sob medida para seus talentos e necessidades específicas. Depois desta Brachá individual, Yaacov deu a todos uma Brachá coletiva, como está escrito: "E isto é o que falou para eles seu pai, e os abençoou. Cada um de acordo com sua Brachá ele (Yaacov) os abençoou" (Bereshit 49:28).

Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, nos chama a atenção para dois pontos interessantes neste versículo. Em primeiro lugar, se Yaacov já havia abençoado cada um dos seus filhos individualmente, por que precisou dar uma nova Brachá? Além disso, há um aparente erro de concordância neste versículo, pois deveria estar escrito "cada um de acordo com sua Brachá ele o abençoou". Mas por algum motivo o versículo termina no plural, "os abençoou". O que a Torá está nos ensinando ao mudar a concordância do versículo?

Explica Rashi que a Brachá individual que Yaacov deu para cada um de seus filhos não se aplicava aos outros. Por exemplo, Yehudá foi abençoado com a força de um leão, enquanto Biniamin foi abençoado com a capacidade de pilhagem do lobo. Portanto, Biniamin não teria a força do leão nem Yehudá teria a capacidade de pilhagem do lobo. O versículo diz que Yaacov deu uma nova Brachá aos seus filhos, e termina com o plural "os abençoou", para nos ensinar que, além da Brachá específica para cada um de seus filhos, Yaacov deu uma Brachá coletiva que incluía cada filhos nas Brachót dos outros filhos. Isto quer dizer que, com a Brachá coletiva de Yaacov, Biniamin também recebeu a força do leão e Yehudá também recebeu a capacidade de pilhagem do lobo. Porém, esta explicação de Rashi desperta outro questionamento. Se nesta Brachá coletiva Yaacov abençoou todos os filhos com todas as Brachót, então por que ele deu Brachót individuais? Não seria suficiente dar apenas as Brachót de forma coletiva, já incluindo todos os filhos em todas as Brachót?

Responde o Rav Yehuda Loew zt"l (Polônia, 1525 - República Checa, 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, que apesar de cada filho também ter recebido as Brachót dos outros irmãos, isto não os igualou completamente, pois aquele que recebia a Brachá individualmente a recebia de maneira mais forte, enquanto os outros irmãos recebiam apenas parte daquela Brachá. Isto quer dizer que cada um dos irmãos recebeu apenas um aspecto da Brachá dada de forma específica aos outros irmãos. Por exemplo, Yehudá recebeu o maior nível de bravura e coragem, representado pela força do leão, enquanto seus irmãos receberam apenas certos elementos do traço de caráter da bravura, mas não a força completa. E assim foi com cada uma das Brachót.
Porém, ainda não fica claro qual foi o motivo de Yaacov ter dado para cada filho, além da Brachá específica, também alguns elementos da Brachá dada especificamente aos outros irmãos. Cada um não deveria ter ficado apenas com a sua Brachá específica, que ia de acordo com seus talentos e necessidades pessoais?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que todos têm áreas na vida na qual se destacam. Porém, o ideal é a pessoa se esforçar para ser "completa", isto é, ela pode até mesmo se especializar em certa área, mas isto não a isenta de também buscar o aperfeiçoamento em outras áreas, mesmo naquelas que não são tão naturais para ela. Isto se aplica para várias áreas, tanto para o objetivo de vida da pessoa quanto para seus traços de caráter e seu estudo de Torá.

Em relação ao objetivo de vida, há muitas funções que devemos desempenhar. Por exemplo, devemos ser pais, cônjuges, amigos, professores, filhos, etc. Ao querer dar uma atenção especial a certa área, como a educação dos filhos, a pessoa pode acabar se desequilibrando. A educação dos filhos é realmente algo muito importante, fundamental para criarmos uma sociedade saudável, mas a pessoa não pode focar demasiadamente nesta área, pois isto ocorrerá à custa de outras áreas importantes da vida. É de vital importância que a pessoa se dedique para ser um bom pai, mas se é apenas isto que ela faz o tempo inteiro, outras funções na sua vida serão prejudicadas. O segredo do sucesso é o equilíbrio entre o trabalho, o tempo com a família, o estudo de Torá, os atos de Chessed (bondade) e as outras funções que um judeu deve cumprir. Um bom indicador de que uma área está superdimensionada é quando as outras áreas começam a demonstrar sinais de carência. Se a pessoa passa demasiadamente tempo com a família e por isso não consegue estabelecer tempos fixos de estudo de Torá, ou se passa tempo demais no trabalho e por isso não consegue dar atenção para a esposa e os filhos, então é sinal de que há algo errado.

Esta necessidade de sermos "completos" também se aplica na área dos nossos traços de caráter. As pessoas normalmente apresentam certas tendências naturais, como aquelas com mais propensão a fazer bondades e aquelas com mais propensão a buscar justiça. A tendência natural é focarmos nosso tempo e nossa energia nestes traços de caráter, em detrimentos de outras características. Por exemplo, uma pessoa que naturalmente faz Chessed pode passar horas ajudando outras pessoas, mas não dedica nem mesmo um minuto para melhorar sua autodisciplina. É natural e correto uma pessoa focar suas forças no que ela já tem um gosto ou uma facilidade natural, pois é certamente uma área onde ela terá mais chances de ter sucesso. Porém, grande parte da recompensa pelo crescimento de uma pessoa vem das conquistas em áreas que não são naturalmente fáceis para ela.

Uma demonstração do quanto isto é importante é observado em relação aos nossos patriarcas. Eles enfrentaram seus maiores testes na vida justamente nas áreas que eram opostas aos seus traços de caráter naturais. Por exemplo, Avraham chegou à excelência no traço de caráter de bondade e misericórdia, e enfrentou o incrível teste da "Akeidat Ytzchak", tendo que vencer sua característica de misericórdia e estar disposto a sacrificar seu próprio filho para cumprir a vontade de D'us. Já o maior desafio de Yaacov, que representa a característica da verdade, foi ter que enganar Reshaim (más pessoas) utilizando a característica da mentira, o oposto do traço de caráter da verdade.

O equilíbrio também é necessário na área do estudo da Torá, como ensinam nossos sábios: "Se não tem Torá, não tem "Derech Eretz" (bons modos). E se não tem Derech Eretz, não tem Torá" (Pirkei Avót 3:17). O Ramban zt"l (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270) explica que estes dois aspectos, o estudo da Torá e o Derech Eretz, se complementam. Isto quer dizer que a pessoa não pode focar em demasia no seu estudo de Torá sem dar nenhuma ênfase ao conserto dos seus traços de caráter. E, da mesma maneira, não é possível que a pessoa conserte com sucesso seus traços de caráter sem estudar Torá, pois a Torá é o "Manual de Instruções" de como nos comportarmos em todas as áreas da vida.

É possível aprender muitas lições com as Brachót que Yaacov deu para cada um dos seus filhos. Mas uma das lições mais importantes é que, apesar de ser algo positivo a pessoa se especializar no que ela gosta e tem habilidades naturais, também temos a obrigação de sermos "completos", e isto inclui o esforço para conquistar as áreas que não sentimos uma facilidade ou um gosto natural por elas. Isto se assemelha a uma academia de ginástica, pois normalmente gostamos de fazer apenas os exercícios que são mais fáceis ou mais prazerosos. Porém, o correto é trabalhar todos os músculos, pois o corpo só funciona de maneira perfeita quando todas as suas partes foram devidamente trabalhadas. Assim também ocorre espiritualmente, o ideal é trabalharmos em todas as áreas, não apenas nas que são mais fáceis ou gostosas, mas também naquelas que são mais difíceis ou não nos agradam tanto.

Certamente trabalhar em áreas que não gostamos é uma tarefa difícil. Muitas vezes D'us nos manda testes para que possamos desenvolver estas áreas, como aconteceu com os patriarcas. Mas não precisamos esperar os testes, pois Yaacov abençoou seus filhos e seus descendentes justamente com a força necessária para que, com o devido esforço, consigamos atingir o objetivo de nos tornarmos seres humanos completos.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 47:28-50:26, 1 Rs. 2:1-12

domingo, 20 de dezembro de 2015

GOTAS DE ÓLEO - PARASHAT VAIGASH 5776

Num quarto de hospital, o doente precisava de silêncio e descanso. Mas as dobradiças da porta rangiam cada vez que alguém abria e fechava a porta. O barulho incomodava o doente, e até os familiares que estavam no quarto começaram a se irritar. Cada vez que entrava ou saia um médico, um enfermeiro ou uma visita, a porta fazia um irritante barulho.

As reações foram as mais diversas. Um quis dar explicações técnicas do porquê a porta rangia. Outro preferiu explicar os motivos pelos quais ele achava que a culpa do barulho era do hospital. O terceiro achou que não tinha nada a ver com o problema. Depois de várias horas de incômodo, chegou alguém para visitar o doente. Ao escutar o rangido, ele colocou algumas gotas de óleo na dobradiça e a porta silenciou, tranquila e obediente.

A lição é simples, mas importante. Em muitas ocasiões há discussões dentro dos nossos lares, no ambiente de trabalho ou em qualquer outro ambiente social. São as dobradiças dos relacionamentos fazendo um barulho inconveniente. São problemas, conflitos e mágoas que ficaram. Na maioria dos casos nós podemos fazer a nossa parte para acabar com as discórdias, basta nos lembrar do recurso infalível de algumas gotas de compreensão, e toda a situação muda. Algumas gotas de perdão acabam de imediato com o chiado das discussões mais acaloradas. Gotas de paciência no momento oportuno podem evitar grandes dissabores. Poucas gotas de carinho penetram até nas barreiras mais sólidas e produzem efeitos duradouros. Nas relações interpessoais, algumas gotas de afeição são suficientes para lubrificar as engrenagens e evitar os ruídos da discórdia e da intolerância.

Dessa forma, sempre que você perceber que as dobradiças dos relacionamentos estão fazendo um barulho inconveniente, não espere que os outros venham solucionar o problema. Lembre-se que você poderá silenciar qualquer discórdia utilizando um pouco do óleo do entendimento. Não é necessário ter grandes virtudes para alcançar o sucesso nessa empreitada, basta agir com sabedoria e bom senso. Às vezes são necessárias apenas algumas gotas de silêncio para conter o ruído desagradável de uma discussão infeliz. E se você é daqueles que pensa que os pequenos gestos nada significam, lembre-se de que as grandes montanhas são constituídas de pequenos grãos de areia. 
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Nesta semana lemos a Parashat Vaigash, que descreve o momento em que Yossef não aguentou mais esconder sua identidade e se revelou aos seus irmãos. Yossef instruiu seus irmãos a voltarem para Eretz Israel para buscarem suas famílias e seu pai, Yaacov, para que todos viessem morar no Egito e sobrevivessem à terrível fome que assolava o mundo. A Parashat ainda descreve o emocionante momento do reencontro entre Yossef e seu pai, depois de terem permanecido 22 anos afastados.

Quando os irmãos estavam se preparando para voltar e buscar suas famílias, Yossef deu um estranho conselho para eles: "E ele (Yossef) disse para eles: "Não se agitem no caminho" (Bereshit 45:24). O que Yossef quis dizer com estas palavras? Que tipo de conselho ele estava dando aos irmãos?

Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, traz três opiniões para explicar qual foi o conselho de Yossef. Citando o Talmud (Taanit 10b), ele ensina que percursos muito longos podem se tornar perigosos caso a pessoa não seja paciente e não tome os devidos cuidados. Por exemplo, a pessoa ansiosa pode querer viajar rápido demais ou continuar a viagem mesmo durante a noite. Yossef estava prevenindo seus irmãos que, em sua pressa de voltar para casa, eles precisavam tomar cuidado para não viajar de uma maneira que os colocasse em risco. De acordo com outra opinião, também baseada no Talmud (Taanit 10b), Yossef estava ensinando aos irmãos a não se envolverem em discussões de Halachá (Lei Judaica), para que o assunto não se tornasse tão envolvente a ponto deles errarem o caminho. E uma terceira opinião de Rashi vai de acordo com o entendimento mais simples do versículo, de que Yossef estava tentando evitar que seus irmãos entrassem em uma discussão acalorada, jogando uns nos outros a responsabilidade por sua venda, e por isso os advertiu para que não entrassem em nenhum tipo de discussão.

Ao refletir sobre estas três opiniões trazidas por Rashi, surge um questionamento. É entendível que depois da revelação de Yossef era importante advertir os irmãos a viajarem de uma maneira mais segura, pois a empolgação de voltar para casa com as novidades poderia fazer com que eles se comportassem de maneira descuidada. Também é compreensível que Yossef estivesse preocupado com o surgimento de uma briga entre os irmãos, pois depois de se reencontrarem com Yossef, seria natural um querer jogar a culpa no outro. Porém, o terceiro motivo, de que Yossef estava preocupado que seus irmãos poderiam se envolver em discussões de Halachá a ponto de errarem o caminho, não é facilmente entendido. Na Torá não há nenhuma proibição de se envolver com o estudo da Torá durante uma viagem. Ao contrário, a Torá nos comanda a estudarmos mesmo quando estamos viajando, como está escrito: "E falará delas quando se sentar na sua casa e quando estiver andando no caminho" (Devarim 6:7). Além disso, há um Midrash (parte da Torá Oral) que afirma que Yossef insistiu aos irmãos para que eles não deixassem de estudar Torá durante o caminho, algo que aparentemente é muito contraditório com a explicação dada pelo Talmud. Como entender esta contradição?

Explica o Rav Yohanan Zweig que é muito comum, por algum desentendimento, que uma pessoa acabe guardando profundo rancor em relação à outra pessoa, mas que consiga socialmente se comportar de maneira civilizada. Porém, se surgir entre elas uma nova disputa, mesmo que não tenha absolutamente nenhuma conexão com o desentendimento anterior, ela será utilizada como veículo para descarregar a raiva que estava contida. Isto pode acontecer inclusive quando a questão utilizada como veículo para descarregar a raiva for algo de natureza espiritual. Por exemplo, uma discussão acalorada entre duas pessoas em relação à Halachá (Lei Judaica) pode esconder uma disputa anterior, alguma mágoa pendente. E por se tratar de algo espiritual, a pessoa se sente à vontade de entrar em uma discussão muito mais acalorada, pois como sente que está brigando "em nome da verdade", acredita que não tem limites.

Parece exagero, mais foi exatamente o que aconteceu com Cain e Hevel (Abel). O versículo que descreve o assassinato de Hevel é um pouco enigmático: "E Cain falou com o seu irmão Hevel, e enquanto eles estavam no campo, Cain se levantou contra o seu irmão Hevel e o matou" (
Bereshit 4:8). Mas afinal, o que eles conversaram? E qual a relação entre esta conversa e o posterior assassinato?

Explicam os nossos sábios que Cain e Hevel entraram em uma profunda discussão filosófica: será que D'us tem controle sobre tudo o que ocorre no mundo ou Ele tem apenas um controle limitado? Hevel defendia a visão óbvia de que D'us controla tudo com Supervisão Particular, enquanto Cain defendia a visão equivocada de que D'us tem apenas um controle limitado. A discussão filosófica foi ficando cada vez mais acalorada até que Cain, no auge da discussão, se levantou e matou seu irmão.

Porém, se a conversa entre eles foi algo tão importante, uma discussão filosófica tão fundamental, por que a Torá não escreveu explicitamente o teor da conversa? Explicam os nossos sábios que Cain foi o primeiro a ter a ideia de fazer oferendas para D'us. Mas Cain não se esforçou em oferecer do melhor que tinha, e por isso sua oferenda não foi aceita por D'us. Hevel gostou da ideia de seu irmão e também fez uma oferenda para D'us, mas com o melhor do que tinha, e por isso sua oferenda foi aceita. Cain ficou profundamente decepcionado com o fato da oferenda de seu irmão ter sido aceita enquanto a sua ter sido recusada. Este rancor ficou em seu coração, e ele procurou apenas uma desculpa para poder se levantar contra seu irmão. Por isso a Torá nem mesmo registrou qual foi o assunto da discussão, pois na realidade o assunto era irrelevante, era apenas uma desculpa para Cain descarregar a sua raiva.

Com este conceito conseguimos entender as palavras de Yossef para os seus irmãos. Ele estava ciente de que seus irmãos haviam guardado rancor uns dos outros por causa da sua venda, mas mesmo assim eles conseguiam se comportar com respeito entre eles. Porém, Yossef teve medo que se eles entrassem em algum outro tipo de discussão, mesmo que fosse sobre algo espiritual, isto seria apenas um veículo para descarregar os rancores antigos e uma desculpa para jogar a culpa uns sobre os outros. A possibilidade disto acontecer era algo que preocupava muito Yossef, pois poderia se tornar uma discussão tão acalorada que os faria se perder no caminho, colocando suas vidas em perigo.

O Talmud está nos ensinando que Yossef não estava instruindo seus irmãos a não estudarem Torá no caminho, ao contrário, estava incentivando-os a estudar, mas ele os advertiu para que não fugissem do foco verdadeiro do estudo, para que não acabassem caindo na armadilha de utilizar o estudo da Torá apenas como um veículo para descarregar nos outros suas frustrações.
Deste ensinamento da Parashat aprendemos algo precioso para nossas vidas, que pode nos salvar de discussões. Muitas vezes entramos em discussões com pessoas que nos fazem questionamentos, pois queremos provar que estamos com a razão. Porém, aprendemos que nem sempre os questionamentos são para tirar dúvidas, algumas vezes são apenas uma forma de ataque, uma desculpa que a pessoa está utilizando para resolver outras mágoas. Precisamos ter a sensibilidade de perceber a diferença entre um questionamento e um ataque. Pois para acabar com um questionamento, nada como uma boa resposta. Mas para acabar com um ataque, que pode estar escondendo alguma mágoa, nada melhor que uma boa conversa. Pois não apenas as dobradiças das portas rangem, algumas vezes as pessoas também rangem, e ao invés de tentar consertar com explicações técnicas, nada como um pouco do óleo do entendimento.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 44:18-47:27, Ez. 37:15-28

sábado, 12 de dezembro de 2015

ULTRAPASSANDO OS LIMITES - PARASHAT MIKETZ E CHÁNUKA II 5776

Shimon Waisberg (nome fictício) era um judeu israelense afastado. Conhecia pouco das Halachót (Leis Judaicas) e não sabia cumprir nem mesmo as Mitzvót mais básicas. Certo Shabat ele estava circulando de carro em um bairro religioso, onde normalmente não circulam carros no Shabat, quando de repente viu uma criança que, vinda do nada, atravessou correndo a rua bem na frente do carro dele, sem olhar para os lados. Apesar de ter freado, Shimon não conseguiu evitar a forte colisão. A criança voou longe e, gravemente ferida, foi levada às pressas ao hospital. Em poucos dias Shimon foi julgado e absolvido, pois o juiz considerou que a culpa foi exclusivamente da criança. Porém, apesar da absolvição legal, a consciência de Shimon não o deixava tranquilo, e ele ficava o tempo todo pensando no pobre menino e em sua família. Sem conseguir dormir nem comer direito, ele decidiu ir ao hospital visitar a criança e oferecer ajuda à família. Chegando lá, ele entrou no quarto e viu a criança na cama, em condições críticas. A mãe, muito abatida, estava sentada ao lado da cama, rezando pela recuperação do filho. Shimon, muito emocionado e envergonhado, disse em voz baixa:

- Sinto muito pelo seu filho, não foi minha culpa. Há algo que eu posso fazer por vocês?

- Sim - respondeu a mãe do garoto - Por favor, a partir de hoje comece a guardar o Shabat.

Shimon ficou chocado. Aquela mulher, mesmo diante de uma situação tão difícil, vendo seu filho entre a vida e a morte, conseguia estar conectada com sua espiritualidade. Ela poderia ter exigido uma compensação financeira, poderia ter respondido de maneira ríspida e grosseira. Mas, ao contrário do que Shimon esperava, ela foi gentil e se preocupou com a espiritualidade dele. Shimon se interessou em conhecer o que havia de especial dentro do judaísmo que dava forças tão incríveis para aquela mulher. Em pouco tempo ele se tornou um "Baal Teshuvá" (pessoa que retorna ao cumprimento da Torá e das Mitzvót). Em seu casamento, que seguiu cada detalhe da Halachá, todos da família daquela criança atropelada, que felizmente já havia se recuperado completamente, foram os convidados de honra. (História Real) 
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Nesta semana lemos a Parashat Miketz, que continua contando a história de Yossef, em especial a mudança repentina que ocorreu em sua vida, quando ele passou de um simples prisioneiro a vice-rei do Egito. Apesar de Yossef ser muito bonito e muito poderoso, e apesar de estar em um lugar espiritualmente baixo, de materialismo e promiscuidade, ele nunca se corrompeu. É por isso que, entre todos os nossos antepassados, foi ele que recebeu o "apelido" de Yossef "Hatzadik" (o Justo), em especial por seu autocontrole diante de tantos testes e desafios. Também neste Shabat continuamos a comemoração da Festa de Chánuka. Como esta característica de Yossef, de ter um autocontrole acima do normal, se conecta com a Festa de Chánuka?

A resposta começa com uma Mishná (parte da Torá Oral) que afirma: "Há três coroas (no povo judeu): Keter Torá (coroa da Torá), Keter Kehuná (coroa do Sacerdócio) e Keter Malchut (coroa do Reinado), mas o Keter Shem Tov (coroa do bom nome) está acima de todas" (Pirkei Avót 4:13). Porém, esta Mishná apresenta algumas dificuldades. Em primeiro lugar, o que significa a "coroa do bom nome"? Além disso, se a Mishná afirmou que há três coroas, por que listou quatro?

Há um paralelo destas três coroas com os utensílios do Beit Hamikdash (Templo Sagrado) que ficavam no "Kodesh", a parte mais sagrada. O Talmud (Yoma 72b) nos ensina que três utensílios tinham um "Zer", que literalmente significa "borda". É como se os utensílios tivessem em sua borda uma coroa, e as coroas destes três utensílios representam as três coroas mencionadas na Mishná. O Aron Hakodesh (Arca Sagrada) ostenta a coroa da Torá, o Mizbeach HaZahav (Altar de incenso) ostenta a coroa do Sacerdócio e a Shulchan (Mesa dos Pães) ostenta a coroa do Reinado.

Porém, a verdade é que no Kodesh havia quatro utensílios, não apenas três, pois lá também ficava a Menorá de ouro. O Midrash (parte da Torá Oral) explica que a Menorá ostenta a quarta coroa trazida no Pirkei Avót: a coroa do bom nome. Mas se olharmos os detalhes da Menorá, perceberemos que ela era diferente dos outros três utensílios, pois ela não tinha nenhuma coroa. Na verdade a Menorá não tinha nem mesmo bordas delimitadas como nos outros utensílios. Então como a Menorá pode representar a coroa do bom nome se ela não tinha fisicamente nenhuma coroa?
Explica o Rav Yehuda Loew zt"l (Polônia, 1525 - República Checa, 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, que embora a Menorá não tivesse nenhuma borda física que pudesse conter uma coroa, sua coroa era representada pelas chamas das lâmpadas que a delineavam. Isto significa que os três utensílios anteriores tinham uma borda limitada, enquanto a chama da Menorá era uma borda sem limites. Portanto, a coroa da Menorá reflete o conceito de que o bom nome é superior às outras três qualidades citadas anteriormente. Mas ainda fica a dúvida de qual é o real entendimento do conceito de "coroa do bom nome". Além disso, sabemos que a Menorá é o símbolo da Festa de Chánuka. Então qual é a relação entre Chánuka e a coroa do bom nome?

Se prestarmos atenção, perceberemos que há uma diferença intrínseca entre as quatro coroas citadas no Pirkei Avót. Enquanto as três primeiras coroas são qualidades que dependem da própria pessoa (Torá, Sacerdócio e Reinado), o bom nome é algo que não depende da própria pessoa, e sim de como os outros a percebem. Mas ficar se esforçando apenas para encontrar apreciação aos olhos dos outros é algo elevado e saudável para o ser humano? É isto que significa construir um bom nome, algo que está acima das outras qualidades?

A resposta está em um incrível ensinamento do Talmud (Yoma 35b), que afirma que o comprometimento com o estudo de Torá do grande sábio Hilel, que vivia nas mais severas condições de miséria, obriga todos aqueles que são pobres a estudarem Torá. Já o estudo de Torá do Rav Elazar ben Charsum, o homem mais rico da época, obriga todos aqueles que são milionários a estudarem Torá de uma forma fixa e séria, apesar das preocupações com os negócios. E Yossef HaTzadik, cuja beleza e poder chamavam a atenção de toda as mulheres no Egito, ao demonstrar um incrível poder de autocontrole e retidão ao recusar as insistentes investidas da esposa do Potifar, uma mulher extremamente atraente, obriga todos a controlarem seus impulsos e demonstrarem autocontrole mesmo nas situações mais difíceis.

Mas qual é a mensagem transmitida por este ensinamento do Talmud? Já não estamos obrigados a fixar nosso tempo de estudo de Torá diariamente, independente do nosso status financeiro? Não temos de qualquer maneira a obrigação de controlar os nossos impulsos e evitar qualquer tipo de prazer proibido na vida? Então por que o Talmud traz estes três exemplos como se fossem a fonte da nossa obrigação?

Existe algo interessante na psicologia do ser humano. As pessoas normalmente estão cientes de suas responsabilidades e obrigações na vida, porém também estão cientes de que há situações que estão além do seu controle e que, nestes casos, elas não podem ser responsabilizadas por seus atos. Este conceito de "força maior", isto é, se deparar com situações que estão fora do nosso controle, acaba tornando-se uma desculpa para os nossos comportamentos. Por exemplo, quando a pessoa tem trabalho demais no escritório e se sente impedida de ir para a sinagoga estudar Torá, ou quando a pessoa está presa em uma situação da qual ela não consegue se libertar, ela se sente completamente isenta de responsabilidades, pois considera que nestas condições todos os seus atos são justificáveis.

Porém, como medimos as situações de dificuldade para decidirmos se são realmente situações de "força maior" ou não? Não fazemos isso de acordo com os nossos próprios acertos e erros, e sim comparando com os acertos e erros dos outros. Baseados em padrões criados por outras pessoas nós determinamos se certa situação com a qual nos confrontamos está além do nosso controle. Se nós vemos outros tropeçando em certas dificuldades que nós também estamos enfrentando, sentimos imediatamente um alívio, pois consideramos que é algo que está além da nossa capacidade de controle.

Este é o grande louvor que o Talmud traz para os três grandes Tzadikim citados, Hilel, Rav Elazar e Yossef. Qualquer pobre poderia argumentar que suas dificuldades financeiras são uma "força maior" que o isentam de suas obrigações no estudo da Torá e em outras Mitzvót. O mesmo ocorreria para pessoas muito ricas ou muito bonitas. Mas a grande realização destes três Tzadikim foi que eles estabeleceram novos padrões, e assim elevaram nossos modelos de comparação, ensinando que mesmo em situações muito difíceis ainda somos plenamente responsáveis por nossos atos. Eles se enxergaram como sendo independentes dos padrões estabelecidos pelos que estavam em sua volta. Foi justamente por isso que conseguiram transcender os padrões e estabelecer novos limites. Eles demonstraram que é humanamente possível atingir estes limites, e que tudo depende do nosso próprio esforço. Depois das conquistas deles, colocar a culpa na quantidade de trabalho ou nas dificuldades financeiras tornaram-se apenas desculpas.

É justamente esta habilidade de criar uma nova realidade, através da qual as pessoas precisam comparar os seus esforços com os esforços das pessoas que alcançaram níveis mais altos, é o que os nossos sábios chamam de "bom nome". Na realidade o bom nome não é uma quarta coroa, e sim o título conferido àqueles que estabeleceram novos padrões de excelência nas três coroas anteriores. É por isso que a Mishná diz que a "quarta" coroa está acima das três anteriores, pois é a coroa daqueles que superaram os limites e se tornaram novos modelos do povo judeu.

Isto também nos remete diretamente à Festa de Chánuka, simbolizada pela Menorá. O clima na época da dominação grega era de tristeza e submissão. Mas os Chashmonaim, um pequeno grupo de Cohanim, se levantaram com coragem e enfrentaram o poderoso exército grego. Eles também decidiriam que não queriam acender a Menorá com óleo impuro, apesar de ser permitido pela Halachá (Lei). Através destes esforços eles definiram novos padrões de pureza e de "Messirut Nefesh" (comprometimento com os valores judaicos, independente do custo). Por isso o conceito de "Shem" (nome) é encontrado em vários símbolos de Chánuka: no "Shemen" (óleo), na quantidade de dias que o milagre durou (Shemone=oito), nos Cohanim que ajudaram a libertar o povo judeu (Chashemonaim), e finalmente na Menorá, que carrega a coroa do bom nome.

Podemos nos contentar em ficar dentro dos limites estabelecidos pelos outros à nossa volta, ou podemos decidir que queremos ultrapassar estes limites. No judaísmo o número 7 representa o natural, enquanto o número 8 representa o sobrenatural. É por isso que Chánuka representa o potencial do povo judeu de transcender. Que possamos utilizar a força espiritual de Chánuka para vencer nossas dificuldades, derrotar o comodismo e superar os nossos limites.
SHABAT SHALOM e CHÁNUKA SAMEACH
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 41:1-44:17, 1 Rs. 3:15-4:1

sábado, 5 de dezembro de 2015

DEMONSTRANDO CARINHO - PARASHAT VAIESHEV E CHÁNUKA 5776

Rogério Kaufman (nome fictício) era um experiente alpinista, mas em uma de suas escaladas na Cordilheira dos Andes ele acabou se perdendo do resto do grupo. Em pouco tempo ele estava sem provisões, sem água e quase congelando. Desesperado, começou a sentir que a morte se aproximava. Seu celular já estava com pouca bateria e ele tentou chamar o socorro, mas não havia mais créditos.

Preparando-se para o seu fim, Rogério escutou seu celular tocar.  Era a telefonista da empresa de celular, informando que a empresa tinha uma excelente promoção e queria saber se ele estava interessado em adquirir um novo plano de ligações. Rogério aproveitou aquele "milagre" e começou a pedir ajuda para a telefonista. Ele levou cerca de meia hora para convencê-la de que aquilo não era um trote. Em seguida, ele levou mais seis horas para guiar o helicóptero de resgate até onde ele estava. Sua bateria não terminou durante todo aquele longo tempo de uso pois a temperatura congelante fez com que ela durasse muito mais" (História real)

A pessoa que quer ver a Supervisão Particular de D'us pode enxergá-la em cada pequeno acontecimento de nossas vidas. Pode ser na promoção especial da companhia de celular ou no tempo frio que faz a bateria durar mais. O importante é nunca esquecer que tudo isto aconteceu somente porque D'us decidiu manter Rogério vivo. Quem presta atenção nos detalhes percebe quanto amor recebemos de D'us a cada momento.
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Nesta semana lemos a Parashat Vaieshev, que começa a descrever a história dos filhos de Yaacov, em especial a saga de Yossef, que foi vendido como escravo por seus próprios irmãos, foi levado ao Egito acorrentado e acabou se tornando o vice-rei, a segunda pessoa mais poderosa do Império Egípcio. O que motivou a venda de Yossef foi a inveja dos seus irmãos, pelo fato de Yaacov sentir um amor especial por Yossef. E este amor especial de Yaacov por Yossef nos remete à próxima festa do calendário judaico: Chánuka.

No anoitecer deste próximo domingo (06/12) acenderemos a primeira vela de Chánuka, recordando os enormes milagres que D'us fez aos nossos antepassados na época da dominação grega. O Talmud (Shabat 21b) afirma que o motivo pelo qual nossos sábios fixaram esta festa para todas as gerações é a recordação do milagre do óleo. Os gregos haviam dominado os judeus e proibido os Serviços do Beit Hamikdash (Templo Sagrado). Quando os judeus conseguiram finalmente expulsar os gregos, quiseram imediatamente recomeçar os Serviços do Beit Hamikdash, entre eles o acendimento diário da Menorá. Porém, um único pote de óleo foi encontrado intacto e lacrado, e isto era suficiente para acender a Menorá por apenas um dia, mas ela ardeu milagrosamente por 8 dias, o tempo suficiente para que mais óleo puro fosse produzido.

Porém, este comentário do Talmud desperta um grande questionamento. Na realidade, em Chánuka aconteceram dois grandes milagres, pois além do milagre do óleo também aconteceu o milagre da batalha. O pequeno exército dos Chashmonaim, um grupo de Cohanim (sacerdotes), se revoltou contra o poderoso exército grego, o mesmo exército que havia alcançado vitórias militares no mundo inteiro. Os Chashmonaim, através da tática de guerrilhas, conseguiram expulsar os gregos, um milagre impressionante se compararmos o poderio militar do exército grego e a insignificância do exército dos Chashmonaim. Além do milagre da batalha ter sido algo gigantesco, certamente foi muito mais importante do que o milagre do óleo, pois a vitória militar possibilitou a derrubada da hegemonia grega e abriu o caminho para a retomada do cumprimento das Mitzvót, que haviam sido proibidas pelos gregos, enquanto o milagre do óleo não teve absolutamente nenhuma participação na libertação do povo judeu. Então por que a Festa de Chánuka foi estabelecida em recordação ao milagre do óleo, ao invés de ter sido estabelecida em recordação ao incrível milagre da vitória militar?

Explica o Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979) que D'us faz dois tipos de milagre. Um tipo de milagre são aqueles essenciais, que tem uma necessidade absoluta de acontecer. Por exemplo, o milagre do "Man" que caiu no deserto e alimentou todo o povo judeu durante os 40 anos em que eles permaneceram no deserto foi um milagre extremamente necessário, pois possibilitou que os judeus ficassem vivos e bem alimentados mesmo em um ambiente tão inóspito como o deserto. Porém, há outro tipo de milagre, que são aqueles não essenciais. Mas se o milagre é "desnecessário", então para que D'us o faz? Pois a principal função deste tipo de milagre "desnecessário" é mostrar o amor de D'us por aquele que o recebe.

Há na Torá diversos exemplos deste segundo tipo de milagre. Quando David Hamelech matou seu oponente Goliat (Golias) com uma pedrada, o impacto deveria ter derrubado Goliat para trás, mas de maneira milagrosa ele caiu para frente. Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que D'us fez este milagre apenas para que David tivesse que dar menos passos quando foi cortar a cabeça de Goliat. Este é claramente um milagre que não era necessário, mas que D'us fez para demonstrar Seu amor por David.

Também com Avraham percebemos o mesmo tipo de milagre. Quando D'us mostrou para Avraham a Terra de Israel e prometeu que seus descendentes herdariam aquela terra para sempre, está escrito: "Por favor, levante seus olhos e veja, a partir do lugar em que você se encontra, norte, sul, leste e oeste" (Bereshit 13:14). De acordo com o Rav Chaim ben Atar zt"l (Marrocos, 1696 - Israel, 1743), mais conhecido como Or HaChaim, as palavras "a partir do lugar em que você se encontra" parecem desnecessárias. Ele explica que estas palavras escondem um grande milagre que D'us fez para Avraham. A partir do lugar onde Avraham se encontrava, sem nem mesmo precisar virar a cabeça, ele conseguiu ver a Terra de Israel inteira, em todas as direções. Novamente um milagre que não tinha necessidade de acontecer, mas que ocorreu como uma demonstração do amor de D'us por Avraham. Estes dois exemplos de milagres ocorreram como uma expressão do amor infinito de D'us por aqueles que O servem com dedicação. Na realidade, quanto menor a necessidade de um milagre, maior a demonstração do amor de D'us pela pessoa que recebe.

Neste contexto nós conseguimos entender a enorme importância do milagre do óleo. Enquanto os milagres que levaram à incrível vitória militar foram essenciais para a continuidade do povo judeu, o milagre do óleo não tinha uma necessidade fundamental de acontecer. E é justamente por esta pouca necessidade que o milagre do óleo representa uma demonstração de amor muito maior de D'us. Justamente por ter sido um milagre "desnecessário", demonstrou a afeição enorme de D'us pelos Chashmonaim.

Mas este conceito desperta outro questionamento. De acordo com os exemplos citados anteriormente, vemos que D'us somente realiza milagres "desnecessários" para grandes Tzadikim (Justos), como Avraham Avinu e David HaMelech, pessoas que andavam de forma muito reta nos caminhos de D'us. Por que no caso do óleo D'us também escolheu mudar a natureza e fazer um milagre "desnecessário" para os Chashmonaim?

A resposta está em um importante conceito espiritual, de que D'us se comporta "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), isto é, Ele se comporta de acordo com o nosso comportamento. Quando os Chashmonaim conseguiram finalmente expulsar os gregos e retomar o Beit Hamikdash, eles quiseram imediatamente reiniciar os Serviços Divinos que haviam sido interrompidos. Um dos Serviços que eles queriam retomar imediatamente era justamente o acendimento da Menorá, mas somente um pote de óleo lacrado foi encontrado, o que seria suficiente para manter a Menorá acesa por um único dia. Porém, levaria mais 7 dias para que mais óleo puro fosse produzido. Nossos sábios explicam que, naquelas condições nas quais o povo judeu se encontrava, seria tecnicamente permitido até mesmo utilizar óleo impuro, mas os Chashmonaim quiseram embelezar a Mitzvá do acendimento da Menorá, se esforçando para fazê-la da melhor forma possível, como um sinal do grande amor que sentiam por D'us e por Suas Mitzvót. Como eles estavam dispostos a ir além da lei, então também D'us se comportou com eles "além da lei", quebrando as leis da natureza e fazendo um grande milagre "desnecessário", como demonstração do Seu amor por eles.

Isto nos ajuda a entender também uma das Halachót (Leis) de acendimento da Chanukiá. De acordo com a Halachá, para cumprirmos a Mitzvá do acendimento das velas de Chánuka da forma mais básica é suficiente que cada pessoa acenda uma única vela em cada uma das noites de Chánuka. Mas o costume adotado por todo o povo judeu é de se esforçar e fazer além do básico, cumprindo a Mitzvá da maneira mais completa e bonita possível, acrescentando uma vela a cada dia de Chánuka. Isto é uma lembrança do esforço dos Chashmonaim para embelezar a Mitzvá do acendimento da Menorá, e do fato de D'us ter "embelezado" Seu ato, medida por medida, fazendo um milagre "desnecessário" pelo povo judeu.

Chánuka é uma festa única e incrível, na qual revivemos o milagre do óleo e o amor mútuo que existe entre o povo judeu e D'us. E um dos ensinamentos de Chánuka que também devemos trazer e aplicar aos nossos dias é tentar cumprir cada Mitzvá da forma mais completa e bonita possível, pois isto é uma grande demonstração do nosso amor por D'us. E quanto mais nos aproximarmos dos caminhos dos nossos antepassados, que viviam de forma correta e justa, mais traremos para nós mesmos, e para o mundo inteiro, o amor recíproco de D'us.
SHABAT SHALOM e CHÁNUKA SAMEACH
Rav Efraim Birbojm
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Gn. 37:1-40:23, Am. 2:6-3:8

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

APRENDENDO COM O MAL - PARASHAT VAISHLACH 5776

"Um grupo de doze alunos americanos que estudavam em uma Yeshivá em Israel estava certo dia reunido durante o almoço relembrando sobre as delícias da gastronomia americana. Eles queriam muito comer uma boa refeição e sentiam saudades da boa comida americana, mas não encontravam em Israel um lugar que saciasse essa vontade.

Durante o período de férias eles tiveram uma incrível ideia. Coletaram cerca de cinquenta dólares de cada um dos alunos, o suficiente para comprar uma passagem aérea de ida e volta aos Estados Unidos. Um dos alunos então embarcou, em uma jornada de um dia e meio de viagem, com o único propósito de trazer comida de um restaurante famoso dos Estados Unidos. O rapaz foi em um dia e voltou, triunfante, no dia seguinte, com a deliciosa comida dentro de sua mala" (História Real, retirada do livro "Impact!", de autoria de Dovid Kaplan).

Aprendemos dos nossos desejos que, quando consideramos algo realmente importante, nos esforçamos no limite para alcança-lo. Por que não fazemos o mesmo em relação ao nosso crescimento espiritual? Estaríamos dispostos a fazer os mesmos esforços se fosse para ir aos Estados Unidos comprar um livro ou escutar uma aula de Torá? 

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A Parashat desta semana, Vaishlach, começa com a volta de Yaacov Avinu depois de mais de 30 anos longe de casa, dos quais 20 anos foram passados na casa de seu tio Lavan, trabalhando para ele. Como o principal motivo da viagem de Yaacov havia sido para fugir da fúria de seu irmão Essav, que queria matá-lo, a primeira providência de Yaacov foi enviar mensagens apaziguadoras para seu irmão, na tentativa de promover um reencontro amigável. Ele começou com a seguinte mensagem: "Com Lavan eu vivi, e permaneci até agora" (Bereshit 32:5). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que as palavras de Yaacov tinham um duplo sentido, pois a palavra "vivi" em hebraico é "גרתי", que de maneira rearranjada forma a palavra "תריג", equivalente ao valor númerico 613, o número de Mitzvót da Torá. De acordo com Rashi, Yaacov estava dizendo para seu irmão Essav: "Apesar de ter passado tanto tempo com Lavan, uma pessoa completamente desonesta e trapaceira, mesmo assim eu cumpri as 613 Mitzvót da Torá e não aprendi com os maus atos dele".

Porém, esta explicação do Rashi é difícil de ser entendida, pois esta não parece ser uma mensagem de conciliação. Ao contrário, aparentemente a intenção de Yaacov era intimidar seu irmão Essav, mostrando que ele era uma pessoa íntegra e, por isso, certamente D'us o protegeria em um possível confronto. Portanto, se o propósito era uma tentativa de apaziguar seu irmão, como entender as palavras aparentemente intimidadoras de Yaacov?

O Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, explica as palavras de Yaacov de uma maneira interessante. Ele afirma que Yaacov não estava atacando Essav com esta afirmação, ao contrário, estava tranquilizando-o. Quando Yaacov disse que cumpriu as Mitzvót e não havia aprendido com os atos de Lavan, ele estava fazendo uma grande autocrítica, e por isso estava comunicando a Essav que não havia nada a temer.

Mas qual foi exatamente a autocrítica de Yaacov? Nossos sábios explicam que Lavan era uma pessoa extremamente ágil em cometer maldades e trapaças. Quando permitiu que suas filhas se casassem com Yaacov, cobrou muito caro pelo dote, fazendo com que Yaacov tivesse que trabalhar 7 anos por cada filha, um tempo absurdo. Além disso, ele trocou as filhas no momento do casamento, não cumprindo sua palavra. E para completar, Lavan trocava as condições do salário de Yaacov a todo instante, sempre buscando formas de levar vantagem. Yaacov estava dizendo para Essav que, apesar de ter cumprido as 613 Mitzvót durante todos aqueles anos, ele não havia feito com o mesmo fervor que Lavan cometia as suas transgressões. Yaacov estava reconhecendo que não havia aprendido a ter agilidade nos seus bons atos no mesmo nível que Lavan tinha nos seus maus atos.

Desta explicação do Chafetz Chaim aprendemos uma incrível lição: nosso cumprimento de bons atos é julgado em comparação com a forma como os Reshaim (malvados) cometem suas transgressões. Se os Reshaim fazem seus maus atos com mais entusiasmo do que nós cumprimos nossos bons atos, isto se transforma em uma grande acusação espiritual contra nós. Por isso temos que tomar muito cuidado para sempre fazermos as Mitzvót com agilidade, alegria e fervor, pois é assim que infelizmente os Rashaim cometem as suas inúmeras transgressões.

Este conceito também é trazido pela Torá em outro episódio que teve grande importância para o povo judeu. Quando Bilaam, o grande profeta dos outros povos, partiu para amaldiçoar o povo judeu, a Torá descreve que ele se levantou cedo de manhã, utilizando a linguagem "Vaiakam" (se levantou). O Midrash (parte da Torá Oral) nos descreve que quando D'us viu esta agilidade de Bilaam para fazer a enorme transgressão de amaldiçoar um povo inteiro, Ele exclamou: "Seu Rashá (malvado)! Avraham, o patriarca deles, já te superou!", pois está escrito (em relação ao episódio do sacrifício de Ytzchak): "E (Avraham) madrugou ("Vaiashkem")" (Bamidbar 22:21). Apesar de a linguagem "Vaiakam", que está escrita em relação a Bilaam, se referir a acordar cedo, a linguagem "Vaiashkem", que está escrita em relação a Avraham, se refere a acordar ainda mais cedo. Portanto, D'us estava informando a Bilaam que Avraham, em sua vontade de cumprir a vontade de D'us e sacrificar seu filho, havia se levantado mais cedo do que Bilaam se levantou quando tentou amaldiçoar o povo judeu. Mas que mensagem o Midrash está nos ensinando? Na prática o que importa qual dos dois acordou mais cedo?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que a grande força de maldição de Bilaam era mostrar para D'us falhas nas pessoas ou povos, e com isso despertar um Julgamento Celestial mais rigoroso sobre seus inimigos. Foi justamente isto que ele tentou fazer contra o povo judeu. Bilaam queria retratar o povo judeu de uma maneira negativa ao mostrar que ele fazia seus atos de maldade com muito mais agilidade e fervor do que o povo judeu cumpria suas Mitzvót. Isto realmente teria se transformado em uma grande acusação espiritual contra o povo judeu e teria trazido consequências trágicas. Porém, D'us respondeu para Bilaam que o patriarca do povo judeu, Avraham, já havia demonstrado um nível ainda maior de agilidade e fervor no cumprimento das Mitzvót do que Bilaam havia demonstrado quando cometeu suas maldades. O que protegeu o povo judeu da enorme acusação espiritual que surgiria naquele momento foi que os descendentes de Avraham herdaram dele esta característica de agilidade nas Mitzvót, e por isso possuíam suficientes méritos para vencer a acusação de Bilaam.

No "Shemá Israel", que nós repetimos duas vezes todos os dias, dizemos: "E amarás a Hashem, teu D'us, com todo teu coração" (Devarim 6:5). A palavra "coração" está escrita de uma maneira diferente, "לבבך", e não como seria esperado, "לבך". O Talmud (Brachót 54a) aprende do fato de a letra "ב" estar escrita duas vezes que devemos amar a D'us com nossos dois "Yetzer", com o nosso "Yetzer Hatov" (boa inclinação) e também com o nosso "Yetzer Hará" (má inclinação). Mas como podemos utilizar nossa má inclinação para servir a D'us?

Uma das maneiras é observando a agilidade e fervor que utilizamos para ir atrás dos nossos desejos e tentar aplicar esta mesma agilidade em relação ao nosso Yetzer Hatov. Para preencher nosso desejo de comer algo ou de obter algum outro prazer material nós estamos dispostos a incríveis esforços e sacrifícios. Se aprendermos com a força da nossa má inclinação, poderemos utilizá-la como modelo e canalizá-la para o nosso lado espiritual. Atualmente as pessoas dedicam incontáveis horas para satisfazer seus desejos por dinheiro e honra. Muitos chegam a passar noites sem dormir para atingir seus objetivos. Algumas empresas mantêm turnos de madrugada para aqueles que passam a noite trabalhando no escritório. Por que não utilizar este mesmo potencial para manter a quantidade de horas de estudo de Torá diária que definimos para nós, ao invés de estarmos sempre procurando desculpas para justificar a nossa "falta de tempo" com os nossos compromissos espirituais?

O Rav Noach Weinberg zt"l, que dedicou a vida a trazer judeus afastados de volta ao judaísmo, dizia que aprendia muito com a forma de atuação dos nazistas, e incentivava que fosse utilizada como modelo para nosso Serviço Divino. Os nazistas matavam os judeus de forma metódica e sistemática. Investiam muito tempo e pensamento para desenvolver técnicas para matar cada vez mais judeus utilizando cada vez menos dinheiro. Desta maneira eles conseguiram exterminar 6 milhões de judeu na Europa. Será quer nos organizamos e nos motivamos como os nazistas em nossos esforços para trazer os judeus afastados de volta ao judaísmo? Investimos em maneiras de trazer cada vez mais judeus? Se indo contra D'us os nazistas mataram 6 milhões de pessoas, certamente poderíamos salvar muito mais do que 6 milhões de judeus se se nos esforçássemos e nos organizássemos para fazer o bem da mesma maneira que os nazistas se esforçaram para fazer o mal. Se utilizarmos como modelo aqueles que fazem o mal, para aprender suas estratégias e ferramentas, além do seu nível de comprometimento e dedicação, certamente venceremos os atuais desafios do povo judeu.

Não é necessário nem mesmo procurar nos atos dos Reshaim inspiração para o nosso crescimento espiritual. Se procurarmos em nossos próprios atos, certamente encontraremos áreas nas quais sentimos mais entusiasmo e fervor do que no nosso Serviço Divino. Pode ser com comida, com trabalho, com esporte ou qualquer outra área. Então temos que tentar internalizar que racionalmente o cumprimento das Mitzvót certamente traz muito mais satisfação do que qualquer outro prazer material, e com isso poderemos tentar atingir em nossa espiritualidade a mesma alegria e entusiasmo. Pois se os Reshaim podem fazer muito, mesmo indo contra D'us, imagine o verdadeiro potencial dos que caminham junto com Ele.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn. 32:3 -36:43, Ob.1:1-21