sábado, 31 de outubro de 2015

QUANTO VALE UM BOM PENSAMENTO? - PARASHAT VAIERÁ 5776

"Há muitos anos, um rabino certa vez entrou em uma pequena loja de Tel Aviv e viu que havia dois jovens, vestidos com roupas de alunos de Yeshivá, atendendo clientes. O homem descobriu que os dois rapazes eram filhos do dono da loja, e como estavam de férias, aproveitavam para ajudar o pai. Eram extremamente educados e responsáveis, e o comportamento deles chamou a atenção do rabino. O rabino perguntou ao pai dos rapazes:

- Desculpe a curiosidade, mas que bom ato você fez para ter o mérito de ter filhos assim tão maravilhosos?

O homem respondeu que não se lembrava de nada especial, porém o rabino insistiu, dizendo que era impossível que ele tivesse filhos tão especiais sem nenhum mérito. O homem ficou pensativo por alguns instantes e depois disse:

- Lembrei-me de algo, mas acho que foi um ato pequeno. Quando eu era jovem e vivia na Rússia, certa vez consegui juntar uma quantia um pouco maior de dinheiro para Tzedaká. Perguntei para o rabino da cidade o que fazer com aquela soma, e ele me falou que havia dois estudantes que estavam começando a se destacar no estudo da Torá, e que ele gostaria de mandá-los para a Yeshivá de Slobodka, na Lituânia, onde eles poderiam crescer muito mais. Aquele dinheiro seria muito importante para eles se manterem lá por algum tempo e poderem se dedicar integralmente aos estudos. Então eu dei para o rabino o dinheiro, e depois escutei que os rapazes realmente tiveram sucesso nos estudos.

- Que interessante - falou o rabino - Mas você se lembra do nome dos dois rapazes que você ajudou?

- Os nomes eram Yaacov e Aharon. Se não me engano, as famílias eram Kamenetzki e Kotler..."

Simplesmente aquele homem havia ajudado dois jovens estudantes de Torá a se transformarem em dois dos maiores líderes espirituais da geração passada, o Rav Yaacov Kamenetzki zt"l e o Rav Aharon Kotler zt"l. Pequenos bons atos e boas intenções podem trazer para nós mesmos, e para todo o povo judeu, muitos bons frutos (História Real). 

**************************************************** 

Nesta semana a Parashat Vaierá continua descrevendo os 10 testes de Avraham, até chegar ao teste mais difícil, a "Akeidat Itzchak", no qual Avraham teve que controlar suas emoções ao nível de estar pronto a sacrificar seu próprio filho. No final, apesar de toda a preparação de Avraham, o sacrifício não ocorreu, como está escrito: "Avraham construiu um altar, arrumou as madeiras, amarrou seu filho Itzchak e colocou-o sobre o altar... E Avraham estendeu sua mão e pegou a faca para sacrificar seu filho. E um anjo de D'us chamou-o dos céus... Então ele disse: "Não estenda sua mão contra o rapaz, não faça nada a ele, pois agora eu sei que você tem temor a D'us" (Bereshit 22:9-12).

Porém, destes versículos surge uma pergunta: por que o anjo repetiu o comando a Avraham? Se ele já havia dito "não estenda sua mão contra o rapaz", por que acrescentou "não faça nada a ele"? Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que quando o anjo pediu a Avraham para que parasse, Avraham respondeu: "Então me deixe ao menos fazer um pequeno corte no meu filho Itzchak, para que minha vinda até aqui não tenha sido em vão". É por isso que o anjo acrescentou: "Não faça nada a ele", isto é, não faça nem um pequeno corte. Neste momento o anjo exclamou: "Agora eu sei que você tem temor a D'us", pois a reação de qualquer pessoa, ao receber o aviso de que não precisava mais sacrificar seu filho, seria pular de alegria. Mas Avraham estava mais preocupado com o comando de D'us do que com suas próprias emoções. Por isso o anjo declarou como era incrível o temor a D'us de Avraham.

Mas o que exatamente incomodou Avraham, que o levou a pedir ao anjo a permissão de fazer ao menos um pequeno corte em seu filho Itzchak? Responde o Rav Yechiel Tauber que todas as vezes que fazemos uma Mitzvá, recitamos uma Brachá imediatamente antes do seu cumprimento. Por exemplo, antes do acendimento das velas de Shabat recitamos "Lehadlik Ner Shel Shabat". Se Avraham estava sacrificando seu filho para cumprir um comando de D'us, e já estava com a faca na mão, então certamente já havia pronunciado a Brachá referente à oferenda de sacrifícios. E se o anjo interrompeu-o no meio, significa que Avraham pronunciou a Brachá mas não conseguiu finalizar o ato. Avraham tinha tanto temor a D'us que ficou desesperado com a possibilidade de ter feito a transgressão de pronunciar uma Brachá em vão. Por isso Avraham pediu para pelo menos fazer um pequeno corte em seu filho, para que a Brachá pudesse recair sobre algo e não fosse em vão. Mas se realmente havia o problema de uma Brachá em vão, então por que o anjo não salvou Avraham da transgressão, permitindo-o de fazer um pequeno corte em seu filho? A recompensa desta incrível Mitzvá de Avraham, de estar disposto a sacrificar seu próprio filho, foi uma transgressão?

Existe um conceito transmitido pelos nossos sábios de que todo aquele que morre "Al Kidush Hashem" (santificando o Nome de D'us) tem o mérito de ir diretamente para o Olam Habá (Mundo Vindouro). Algumas gerações do povo judeu foram confrontadas com a escolha de se converter para outra religião ou morrer, e muitos conseguiram vencer o teste. Isto também se aplica a um judeu que morre em um atentado terrorista, pois ele morreu pelo simples fato de ser judeu, e isto santifica o Nome de D'us.

Porém, sabemos que as Mitzvót precisam ser feitas com "Kavaná" (intenção). Alguém que cumpre uma Mitzvá "sem querer", sem saber que a está cumprindo, certamente não receberá recompensa por isso. Mas aparentemente este conceito não se aplica a todos os que morrem "Al Kidush Hashem". Por exemplo, nos casos em que terroristas suicidas entram em um ônibus lotado e matam muitos inocentes, todos os que faleceram estão incluídos entre os que santificaram o nome de D'us. Porém, quantos deles tinham realmente intenção de morrer em nome de D'us? Entendemos o mérito das pessoas que na Inquisição deram suas vidas por escolha, mas como isto se aplica àqueles que morreram em um atentado sem nenhuma intenção de dar suas vidas por D'us?

Explica o Rav Ezriel Tauber que a resposta está em um incrível conceito ensinado pelo Talmud (Kidushin 40a): "D'us junta uma boa intenção a um bom ato". Isto significa que, se uma pessoa tem boas intenções mas as circunstâncias não permitem que ela faça o que pretendia, então D'us pega esta boa intenção e conecta com outro ato para que ela possa receber o mérito. Na prática como isto funciona? Muitas vezes temos boas intenções, mas não conseguimos realizá-las por motivos alheios à nossa vontade. Por exemplo, uma pessoa vai visitar um doente no hospital, mas seu carro quebra no meio do caminho. Outras vezes fazemos bons atos, mas sem nenhuma intenção. Por exemplo, quando fazemos a nossa Tefilá (reza) pensando nos negócios ou planejando as férias. D'us, em Sua misericórdia infinita, pega aquela boa intenção que não estava associada a nenhum ato e conecta com algum ato que ficou sem a intenção apropriada, dando méritos para a pessoa.

Isto ocorre também a nível comunitário. O povo judeu inteiro está conectado entre si, como se fosse uma única entidade. Há uma conexão espiritual entre todos os judeus do mundo, fazendo com que os méritos dos bons atos de cada judeu também beneficiem outros judeus. Por exemplo, quando um judeu faz uma incrível doação de milhões de reais para a construção de uma sinagoga, mas exige que seu nome apareça com muito destaque, demonstra estar procurando apenas reconhecimento e honra pelo seu ato. Neste caso temos um incrível ato de doação, mas com uma intenção inadequada. Do outro lado do mundo, um judeu muito pobre está para comer seu prato de comida, que é tudo o que ele tem na vida, quando chega outra pessoa que não tem o que comer. Em um incrível ato de doação, o homem pobre divide seu prato com o outro pobre esfomeado. Neste caso foi feita uma doação pequena, de meio prato de comida, mas com uma intenção incrível, de alguém que doou metade de tudo o que tinha. Então D'us une os dois, o ato da doação da sinagoga com a intenção daquele que doou metade de tudo o que tinha, e o benefício de um grande ato com uma grande intenção vai para o povo judeu inteiro.

Com este incrível conceito espiritual podemos responder nosso questionamento. Quando Avraham foi sacrificar seu filho, ele tinha a intenção perfeita de cumprir a vontade de D'us, mesmo acima de suas próprias emoções. Cada pensamento, cada ato de preparação, cada palavra da Brachá que ele pronunciou antes de sacrificar seu filho não foram em vão. Eles ficaram guardados para sempre, para os seus descendentes. Avraham teve a intenção, mas no final faltou-lhe o ato. Então todo judeu que morre "Al Kidush Hashem", mesmo que não tenha nenhuma intenção, recebe aquela Brachá de Avraham, fazendo com que seu ato fique completo e sagrado. É como se o ato de Avraham, de sacrificar seu filho para D'us, tivesse realmente acontecido, mas com um lapso de tempo, durante toda a nossa história, se materializando em cada judeu que morre santificando o nome de D'us. Cada vez que um judeu dá a vida por D'us, é como se Itzchak estivesse sendo sacrificado por Avraham sobre o altar.

Aprendemos daqui o valor de cada bom ato, e mais do que isso, o valor de cada boa intenção. Podemos receber o benefício imediatamente, mas às vezes o mérito fica guardado para o futuro. Algumas vezes pode até mesmo beneficiar outras pessoas e não a nós mesmos. Um bom ato ou uma boa intenção nunca voltam vazios, sempre trazem consigo muita Brachá, para cada indivíduo ou para o povo judeu como um todo. A força dos bons atos e das boas intenções é tão grande que até hoje, quase 4 mil anos depois, ainda recebemos os benefícios dos atos de Avraham Avinu, que mesmo quando era submetido a difíceis testes, encontrava forças para cumprir a vontade de D'us. Da mesma maneira, se nos esforçarmos, nossos bons atos e intenções poderão iluminar o mundo inteiro.  

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn.18:1-22:24

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

FUGINDO DA BRIGA - PARASHAT LECH LECHÁ 5776

"Manter financeiramente uma Yeshivá envolve um esforço quase sobre-humano. São muitos gastos, como os salários dos funcionários e a manutenção diária. Um dos maiores gastos é com o aluguel de um local para a Yeshivá, que precisa ser grande o suficiente para abrigar todas as atividades necessárias para o seu bom funcionamento.

A Yeshivá de Novardok, na Rússia, como todas as Yeshivót, também passava por estas dificuldades financeiras, mas parecia que a sorte da Yeshivá estava mudando. Um judeu muito rico morreu na Alemanha e deixou em seu testamento um prédio inteiro para a Yeshivá de Novardok. O Rav Yosef Yoizel Horowitz zt"l (Lituânia, 1847 - Ucrânia, 1919), fundador da Yeshivá, rapidamente embarcou em um trem em direção à Alemanha para cuidar pessoalmente do caso.

Porém, durante a viagem, o Rav Yosef Yoizel recebeu uma mensagem de que outra Yeshivá também estava enviando uma delegação à Alemanha para competir pelo prédio. Imediatamente ele interrompeu sua viagem e voltou para a Yeshivá, abrindo mão daquela herança. Ele entendeu que a situação facilmente poderia se transformar em uma Machlóket (disputa), e por isso desistiu, mesmo sabendo que estava certo"

O Rav Yosef Yoizel sabia quanto valia a doação de um prédio, mas acima de tudo ele sabia quais eram as consequências destruidoras de uma Machlóket. Ao abrir mão da herança, ele demonstrou a sua grandeza espiritual. 
**************************************************** 
A Parashat desta semana, Lech Lechá, começa a contar detalhes da vida do nosso primeiro patriarca, Avraham Avinu, focando em especial os 10 testes que ele passou com sucesso. Em um dos testes, Avraham teve que ir com sua esposa Sara e seu sobrinho Lót para o Egito, após uma grande fome na terra de Israel. No Egito eles enriqueceram e voltaram com muitos rebanhos.

Porém, algo aconteceu no caminho de volta. Os pastores de Avraham começaram a brigar com os pastores de Lót, pois os pastores de Lót não se importavam em deixar seus animais pastarem sem autorização dos donos dos campos, o que é considerado roubo, enquanto Avraham era muito rigoroso e nunca permitia que seus animais comessem em campos particulares. Os pastores de Avraham começaram a repreender os pastores de Lót, e a discussão começou a se inflamar. Neste momento Avraham tomou uma atitude drástica, sugerindo a Lót que se separassem imediatamente, como está escrito: "E disse Avram para Lót: 'Por favor, que não haja briga entre mim e você, e entre meus pastores e seus pastores, pois nós somos irmãos… Por favor, se separe de mim. Se você for para a esquerda eu irei para a direita, e se você for para a direita então eu irei para a esquerda" (Bereshit 13:8,9). Porém, sabemos que Lót nunca foi uma boa companhia para Avraham. Lót tinha uma péssima índole e traços de caráter muito negativos, o que ele demonstrou ao escolher viver em Sdom, um lugar de pessoas egoístas e cruéis. Então por que Avraham esperou até este momento para se separar dele?

A pergunta fica ainda mais forte ao observarmos o versículo que vem logo após a separação: "E D'us disse para Avram após Lót ter se separado dele" (Bereshit 13:14). As palavras "após Lót ter se separado dele" parecem ser desnecessárias. Segundo Rashi (França, 1040 - 1105), a Torá está nos ensinando que todo o tempo em que Lót estava com Avraham, D'us não se revelou para ele. Isto significa que Avraham não pôde experimentar seu alto nível de profecia, pois a influência negativa de Lót mantinha a Presença Divina afastada dele. O versículo veio ressaltar que apenas quando Lót se afastou de Avraham é que D'us apareceu novamente para ele. Por que Avraham não havia se afastado desde o início de Lót? E após ter aguentado a presença de Lót por tanto tempo, por que ele resolveu justamente neste momento se separar?

Responde o Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979) que do comportamento de Avraham aprendemos duas lições extremamente preciosas. A primeira lição é que certamente Avraham entendeu que Lót "bloqueava" sua espiritualidade. Para resolver o problema bastaria ele se afastar de seu sobrinho. Apesar disso, Avraham continuou próximo de Lót, em um enorme esforço para influenciá-lo de maneira positiva. Daqui aprendemos que ajudar de verdade o próximo implica em estar disposto a até mesmo abrir mão dos nossos ganhos e da nossa própria comodidade.

Porém, há uma lição talvez até mais importante. Se Avraham estava tão preocupado com o bem estar de Lót, então por que acabou se separando dele? Pois havia algo que Avraham não podia tolerar: uma Machlóket (disputa). Quando ele viu a briga que se iniciou entre seus pastores e os pastores de Lót, percebeu que a tendência era a briga esquentar cada vez mais, tomando proporções cada vez maiores, e terminaria envolvendo também ele e Lót. Por isso Avraham sentiu a necessidade de imediatamente se separar de Lót. Apesar de saber o prejuízo que seria para Lót, Avraham entendeu que ainda assim era melhor do que permitir que uma Machlóket se iniciasse. Daqui podemos entender um pouco melhor o poder destrutivo de uma Machlóket, e até onde devem ir nossos esforços para evitá-la. A Machlóket é como um fogo, e depois de iniciada, é inevitável que traga brigas, amargura, ódio e Lashon Hará (malediscência).

Infelizmente nem sempre aprendemos esta importante lição de Avraham. Atualmente as Machlokót são uma verdadeira praga na nossa sociedade, afetando e dividindo até mesmo famílias e amigos. Quanta destruição é causada nas discussões por questões simples, que certamente não valem a pena quando comparadas com todo o sofrimento que causam. E o que mais dificulta o fim das Machlokót é que nenhuma das partes envolvidas está disposta a dar o primeiro passo em direção à paz. A honra não nos deixa buscarmos a reconciliação, pois temos medo de parecermos fracos. E esta nossa teimosia acaba nos causando muita dor e sofrimento.

O Rav Israel Meir HaCohen (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, exemplifica o efeito destrutivo que a honra pode causar ao ser humano utilizando uma história que aconteceu em sua época. Uma Machlóket iniciou-se entre dois homens por motivos banais, mas alcançou proporções tão absurdas que chegou a ameaçar destruir a família de uma das partes envolvidas, a ponto de a família inteira ficar sob risco de ir para a prisão. Quando a esposa, desesperada, implorou para que seu marido desistisse daquela Machlóket tão destrutiva, ele respondeu: "Estou disposto que minha família inteira vá para a prisão, contanto que eu possa vencer esta discussão!".

É raro o risco de uma Machlóket chegar ao nível de alguém ser fisicamente preso, mas certamente todos aqueles que se envolvem em Machlokót com amigos e familiares acabam entrando em outro tipo de prisão: a prisão emocional. A pessoa se torna incapaz de se livrar do constante ódio e negativismo, e vive sob constante ansiedade pela possibilidade de encontrar com a pessoa com quem está discutindo. Com isso, até as festas familiares se transformam em verdadeiras torturas, cheias de tensão e desconforto. Certamente é muito melhor passar por cima da nossa honra e ativamente iniciar o processo de paz, mesmo quando achamos que o outro lado é que está errado, do que todas as consequências negativas de uma Machlóket.

Uma das fontes da Torá da gravidade das Machlokót e das trágicas consequências àqueles que não as evitam é a história de Korach. Em uma disputa com Moshé Rabeinu pelo poder, Korach acabou morrendo em desgraça e causando a morte de centena de pessoas, incluindo sua família. E assim a Torá diz sobre esta disputa: "Nunca mais haverá como Korach e como seus seguidores" (Bamidbar 17:5). A priori poderíamos pensar que a Torá se refere a nunca mais haver uma Machlóket tão violenta e trágica como esta, mas esclarece o Rav Meir Leibush zt"l (Rússia, 1809 - 1879), mais conhecido como Malbim, que na verdade a Torá está nos ensinando outra preciosa lição. A Machlóket de Korach e Moshé teve uma singularidade que nunca mais ocorrerá em nenhuma outra Machlóket da história: o fato de um dos lados estar 100% certo e o outro lado estar 100% errado. Korach e seus seguidores estavam completamente equivocados em seus argumentos e eram totalmente culpados pelo desenvolvimento da Machlóket. Moshé, ao contrário, agiu de maneira completamente correta e justificável. Isto significa que na prática, se formos realmente sinceros, perceberemos que em qualquer Machlóket que estejamos envolvidos também carregamos alguma parcela de culpa na escalada de ódio e desentendimento, pois a Torá afirmou que nunca mais haveria uma Machlóket onde um dos lados tem 100% da razão. Portanto, o simples fato de uma pessoa pensar que ela está 100% certa já demonstra que ela está errada.

Convivemos com pessoas o tempo inteiro, sendo inevitável que surjam conflitos. Quando isto acontece, a pessoa fica diante de duas opções: tentar justificar seu comportamento e, de maneira teimosa e obstinada, se recusar a admitir suas falhas; ou engolir seu orgulho e escolher ser a pessoa "grande" da situação, que dele partirá a tentativa de reconciliação. Muitas questões não são simples e somente podem ser resolvidas com um diálogo sensato e moderado, mas a partir do momento que a pessoa verdadeiramente se comprometeu em buscar a paz, certamente terá sucesso.

Todos os dias, quando terminamos a Amidá (Reza Silenciosa), damos três passos para trás justamente antes das palavras "Aquele que faz a Paz nas alturas, que Ele traga a paz sobre nós". Isto nos ensina que, se queremos a paz de verdade, devemos começar dando três passos para trás, isto é, sabendo ceder para acabar com a discussão. A pessoa que se recusa a dar alguns passos para trás para chegar a um consenso apenas prolongará a aumentará a amargura na sua vida. Já aquele que aprende a ceder estará se comportando como Avraham Avinu, que fazia tudo o que podia para alcançar a paz. Apenas quando aprendermos a dar os três passos para trás, poderemos chegar a dar os três passos para frente na vida. 

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn.12:1-17:27

sábado, 17 de outubro de 2015

O SUCESSO DEPENDE DE QUEM? - PARASHAT NOACH 5776

Avraham e Daniel viviam na cidade de Telz, na Lituânia. Eles eram muito amigos, vendiam o mesmo tipo de mercadoria e a situação financeira dos dois era muito parecida. Em certo momento da vida, após escutarem conselhos de pessoas mais experientes, eles decidiram que era hora de expandir os negócios e se mudar para uma cidade grande, vizinha de Telz. Lá eles poderiam desenvolver melhor seus negócios e aumentar seus lucros.

Para Avraham a mudança foi excelente. Sua mercadoria fez muito sucesso na cidade grande e em pouco tempo ele já havia aumentado seu negócio. Mas para Daniel as coisas não foram nada bem. Após algumas tentativas frustradas de se estabelecer na cidade grande, ele acabou desistindo e voltou para seu negócio em Telz. Daniel se entristeceu profundamente e sentiu muita inveja de Avraham, cujo negócio prosperava cada vez mais. Daniel não entendia por que D'us não o havia ajudado a prosperar na cidade grande.

Poucos meses depois estourou uma guerra e todos os moradores judeus daquela cidade grande foram expulsos. Entre eles estava Avraham, que foi obrigado a ir para a Rússia. Seu negócio colapsou, sua família passou por dificuldades e sofrimentos extremos e ele acabou perdendo sua esposa e seus filhos. No final, Avraham tornou-se um miserável.

Enquanto isso, em Telz, Daniel viu repentinamente sua sorte mudar. Sem nenhuma explicação lógica, seus negócios começaram a melhorar e ele lucrava cada vez mais. No final, sua tristeza se transformou em uma enorme alegria. O que parecia ser a sua desgraça acabou se tornando a sua salvação. (História Real)

Esta é apenas uma entre centenas de histórias nas quais é possível ver que o sucesso na vida não depende dos nossos esforços e investimentos, e sim da Mão de D'us. Como dizemos na nossa Tefilá (reza): "Muitos são os pensamentos no coração do homem, mas é a vontade de D'us que sempre se cumpre". 

**************************************************** 

Nesta semana lemos a Parashat Noach, que começa descrevendo o "Mabul", o terrível dilúvio com o qual D'us destruiu a humanidade, uma consequência direta das pessoas terem se desviado completamente dos caminhos corretos. E no final da Parashat a Torá descreve outro importante acontecimento: a construção da Torre de Babel, como está escrito: "E eles disseram: "Venham, vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue até o céu, e faremos para nós um nome, para que não sejamos espalhados pela face da terra" (Bereshit 11:4).

Mas a construção da Torre de Babel desperta muitos questionamentos. Em primeiro lugar, o que significa que as pessoas construíram a cidade e a torre para não serem espalhadas pela terra? Além disso, a Torá descreve o que ocorreu após o início da construção: "E D'us desceu para ver a cidade e a torre... E disse D'us: 'Eles são um só povo, e todos eles têm uma só língua, e isto é o que eles começaram a fazer! E agora, eles não serão impedidos de fazer tudo o que tramaram? Venham, vamos descer e confundir sua língua, para que um não entenda a língua do seu companheiro' " (Bereshit 11:5-7). Destes versículos fica claro que algo incomodou D'us naquela construção, mas qual foi o erro que eles cometeram, já que os versículos não mencionam nenhuma transgressão? Também não se entende que tipo de castigo foi aplicado, pois a mistura das línguas pode ser entendida como uma punição? E finalmente, por que a Torá diz que D'us desceu para ver o que eles estavam fazendo?

Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica o motivo que levou as pessoas a construírem aquela torre gigantesca. Elas estavam insatisfeitas com o fato de D'us ter sozinho o controle dos Mundos Superiores, então elas quiseram construir uma torre para subir ao céu e lutar contra Ele. O Midrash (parte da Torá Oral) acrescenta que eles queriam subir com machados para lutar contra D'us. Além disso, Rashi traz também outro motivo. O dilúvio havia ocorrido 1.656 anos após a Criação do mundo, e aquela geração chegou à conclusão que havia um fenômeno natural de colapso do Céu que resultava em dilúvios cíclicos. Por isso eles quiseram construir uma torre, para que servisse como um suporte e impedisse um novo dilúvio quando se completasse o novo ciclo de 1.656 anos.

Porém, estas explicações trazidas por Rashi também apresentam algumas dificuldades. Como pode ser que a humanidade, poucas gerações depois de D'us ter destruído o mundo inteiro com o dilúvio, demonstrando Sua força e Seu controle sobre toda a natureza, achou que era possível desafiá-Lo, e ainda mais com machados? E se esta era a intenção deles, por que D'us mudou a natureza do mundo e confundiu a língua deles, ao invés de simplesmente esmagá-los, demonstrando a nulidade da força do ser humano perante a grandeza de D'us? E finalmente, se o erro foi algo tão grave, uma verdadeira rebelião contra D'us, por que isto não está escrito explicitamente na Torá?

Explica o Rav Yosef Leib Bloch zt"l (Lituânia 1860 - 1930) que a resposta de todos estes questionamentos está no entendimento do incrível poder criado através da união. As pessoas começaram a perceber que a população mundial estava crescendo muito, e que logo precisariam se separar e se espalhar pela terra. Mas eles entendiam a força da união, sabiam que poderia levá-los à grandeza, então por isso começaram a pensar em uma estratégia para manter esta união. Através da união eles achavam que conseguiriam superar qualquer dificuldade, como guerras, doença e outras tragédias. E eles realmente estavam certos no seu entendimento.

Nos últimos séculos presenciamos uma quantidade imensa de invenções revolucionárias, e mesmo assim sabemos que isto é apenas uma pequena gota d'água no mar diante dos segredos da natureza que ainda não foram revelados. Quem sabe quantas forças incríveis e ocultas na natureza poderiam ter sido reveladas caso houvesse união no mundo, caso as pessoas trabalhassem juntas, associando suas forças para criar, revelar e inventar? Achamos que estamos evoluindo, mas é sabido que no passado havia muito mais conhecimentos do que temos hoje, em várias áreas, inclusive na medicina e engenharia. Por exemplo, o Rei Chizkiahu ocultou um livro chamado "O Livro das Curas", que trazia conhecimentos de cura para qualquer doença. Outro exemplo é que até hoje ninguém entende como as pirâmides do Egito, com pedras gigantescas, foram construídas sem a ajuda de equipamentos pesados. Também nas sabedorias ocultas, como feitiçaria e controle do mundo espiritual, havia muito mais conhecimento do que temos hoje. Com medo de perder esta força, aquela geração decidiu se unir, e a torre serviria como um centro e um símbolo da união mundial.

Mas então qual foi o erro daquela geração, se tudo o que eles queriam era manter a união como um meio para evitar que tragédias e sofrimentos recaíssem sobre o mundo? D'us percebeu que no coração deles havia algo a mais do que isso. O que eles queriam no fundo era viver com suas próprias forças, desconectados de D'us. Talvez nem mesmo eles haviam percebido que em sua busca havia uma vontade de se libertar da Supervisão Divina. É por isso que a Torá escreveu apenas a parte revelada do erro, que era a vontade de se unir e simbolizar isto através da construção de uma cidade e uma torre, mas a rebeldia contra D'us não aparece de forma explícita, pois era apenas uma vontade oculta no coração deles.

É isto que quer dizer a expressão "D'us desceu", isto é, Ele desceu no fundo da intenção das pessoas e percebeu que a construção da cidade e da torre eram uma tentativa de negar a existência de D'us e de tirar de si o jugo da Supervisão Divina. Com a força de união de toda a humanidade realmente eles poderiam ter alcançado muito. Foi por isso que D'us precisou cancelar os planos daquela geração, misturando as línguas e quebrando sua união. E este foi um gigantesco castigo, causar desunião para uma geração que sabia dar tanto valor para a união.

Com estes conceitos entendemos um pouco melhor os ensinamentos dos nossos sábios. Quando o Midrash diz que eles queriam lutar contra D'us com machados, não se refere a uma luta física, e sim a uma demonstração de que eles queriam sair da Supervisão Divina e utilizar as incríveis forças da natureza de acordo com a sua própria vontade. Mesmo as tragédias e desgraças que ocorrem no mundo, como o dilúvio, são totalmente controladas por D'us e utilizadas apenas para benefício da humanidade, para que o ser humano chegue em seu propósito. Mas a geração da Torre de Babel quis assumir o comando e mudar as regras do jogo. Quando eles tentaram construir um apoio para evitar o dilúvio, demonstraram que queriam interferir na vontade de D'us, imaginando que mesmo o que foi decretado por Ele poderia ser evitado através do uso das forças da natureza. Em outras palavras, a geração da Torre de Babel tentou passar por cima de D'us e ignorar completamente que o mundo é regido por leis espirituais, não por leis físicas.

Este ensinamento da Parashat continua sendo muito atual. Há pessoas que acham que através de seus esforços físicos conseguirão mudar decretos espirituais. Quando passamos por dificuldades, nos esforçamos de todas as maneiras no mundo material para tentar mudar a nossa situação, mas nos esquecemos que a fonte de tudo é espiritual. Temos a obrigação de fazer o nosso esforço, mas sem exageros, e com a consciência de que nossos esforços servem apenas para despertar a Misericórdia Divina, pois tudo depende Dele. Portanto, qualquer exagero no nosso esforço demonstra uma falta de Emuná (fé). D'us quer que façamos o nosso esforço, a nossa parte, mas nunca esquecendo que o sucesso depende apenas Dele. Pois quando Ele decide algo, não há esforço físico que possa mudar os Seus decretos.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

Gn.6:9-11:32, Is 54:1-55:5

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

PRIORIDADES CORRETAS NA VIDA E NA MORTE - PARASHAT BERESHIT 5776

"Um homem muito sábio chegou aos arredores de certa aldeia e, como o sol já estava quase se pondo, deitou-se para dormir sob uma árvore. De repente, chegou correndo um habitante daquela aldeia e disse, quase sem fôlego:

- A pedra! Eu quero aquela pedra!

- Mas de que pedra você está falando? - perguntou-lhe o sábio, um pouco assustado.

- Ontem à noite eu tive um sonho, e vi que nos arredores da minha aldeia, exatamente no pôr do sol, estava um homem deitado sob uma grande árvore, e ele me dava uma pedra preciosa muito grande, que me faria rico para o resto da vida. E agora eu me lembro que o homem do meu sonho tinha exatamente o seu rosto. Me dê a pedra já!

O sábio abriu o pacote que trazia e tirou de dentro dela uma pedra. Estendeu ao homem e disse:

- É esta a pedra a qual você se refere? Encontrei-a numa trilha da floresta, alguns dias atrás. Parece ser realmente muito valiosa. Mas não vou brigar por ela, você pode levá-la.

O homem da aldeia olhou maravilhado para a pedra. Era um diamante, o maior que já tinha visto na vida. Pegou o diamante e foi embora. Porém, de noite, ele virava de um lado para o outro na cama, sem conseguir dormir. Quando o dia clareou, foi novamente ver o sábio. Despertou-o e pediu:

- Por favor, eu não quero o diamante. Eu quero que você me dê desta riqueza verdadeira, que lhe tornou possível desfazer-se de um diamante tão valioso assim com tanta facilidade..."

Quem tem claridade sobre a vida, e sobre o que vem depois da vida, sabe o que deve priorizar: não os bens materiais, e sim as aquisições espirituais. 
**************************************************** 
Nesta semana recomeçamos a leitura da Torá com o primeiro livro, Bereshit, que descreve a criação do mundo e as primeiras gerações da humanidade. A Parashat desta semana, Bereshit, descreve a criação do primeiro ser humano, Adam Harishon, que logo após sua criação recebeu de D'us uma advertência: "Mas da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal não coma dela, pois no dia em que você comer dela, certamente morrerá" (Bereshit 2:17). Explica o Ramban zt"l (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270) que a morte mencionada no versículo não se refere à morte imediata de Adam, e sim à perda de seu status imortal. Não apenas ele virou um ser mortal após comer do fruto proibido, mas também todos os seus descendentes se tornaram mortais.

Porém, aparentemente o castigo recebido por Adam Harishon parece ser desproporcional ao seu erro. Quando pensamos na nossa morte ou na morte de um ente querido, normalmente ficamos tristes e depressivos. Frequentemente bloqueamos este tipo de pensamento por causa dos sentimentos negativos que ele nos causa. D'us ter infligido um castigo tão duro transmite o conceito de um Criador vingativo e punitivo, bem diferente do conceito judaico de um D'us misericordioso que criou o mundo por amor e bondade. Então como entender o castigo de Adam? Será que há alguma maneira de ver a morte de uma maneira mais positiva?

Além disso, os povos do mundo demonstram um grande respeito aos mortos no momento do sepultamento. Pessoas com mais possibilidades financeiras costumam comprar caixões chiques, de madeira nobre e alta durabilidade. Isto traz um pouco de consolo para os parentes e amigos enlutados, pois é uma tentativa de retardar a decomposição do corpo do falecido. Porém, é estranho observar que a Halachá (Lei Judaica) nos ordena fazer justamente o contrário, isto é, enterrar nossos mortos em caixões que se decomponham com facilidade. E é ainda mais difícil entender o costume praticado em Israel de não utilizar caixões, sendo o corpo colocado diretamente na terra, envolto apenas por uma mortalha. Isto não é uma desonra para o corpo? Será que a Halachá não é insensível com o sentimento dos enlutados?

Outro grande questionamento surge quando observamos as palavras de um Midrash (parte da Torá Oral), que afirma que D'us já havia criado o potencial de morte antes mesmo do erro de Adam Harishon. Quando D'us terminou a criação do mundo está escrito: "E viu D'us tudo o que Ele fez, e eis que era muito bom" (Bereshit 1:31). O Midrash explica que "bom" se refere ao potencial de vida, e "muito bom" se refere ao potencial de morte. Como pode ser que a Torá se refere à vida como sendo algo "bom", mas à morte como sendo algo "muito bom"?
Finalmente, quando a Parashá descreve a criação de Adam Harishon, está escrito: "D'us formou o homem do pó da terra" (Bereshit 2:7). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que D'us reuniu o pó dos quatro cantos do mundo para garantir que, em qualquer lugar que o ser humano for enterrado, a terra de lá absorverá seus restos mortais. Mas o que significa esta explicação de Rashi? Aparentemente ele quis dizer que se o ser humano não tivesse sido criado a partir do pó dos quatro cantos do mundo, seu corpo poderia ser "rejeitado" pela terra após a sua morte. Mas sabemos que todas as criaturas vivas se decompõem no solo após a morte, por causa da interação do solo com a matéria orgânica, independente de terem sido criadas a partir do pó dos quatro cantos do mundo ou não. Então por que Rashi aparentemente associa o fato do ser humano ter sido criado com o pó dos quatro cantos do mundo com a sua decomposição depois da morte?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está em um incrível ensinamento do Talmud (Sanhedrin 90b), que descreve uma conversa entre o Rabi Meir e Cleópatra, a rainha do Egito. Ela questionou o Rabi Meir se, quando chegar o momento da ressurreição dos mortos, o ser humano emergirá da terra nu ou vestido. O Rabi Meir respondeu que se até mesmo uma simples semente de trigo plantada "nua" na terra brota revestida por várias camadas de casca, assim também o ser humano certamente emergirá da terra bem vestido.

O que parece uma simples analogia do Rabi Meir na verdade nos ensina a visão judaica sobre o enterro de um falecido. O propósito do sepultamento não é descartar de forma desonrosa o corpo, ao contrário, o enterro é o início de um processo de recriação. Da mesma maneira que a semente floresce depois de ter sido enterrada, o sepultamento de um corpo reconecta o ser humano à sua fonte, permitindo que ele possa ser recriado e possa emergir da terra de uma forma aperfeiçoada, cada um de acordo com os atos praticados enquanto ele ainda estava vivo.

É sabido que nem toda semente pode ser plantada em qualquer solo, pois há solos mais e menos propícios para o desenvolvimento de uma planta. Foi por isso que D'us criou o ser humano com o pó dos quatro cantos do mundo, para garantir que o "plantio" deste corpo depois do seu enterro não seria inibido pelo solo do lugar de sepultamento. O enterro não é somente um processo de decomposição e desintegração do corpo. É um processo que permite que o corpo aperfeiçoado possa renascer e "brotar", pronto para receber de volta sua alma no momento da ressurreição. A palavra em hebraico para túmulo é "Kever", a mesma palavra utilizada pelo Talmud para se referir ao útero. Da mesma maneira que o útero é o local de desenvolvimento da vida, de preparação do feto para o momento de nascer, assim também o túmulo é o local de preparação e desenvolvimento do nosso corpo para a vida eterna.

Adam Harishon foi criado com seu corpo e alma perfeitos, permitindo a ele experimentar um inigualável nível de relacionamento com D'us. Mas sua transgressão o distanciou do Criador e introduziu imperfeição em seu corpo e em sua alma. Portanto, a morte não foi um ato punitivo de um D'us vingativo, ao contrário, foi um processo através do qual Adam Harishon e seus descendentes poderiam mais uma vez se reconectar ao seu Criador e remover todas as imperfeições que impediam um relacionamento completo com Ele. Permitir ao ser humano se reconectar, mesmo após o erro de Adam Harishon, foi uma bondade sem limites. Por isso D'us viu que o processo de morte era algo "muito bom", pois permite que nossa alma e nosso corpo se reconectem a Ele.

Como muitos veem a morte como o último estágio da vida, eles se esforçam na preservação do corpo, tentando deste modo manter os últimos vestígios da existência de seu ente querido. A Halachá nos ensina justamente o contrário, pois o sepultamento é o processo através do qual nós recriamos nosso corpo, livrando-o de suas impurezas. Preservar o corpo em seu estado atual nos privaria de um dos maiores atos de bondade de D'us. Longe de ser um desrespeito com o corpo e uma falta de sensibilidade com os familiares, a Halachá traz uma forte mensagem de consolo e esperança, através da certeza de que aquele momento doloroso não é o final de nada, é apenas o começo da preparação para a nossa vida verdadeira.

Entender a morte não nos traz apenas consolo. Entender a morte nos ajuda a aproveitar melhor a vida, nos ajuda a definir o que é o principal e o que é secundário, nos ajuda a planejar melhor onde devemos colocar nossos esforços e onde devemos saber abrir mão. Pessoas brigam ou se tornam desonestas por causa de dinheiro e bens materiais, coisas que não serão levadas conosco quando nossa existência neste mundo terminar. Somente os nossos bons atos, as nossas Mitzvót e o refinamento do nosso caráter nos acompanharão para sempre e ajudarão a reconstruir o nosso corpo, aperfeiçoado, para a nossa vida verdadeira, a vida eterna.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
GÊNESIS 1:1-6:8, Is.42:5-43:l0

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

SENTINDO A PRESENÇA DIVINA - PARASHAT HAAZINU E SUCÓT 5776

"Por volta de 1985 foi criado o "Prêmio Darwin". Trata-se de uma brincadeira, uma versão irônica do famoso "Prêmio Nobel", cujo objetivo é escolher e premiar anualmente as pessoas que fizeram os atos mais estúpidos. Em geral o "Prêmio Darwin" é entregue postumamente, pois os vencedores costumam não sobreviver à sua própria estupidez. Os "homenageados" com o "Prêmio Darwin" de 1999 foram três terroristas palestinos. Qual foi a "genialidade" deles?

No dia 5 de setembro de 1999, um domingo, exatamente às 17h30, dois carros-bomba explodiram coordenadamente em duas diferentes cidades de Israel. Porém, apesar do susto, apenas os três terroristas que transportavam as bombas morreram nas explosões. Em um primeiro momento acreditou-se que se tratava de terroristas amadores, e que alguma falha havia ocorrido nas bombas, causando o acionamento prematuro delas. Porém, futuras investigações mostraram a verdade que estava por trás daquele aparente acidente.

Para a maioria das pessoas no mundo inteiro a mudança do horário de verão ocorre sem grandes traumas ou dificuldades. Mas não para os palestinos. Em 1999 Israel decidiu antecipar o fim do horário de verão por causa de rezas da manhã que começavam antes do nascer do sol. Mas os palestinos se recusaram a aceitar o "horário sionista" e não quiseram antecipar o fim do horário de verão deles, causando uma enorme confusão sobre qual era o horário "correto".

Os dois carros-bomba, que explodiram duas semanas depois do fim do horário de verão israelense, haviam sido preparados em uma área controlada pelos palestinos, e haviam sido programados para explodir às 17h30, mas ainda levando em consideração o horário de verão. Os terroristas palestinos, confusos com os dois horários vigentes, já haviam mudado seus relógios de pulso para o horário israelense normal. Quando eles pegaram os carros-bomba e se dirigiram para áreas de grande concentração de pessoas, tentando matar o máximo número de homens, mulheres e crianças, eles esqueceram um pequeno detalhe: não perguntaram se o horário da explosão havia sido programado em relação ao horário de verão ou ao horário normal.

A conclusão da história, que rendeu aos terroristas palestinos o "Prêmio Darwin" daquele ano, foi que os carros explodiram enquanto ainda estavam a caminho de seus alvos, matando apenas os terroristas e salvando a vida das centenas de pessoas inocentes que seriam alvo daquelas terríveis explosões."

Algumas vezes D'us nos protege de maneira oculta, sendo difícil enxergar Sua mão. Mas algumas vezes é quase impossível não enxergar a mão de D'us no nosso dia a dia, nos protegendo de perigos e de dificuldades. 
************************************************** 
Nesta semana lemos a Parashá Haazinu, que traz um cântico entoado por Moshé, chamando os céus e a terra como testemunhas das calamidades que ocorreriam ao povo caso eles se desviassem do caminho correto. O cântico de Moshé também profetiza a enorme alegria que virá com a redenção final do povo judeu. E neste Domingo de noite (27/09) começa a Festa de Sucót, também conhecida como "Zman Simchateinu" (A época da nossa alegria). A festa de Sucót é representada pelas suas duas principais Mitzvót: a "Sucá", uma cabana provisória na qual habitamos durante todos os dias de Sucót, e os "Arbaat Haminim", as 4 espécies (Lulav, Etróg, Adass e Aravá), que trazem simbolismos interessantes.

Apesar de a Sucá parecer apenas uma simples cabana construída com materiais rústicos, sua construção envolve o conhecimento de muitas Halachót (Leis judaicas). Por exemplo, a cobertura da Sucá, chamada de "Schach", deve ser obrigatoriamente construída com materiais que cresceram da terra. Galhos de árvores, bambus e folhas de palmeira são os materiais normalmente utilizados para cobrir a Sucá. Além disso, o Schach deve ser colocado de forma que a área sombreada da Sucá seja maior do que a área ensolarada. Por outro lado, o Schach não pode ser espesso demais, pois deve ser possível olhar para o céu e, através do Schach, enxergar as estrelas. A própria estrutura da Sucá também segue leis rígidas e deve ter um caráter temporário. Mesmo que suas paredes podem ser permanentes, sua cobertura deve ser de natureza provisória, sendo anualmente renovada.

De acordo com uma das opiniões trazidas pelo Talmud, o motivo de habitarmos em uma Sucá é para lembrarmos que, desde a saída do Egito, estávamos envolvidos pela Presença de D'us. A manifestação física da proximidade e do amor de D'us pelo povo judeu eram as "Ananei HaCavód" (Nuvens de Glória), que envolveram e protegeram o povo de qualquer perigo e qualquer tipo de desconforto durante os 40 anos nos quais permaneceram no deserto. Mas se é este o motivo de habitarmos em cabanas, a época do ano na qual nós comemoramos a Festa de Sucót é um pouco estranha. Durante todos os dias de Sucót devemos passar o máximo de tempo possível dentro da Sucá, tratando-a como se fosse a nossa verdadeira residência. Porém, se a Festa de Sucót tivesse sido comemorada há um mês, a Sucá teria sido um agradável local de sombra para sentarmos confortavelmente e nos refrescar um pouco nos dias quentes. Se a Sucá é para lembrar a proteção de D'us no deserto, e nossa estadia durou 40 anos, então qualquer dia do ano seria propício para relembrarmos. Então por que D'us nos comandou ficarmos na Sucá agora, justamente quando o clima começa a se tornar um pouco incômodo? E apesar de todas estas dificuldades, cuidados com as Halachót e desconforto, por que ainda assim Sucót é chamada de "Zman Simchateinu", como se nos trouxesse mais alegria do que as outras festas?

Na verdade todas estas leis, que parecem ser completamente misteriosas, são fascinantes ensinamentos de como devemos nos relacionar com o nosso Criador. Sentir a Presença de D'us no deserto era algo fácil, pois era uma realidade, algo quase palpável. Mas como fazer para sentirmos hoje em dia esta proximidade de D'us? Explicam os nossos sábios que as leis relacionadas com a construção da Sucá são uma oportunidade para revivermos a experiência de sentir, de uma maneira mais palpável, a força vital de D'us nos rodeando, sem as distrações que nos cegam e não nos permitem enxergar a Presença Divina durante o nosso cotidiano.

Ao abandonarmos as nossas casas para habitarmos em cabanas provisórias, nos afastamos de uma das ilusões mais prejudiciais ao ser humano: a sensação de que a segurança material nos protege da nossa vulnerabilidade. A verdade é que nada material é eterno. A sensação de segurança e estabilidade que vem das nossas posses materiais é algo passageiro, e a única coisa que possuímos que é verdadeiramente duradoura é a nossa essência espiritual. Porém, é muito difícil para o ser humano derrubar a ilusão de que o que temos é duradouro e verdadeiro, pois sem esta falsa sensação de segurança, nos sentimos abandonados e nas mãos de um destino desconhecido. Por isso, enquanto as pedras, tijolos e argamassa de nossas casas criam uma falsa sensação de segurança, a fragilidade e instabilidade da Sucá nos ajuda a confrontarmos a realidade. É justamente na fragilidade da nossa Sucá que reside a nossa segurança. Na Sucá nós percebemos que não estamos sozinhos, e por isso não precisamos nos atemorizar com a realidade da nossa vulnerabilidade. Apesar de sermos pequenos e frágeis, percebemos que a mão de D'us está constantemente nos guiando e nos protegendo, como fazia no deserto.

O Schach traz ainda um simbolismo mais forte, pois representa o mundo no qual nós vivemos. Apesar de haver mais sobra do que sol, isto é, mais escuridão do que luz, ainda assim nós conseguimos ver as estrelas. Vivemos em um mundo no qual as perguntas e questionamentos são mais numerosos do que as respostas que nossa sabedoria alcança. Apesar disso, o que faz deste mundo um lugar de sentido e não um lugar de desespero é que podemos ver o que as estrelas representam: brilho e luz. Nós passamos a vida buscando por sentido, e encontramos quando focamos no brilho das estrelas. Nos sentir amados por D'us não é algo fácil de ser atingido, principalmente nos momentos em que somos intensamente testados com sofrimentos e dificuldades. Nestes momentos é muito fácil perder de vista as "Nuvens da Glória" invisíveis que nos cercam o tempo inteiro. Sucót nos ajuda a redefinir o nosso conceito de "possível". Devemos entender que para D'us tudo é possível, pois Ele não tem nenhuma limitação ou restrição. Nada pode acontecer contra Sua vontade, e nada pode impedir a Sua vontade de se cumprir. Quando observamos o incessante movimento das estrelas e constelações e sua eterna beleza, isto nos ajuda a enxergar a grandeza de D'us. Da mesma maneira que cada estrela, dentre os bilhões e bilhões existentes, foi pessoalmente criada e cuidadosamente colocada no céu por D'us, assim também Ele cuida de cada um de nós com "Hashgachá Pratid" (Supervisão Particular). Esta é a lição eterna da Sucá.

E da mesma forma que nada é por acaso, tudo passa por uma Supervisão Particular de D'us, também a época escolhida para comemorarmos Sucót não é uma data aleatória, e sim uma declaração da nossa identidade judaica. Em Sucót nós não saímos das nossas casas para buscarmos um alívio do calor do verão, nós saímos para experimentar a sensação de vulnerabilidade. Isto nos ajuda a curar a cegueira que nos impede de enxergarmos o amor de D'us. Explica o Rav Moshe Chaim Luzzato zt"l (Itália, 1707 - Israel, 1746) que D'us criou este mundo para nos dar a oportunidade de enfrentarmos dificuldades e desafios. O povo judeu não foi projetado para viver em "moradias permanentes". O povo judeu foi projetado para viver uma vida de "Sucá". Um judeu nunca se acomoda, nunca está satisfeito com o que tem, sempre quer crescer mais, ganhar mais conhecimento, atingir mais um nível de espiritualidade. A Sucá representa a vontade de fugir da mesmice, o desejo de crescimento constante. E justamente os testes e dificuldades são as ferramentas que D'us utiliza para nos ajudar a crescer.

Alguém que viaja na "pista expressa" de uma rodovia pode se sentir energizado ou amedrontado. É a escolha que todos nós temos quando passamos por testes e dificuldades na vida, quando nossa Emuná (fé) é colocada à prova. Quanto mais conseguirmos enxergar a eternidade da Sucá, mais receberemos com alegrias as viagens por qualquer tipo de "deserto" que D'us queira nos levar. Esta é a grande alegria da Festa de Sucót: o reconhecimento de algo que sempre foi verdade, mas que nossos olhos não conseguem enxergar. Todos nós estamos, e sempre estivemos, permanentemente na Sucá de D'us. As "Nuvens de Glória" não nos protegeram somente no deserto, mas continuam nos protegendo, com um amor infinito de D'us, em cada pequeno "deserto" que passamos no nosso dia a dia.
SHABAT SHALOM e CHAG SAMEACH
Rav Efraim Birbojm
Dt. 32:1-52, II Sm.22:1-51

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A FRAGILIDADE DO SER HUMANO - PARASHAT NITZAVIM 5775 E ROSH HASHANÁ 5776

"Todos os anos o rabino chefe de New York, o Rav Yaacov Yossef zt"l (Lituânia, 1840 - EUA, 1902), dava uma importante "Drashá" (discurso) de Shabat Teshuvá (Shabat entre Rosh Hashaná e Yom Kipur). Ele era um grande "Talmid Chacham" (erudito no estudo da Torá) e podia falar por horas, citando dezenas de ensinamentos do Talmud, sem abrir um único livro ou anotação. Suas palavras entravam no coração, e por isso este discurso anual era um grande evento, fazendo com que os lugares da sinagoga fossem muito disputados.

Mas um triste incidente ocorreu quando o Rav Yaacov Yossef ainda era jovem. Com pouco mais de 55 anos, ele teve um derrame. Ninguém sabia se ele se recuperaria a tempo de dar a Drashá. Algum tempo antes de Rosh Hashaná os organizadores confirmaram, para a alegria de todos, que a Drashá aconteceria. O Rav Yaacov Yossef, apesar de debilitado, tentaria reunir forças para fazer seu discurso. Os organizadores avisaram que haveria duas diferenças em relação aos anos anteriores: o Rav falaria sentado, por sua dificuldade de permanecer de pé por muito tempo, e utilizaria livros para fazer suas citações, ao invés de falar tudo de cor.

No dia da Drashá, a sinagoga estava completamente lotada, não havia nem mesmo um único lugar vazio. O Rav Yaacov Yossef começou a Drashá com as seguintes palavras: "Diz o Talmud", mas logo depois ele parou, ficando em silêncio total. Recomeçou com as mesmas palavras: "Diz o Talmud", mas novamente permaneceu um longo tempo em silêncio. Finalmente ele começou pela terceira vez seu discurso com as palavras "Diz o Talmud", e mais uma vez estas palavras foram seguidas por um terrível silêncio. Após alguns instantes, o Rav Yaacov Yossef começou a chorar. Quando se acalmou, olhou fixamente para o público e disse:

- Até a Drashá do ano passado eu sabia todo o Talmud de cor, mas apesar de ter preparado a Drashá deste ano, eu não consigo lembrar nem mesmo qual era o assunto! Despertem, vejam qual é o fim do ser humano. Eu sou um exemplo vivo. Aprendam com o que aconteceu comigo e se arrependam enquanto ainda há tempo de consertar seus atos".

Esta Drashá, de apenas 9 palavras, talvez tenha sido a melhor Drashá da vida do Rav Yaacov Yossef. Certamente naquele dia as pessoas saíram da sinagoga sensibilizadas, muito mais conscientes da fragilidade da vida humana e de que tudo, absolutamente tudo, está nas mãos de D'us.

************************************************** 

Nesta semana lemos a Parashá Nitzavim que, entre outros assuntos, fala sobre o processo de Teshuvá, no qual a pessoa, através de reflexões, se arrepende dos seus maus atos e decide mudar de atitude na vida, como está escrito: "E você voltará para D'us, e escutará Sua voz... com todo seu coração e toda a sua alma" (Devarim 30:2). E no Domingo de noite (13 de setembro) começa Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, uma das datas mais importantes do calendário judaico, um dia muito conectado com a Teshuvá e com o nosso compromisso de mudanças para o próximo ano. Será que estamos nos preparando bem? Entendemos a importância deste dia?

O Talmud (Rosh Hashaná 16b) nos ensina algo impressionante sobre como se comportar no dia de Rosh Hashaná: "Todo ano que é pobre no seu começo se torna rico no seu final". Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que a expressão "pobre no começo" se refere a quando os judeus se fazem pobres em Rosh Hashaná em súplicas e rezas, isto é, quando sentem que não tem nada na vida, como uma pessoa completamente destituída, e derramam seu coração diante de D'us, implorando e rezando. Quando uma pessoa se comporta desta maneira, o Talmud nos garante que seu ano terminará rico, com muitas Brachót.

Para entender um pouco melhor as palavras do Talmud, podemos utilizar como ilustração a forma como os empresários fazem os cálculos de orçamento de suas empresas. A maioria dos empresários, quando faz seus planejamentos orçamentários para o próximo ano, utiliza como base o que aconteceu nos anos anteriores. Os gestores apenas discutem as prováveis modificações no orçamento do ano anterior, mas as partes que se manterão nem mesmo são discutidas, pois já são consideradas como "pré-aprovadas". Porém, há outra maneira de fazer o planejamento orçamentário, chamado de "Zero Based Budgeting" (Orçamento Base Zero), quando nada do orçamento do ano anterior é levado em consideração. Neste sistema, cada item do orçamento precisa ser novamente aprovado, e não apenas as alterações em relação ao ano anterior. É como se a empresa estivesse começando novamente do zero.

É exatamente esta a diferença de como nos sentimos e como deveríamos nos sentir em Rosh Hashaná. Sentimos como se tudo o que temos já está garantindo, somente precisamos pedir para D'us coisas a mais. Mas o Talmud está nos ensinando que precisamos começar o nosso novo ano com o sistema de "Zero Based Budgeting", isto é, como se não tivéssemos nada do que tínhamos no ano anterior, como se fossemos completamente pobres e destituídos, começando do zero, sem nenhuma garantia de nada.

Mas isto é verdade? Como podemos nos sentir assim, como pobres destituídos, se temos os nossos bens, nosso dinheiro, nossos talentos, nossos amigos e nossa família? Explica o Rav Yssocher Frand que temos um conceito equivocado de como funciona o mundo espiritual e os decretos de D'us. Achamos que apenas pelo fato de termos dinheiro e saúde hoje, certamente teremos o mesmo no dia seguinte. Mas a verdade é que não existe nenhuma garantia. Todos conhecem pessoas milionárias que, do dia para a noite, perderam tudo. Todos têm algum conhecido que, sem nenhum aviso prévio, perdeu completamente a saúde ao descobrir que tinha uma doença incurável. Nossos sábios ressaltam que isto se aplica em especial ao novo ano, quando D'us decide tudo o que vai acontecer no próximo ano. Não há garantia de nada, e o que foi no ano passado não é garantido que será de novo no próximo ano.

Por que existe esta diferença de percepção da realidade? Pois pensamos que as coisas que temos na vida são fruto do nosso esforço e dos nossos méritos. Mas a verdade é que tudo é uma grande bondade de D'us. Ele nos dá vida, Ele nos dá nossos dinheiro e bens, Ele nos dá nossa saúde. A pessoa que pensa que está saudável está apenas se iludindo, pois a vida do ser humano está sempre apenas por um fio. É por isso que D'us nos criou tão frágeis, para que possamos perceber que nossa vida está sempre nas mãos Dele.

Esta verdadeira percepção da realidade foi um dos últimos ensinamentos da vida de Moshé. A Parashá lida na semana que vem, Vaielech, começa com as seguintes palavras: "E foi Moshé (Vaielech Moshé) e disse: Hoje eu completo 120 anos. Já não posso mais sair e entrar. E D'us me disse: 'Não passará este (rio) Jordão' " (Devarim 31:2). Há um Midrash (parte da Torá Oral) que nos ensina que a linguagem "Vaielech" sempre indica uma advertência. Mas se procurarmos neste ou nos próximos versículos, aparentemente não encontraremos nenhuma advertência ou bronca. Então será que a regra ensinada pelo Midrash se aplica no nosso caso?

A resposta está nas seguintes palavras: "Hoje eu completo 120 anos. Já não posso mais sair e entrar. E D'us me disse: 'Não passará este Jordão' ". De acordo com os nossos sábios, estas palavras contêm uma terrível advertência de Moshé ao povo judeu, que ele deixou para o fim de sua vida justamente para ensinar ao povo de forma marcante. Moshé estava dizendo ao povo que ele, aquele mesmo homem que há pouco tempo atrás havia subido até o céu como uma águia, que havia permanecido 40 dias e 40 noites sem comer e sem dormir para receber a Torá, no mesmo nível dos anjos, agora não podia nem mesmo atravessar um simples rio como as outras pessoas. Por que? "E D'us me disse: 'Não passará este Jordão' ". Quando D'us decreta algo, não existe nenhuma garantia de nada. Ontem foi ontem, hoje é um novo dia. O mesmo Moshé que subiu aos céus não podia mais atravessar nem mesmo um simples rio, pois esta era a vontade de D'us.

Quem percebe isso, quem sabe que estamos sempre na corda bamba, age de forma diferente.  Quem sabe que tudo está em jogo em Rosh Hashaná, o dia do nosso julgamento, age diferente. Todos nós já passamos por momentos de ansiedade, principalmente quando parentes próximos estiveram sob risco de vida. Quando uma pessoa está na sala de espera de um hospital, aguardando as notícias vindas da sala cirúrgica, ela sente de verdade o que é ser um pobre destituído, o que é estar completamente nas mãos de D'us. E neste momento a pessoa age de maneira diferente. Seu coração se conecta com D'us, e ao invés de atos vãos e vazios, a pessoa se ocupa com rezas e Tehilim (Salmos). Esta é a forma de despertar para Rosh Hashaná: lembrar como a condição humana é frágil, lembrar que tudo está nas mãos de D'us, e não há garantia de nada. Todo nosso ano depende dos momentos de conexão com D'us em Rosh Hashaná, pois tudo estará sendo decretado neste dia.

Assim podemos entrar no clima de Rosh Hashaná, entendendo o que está realmente em jogo neste dia. Precisamos lembrar que nossa vida em Rosh Hashaná é julgada de acordo com o "Zero Based Budgeting", isto é, não há garantia de nada. Se entrarmos em Rosh Hashaná nos sentindo como pobres, sem nada garantido na vida, abrindo nosso coração para D'us, teremos muito mais chances de ter bons decretos e um ano com muitas Brachót. Como ensina o Talmud, que nosso ano comece pobre, para terminar muito rico.

"SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA) 

SHABAT SHALOM E SHANÁ TOVÁ        

Rav Efraim Birbojm
Dt. 29:10-30:20, Is. 61:10-63:9

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A ALEGRIA DO RECONHECIMENTO - PARASHAT KI TAVÔ 5775

"O rabino de uma comunidade judaica Sefaradi dos Estados Unidos certa vez desmaiou no meio de uma aula. Ele foi imediatamente levado ao hospital pelo Dr. Goldman (nome fictício), um dos frequentadores da sinagoga. Lamentavelmente a situação do rabino era muito crítica, pois ele não voltava a si e seus sinais vitais começaram a enfraquecer. Depois de uma série de exames, o Dr. Goldman constatou com tristeza que eram poucas as chances de recuperação do rabino. Já esperando pelo pior, ele pediu a alguns alunos do rabino que rapidamente juntassem um "Minian" (grupo de dez homens judeus) para que pudessem fazer o "Vidui" (confissão) antes do falecimento. Infelizmente poucos alunos puderam ser contatados naquele momento e havia apenas nove judeus presentes. Seria uma pena, por tão pouco, não fazer o Vidui com Minian.

Mas o Dr. Goldman não desistiu. Ele revisou a lista de todos os pacientes internados no hospital e descobriu que havia um paciente judeu no último andar. O problema é que aquele doente estava de cama, conectado a tubos e máquinas, muito fraco. Mesmo assim, o Dr. Goldman pediu aos médicos uma permissão especial para mover aquele paciente com sua cama e seus aparelhos e levá-lo até o quarto do rabino, para assim completar o Minian. Mas quando os médicos vieram perguntar ao doente se ele aceitava ir completar o Minian, ele começou a chorar. Quando se acalmou, explicou que justamente aquele dia era o "Yortzait" (data do falecimento) de seu pai, e que ele estava extremamente triste por estar internado no hospital e não poder dizer o "Kadish" (reza em elevação da alma dos falecidos). Ele percebeu que um enorme milagre havia acontecido, pois a Supervisão Divina havia reunido um Minian em pleno hospital sem que ele precisasse fazer nenhum esforço. O paciente pediu permissão para dizer o Kadish por seu pai antes de fazerem o Vidui do rabino. Todos os presentes concordaram e, com muito respeito, escutaram o Kadish que o paciente pronunciou lentamente, enquanto lágrimas corriam dos seus olhos.

Ao terminarem de responder o Kadish mais emocionante de suas vidas, todos se surpreenderam com o que aconteceu. Os batimentos cardíacos do rabino imediatamente começaram a voltar ao normal e, pouco a pouco, ele foi recuperando as forças e a consciência. Parecia que o Vidui não seria mais necessário.

Depois de uma semana, milagrosamente o rabino voltou para casa totalmente curado. Além disso, aquele paciente judeu que havia falado o Kadish por seu pai, que estava há muito tempo à espera da doação de um fígado, conseguiu naquela mesma semana um doador compatível. O transplante foi feito, salvando a vida dele."

Existem alguns momentos nos quais a "Mão de D'us" parece mais evidente. Porém, a verdade é que D'us está presente em cada pequeno detalhe das nossas vidas, e somos nós que não percebemos. Se reconhecêssemos mais as bondades de D'us em nossas vidas, certamente seríamos muito mais felizes. 
************************************************** 

A Parashat desta semana, Ki Tavô, começa descrevendo uma incrível cerimônia, na qual os judeus levavam ao Beit Hamikdash (Templo Sagrado) seus "Bikurim" (primícias, as primeiras frutas colhidas de algumas espécies específicas). Estas frutas, que tinham um enorme valor sentimental para os seus donos, eram colocadas em belas cestas e presenteadas ao Cohen (sacerdote). O dono das frutas também recitava diante do Cohen uma enorme declaração de agradecimento a D'us por todas as bondades recebidas, que começava desde a época dos patriarcas e passava por eventos marcantes do povo judeu, como a saída do Egito e a conquista da Terra de Israel. A declaração terminava com o agradecimento por D'us ter dado a possibilidade de colherem os frutos da terra. E logo depois do assunto dos "Bikurim", a Torá dá uma grande advertência ao povo judeu e descreve as terríveis maldições que poderiam recair sobre eles durante a história. Qual é a relação entre os dois assuntos?

Poderíamos imaginar que estas maldições seriam consequência de terríveis transgressões cometidas pelo povo judeu. Porém, surpreendentemente, a Torá nos traz o motivo explícito delas acontecerem: "Pelo fato de vocês não terem servido a Hashem, teu D'us, com alegria e bondade no coração, quando vocês tinham tudo em abundância" (Devarim 28:47). É interessante perceber que D'us não está nos cobrando atitudes positivas em momentos de testes, dificuldades e sofrimentos. A cobrança é por não fazermos nosso serviço espiritual com alegria mesmo em épocas de abundância, na qual não temos outras preocupações nos desviando do nosso crescimento espiritual. Nos momentos nos quais a tranquilidade permite que o nosso foco esteja na nossa conexão espiritual, fazer o serviço Divino sem alegria é considerado algo grave, quase um desprezo.

Será que estas terríveis maldições previstas na Torá já se cumpriram em algum momento da história? De acordo com o Ramban zt"l (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270), estas palavras, que incluem muitas tragédias pessoais e coletivas do povo judeu, se cumpriram durante o período do Segundo Beit Hamikdash, incluindo sua destruição e o subsequente exílio do povo judeu. Porém, esta explicação desperta um grande questionamento. De acordo com as palavras do Ramban, o motivo da destruição do Segundo Beit HaMikdash foi o fato de não termos servido a D'us com alegria mesmo quando tínhamos tudo em abundância. Porém, o Talmud (Yoma 9b) traz uma opinião completamente diferente ao afirmar que o motivo da destruição do Segundo Beit Hamikdash foi o "Sinat Chinam" (ódio gratuito) que havia dentro do povo judeu. Afinal, qual dos dois motivos é o correto?

A chave para entendermos que não existe nenhuma contradição entre estes dois motivos é observarmos o que ocorre em nossa sociedade. Este conceito trazido pela Torá, das pessoas estarem infelizes apesar de terem tudo, reflete um pouco da realidade em que vivemos atualmente, onde uma grande porcentagem de pessoas, apesar de ter sucesso no trabalho e uma alta posição social, se afunda em depressão e desilusão. Por que tantas pessoas, que aparentemente têm tudo que a vida pode oferecer, ainda demonstram uma total falta de alegria na vida? O que falta para elas serem felizes de verdade?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a pessoa somente é verdadeiramente feliz se ela consegue enxergar e apreciar o que D'us manda para ela na vida. Enxergar as bondades de D'us é saber que tudo é um presente, que não merecemos nada do que recebemos, tudo é parte da Misericórdia Divina. Quem vive desta maneira aprende a dar valor para cada coisa que recebe e a apreciar cada pequeno detalhe da vida. Mas, por outro lado, se a pessoa é egocêntrica e sente que merece tudo o que tem, então ela nunca vai estar contente com o que já conquistou. Ao contrário, vai estar sempre focando nas coisas que ainda não são dela, mas que ela já se acha no direito de ter.

Quando uma pessoa vive sua vida com este tipo de atitude egocêntrica, com a sensação de que todos devem algo a ela, então estará constantemente infeliz. Além disso, pelo fato dela se sentir no direito de ter tudo o que tem vontade, caso outra pessoa tenha algo que ela deseja, acabará sendo vista como uma ameaça. A pessoa egocêntrica começará a sentir aversão pela outra pessoa, mesmo que não exista nenhum motivo real para isso, apenas por causa da percepção de que a outra pessoa a está impedindo de ter algo que, por direito, deveria pertencer a ela. Em outras palavras, este tipo de atitude leva a pessoa a odiar o próximo absolutamente sem nenhum motivo verdadeiro. E é justamente este sentimento de aversão sem justificativas reais que os nossos sábios chamaram de "Sinat Chinam".

Isto significa que, se rastrearmos o que está por trás do Sinat Chinam, encontraremos lá no início a falta de apreciação correta pelo que D'us fez e continua fazendo por nós. Portanto, o Sinat Chinam não é uma razão diferente da trazida pela Parashat Ki Tavô para a destruição do Beit HaMikdash. Na verdade, o Sinat Chinam é apenas uma manifestação de quando a pessoa está infeliz ao fazer o seu serviço Divino. E esta infelicidade ocorrerá apesar de toda a abundância que a pessoa tem na vida.

É por isso que a Torá junta o assunto dos Bikurim com o assunto da advertência. Quando a pessoa levava seus Bikurim para o Beit HaMikdash e fazia a declaração diante do Cohen, ela aprendia a dar valor ao que tinha recebido. Quando uma pessoa planta e colhe, normalmente pensa que o sucesso depende apenas da sua força e da sua inteligência. Mas a verdade é que tudo depende de D'us. A força não é nossa, pois a cada instante é D'us quem está nos mandando energia para os movimentos dos nossos membros e órgãos, como se estivéssemos conectados a um fio de energia. A inteligência para tomarmos as decisões corretas também não é nossa, é um presente de D'us, o Dono de toda a sabedoria. A Terra de Israel depende das chuvas, isto é, depende de D'us, e todo esforço e inteligência não são suficientes se não houver chuvas no momento certo. Até mesmo a existência de uma terra para plantarmos foi um presente de D'us, que nos tirou da escravidão do Egito e nos trouxe, com milagres e sinais, para a Terra de Israel. Sem a ajuda Divina, os Bikurim não poderiam ser oferecidos.

Os Bikurim são um ensinamento de que esta é a fonte de toda a alegria verdadeira: o reconhecimento de que tudo o que temos é um grande presente de D'us, e que não recebemos por causa dos nossos méritos, e sim pela bondade Dele. Vivendo com esta nova ótica, podemos apreciar mais o que temos, e nos alegrar também com as alegrias dos outros, acabando com o "ódio gratuito" e trazendo ao mundo mais harmonia e companheirismo. 

"SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA)

SHABAT SHALOM                                           
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Dt. 26:1-29:9, Is. 60:1-22