sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A FRAGILIDADE DO SER HUMANO - PARASHAT NITZAVIM 5775 E ROSH HASHANÁ 5776

"Todos os anos o rabino chefe de New York, o Rav Yaacov Yossef zt"l (Lituânia, 1840 - EUA, 1902), dava uma importante "Drashá" (discurso) de Shabat Teshuvá (Shabat entre Rosh Hashaná e Yom Kipur). Ele era um grande "Talmid Chacham" (erudito no estudo da Torá) e podia falar por horas, citando dezenas de ensinamentos do Talmud, sem abrir um único livro ou anotação. Suas palavras entravam no coração, e por isso este discurso anual era um grande evento, fazendo com que os lugares da sinagoga fossem muito disputados.

Mas um triste incidente ocorreu quando o Rav Yaacov Yossef ainda era jovem. Com pouco mais de 55 anos, ele teve um derrame. Ninguém sabia se ele se recuperaria a tempo de dar a Drashá. Algum tempo antes de Rosh Hashaná os organizadores confirmaram, para a alegria de todos, que a Drashá aconteceria. O Rav Yaacov Yossef, apesar de debilitado, tentaria reunir forças para fazer seu discurso. Os organizadores avisaram que haveria duas diferenças em relação aos anos anteriores: o Rav falaria sentado, por sua dificuldade de permanecer de pé por muito tempo, e utilizaria livros para fazer suas citações, ao invés de falar tudo de cor.

No dia da Drashá, a sinagoga estava completamente lotada, não havia nem mesmo um único lugar vazio. O Rav Yaacov Yossef começou a Drashá com as seguintes palavras: "Diz o Talmud", mas logo depois ele parou, ficando em silêncio total. Recomeçou com as mesmas palavras: "Diz o Talmud", mas novamente permaneceu um longo tempo em silêncio. Finalmente ele começou pela terceira vez seu discurso com as palavras "Diz o Talmud", e mais uma vez estas palavras foram seguidas por um terrível silêncio. Após alguns instantes, o Rav Yaacov Yossef começou a chorar. Quando se acalmou, olhou fixamente para o público e disse:

- Até a Drashá do ano passado eu sabia todo o Talmud de cor, mas apesar de ter preparado a Drashá deste ano, eu não consigo lembrar nem mesmo qual era o assunto! Despertem, vejam qual é o fim do ser humano. Eu sou um exemplo vivo. Aprendam com o que aconteceu comigo e se arrependam enquanto ainda há tempo de consertar seus atos".

Esta Drashá, de apenas 9 palavras, talvez tenha sido a melhor Drashá da vida do Rav Yaacov Yossef. Certamente naquele dia as pessoas saíram da sinagoga sensibilizadas, muito mais conscientes da fragilidade da vida humana e de que tudo, absolutamente tudo, está nas mãos de D'us.

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Nesta semana lemos a Parashá Nitzavim que, entre outros assuntos, fala sobre o processo de Teshuvá, no qual a pessoa, através de reflexões, se arrepende dos seus maus atos e decide mudar de atitude na vida, como está escrito: "E você voltará para D'us, e escutará Sua voz... com todo seu coração e toda a sua alma" (Devarim 30:2). E no Domingo de noite (13 de setembro) começa Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, uma das datas mais importantes do calendário judaico, um dia muito conectado com a Teshuvá e com o nosso compromisso de mudanças para o próximo ano. Será que estamos nos preparando bem? Entendemos a importância deste dia?

O Talmud (Rosh Hashaná 16b) nos ensina algo impressionante sobre como se comportar no dia de Rosh Hashaná: "Todo ano que é pobre no seu começo se torna rico no seu final". Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que a expressão "pobre no começo" se refere a quando os judeus se fazem pobres em Rosh Hashaná em súplicas e rezas, isto é, quando sentem que não tem nada na vida, como uma pessoa completamente destituída, e derramam seu coração diante de D'us, implorando e rezando. Quando uma pessoa se comporta desta maneira, o Talmud nos garante que seu ano terminará rico, com muitas Brachót.

Para entender um pouco melhor as palavras do Talmud, podemos utilizar como ilustração a forma como os empresários fazem os cálculos de orçamento de suas empresas. A maioria dos empresários, quando faz seus planejamentos orçamentários para o próximo ano, utiliza como base o que aconteceu nos anos anteriores. Os gestores apenas discutem as prováveis modificações no orçamento do ano anterior, mas as partes que se manterão nem mesmo são discutidas, pois já são consideradas como "pré-aprovadas". Porém, há outra maneira de fazer o planejamento orçamentário, chamado de "Zero Based Budgeting" (Orçamento Base Zero), quando nada do orçamento do ano anterior é levado em consideração. Neste sistema, cada item do orçamento precisa ser novamente aprovado, e não apenas as alterações em relação ao ano anterior. É como se a empresa estivesse começando novamente do zero.

É exatamente esta a diferença de como nos sentimos e como deveríamos nos sentir em Rosh Hashaná. Sentimos como se tudo o que temos já está garantindo, somente precisamos pedir para D'us coisas a mais. Mas o Talmud está nos ensinando que precisamos começar o nosso novo ano com o sistema de "Zero Based Budgeting", isto é, como se não tivéssemos nada do que tínhamos no ano anterior, como se fossemos completamente pobres e destituídos, começando do zero, sem nenhuma garantia de nada.

Mas isto é verdade? Como podemos nos sentir assim, como pobres destituídos, se temos os nossos bens, nosso dinheiro, nossos talentos, nossos amigos e nossa família? Explica o Rav Yssocher Frand que temos um conceito equivocado de como funciona o mundo espiritual e os decretos de D'us. Achamos que apenas pelo fato de termos dinheiro e saúde hoje, certamente teremos o mesmo no dia seguinte. Mas a verdade é que não existe nenhuma garantia. Todos conhecem pessoas milionárias que, do dia para a noite, perderam tudo. Todos têm algum conhecido que, sem nenhum aviso prévio, perdeu completamente a saúde ao descobrir que tinha uma doença incurável. Nossos sábios ressaltam que isto se aplica em especial ao novo ano, quando D'us decide tudo o que vai acontecer no próximo ano. Não há garantia de nada, e o que foi no ano passado não é garantido que será de novo no próximo ano.

Por que existe esta diferença de percepção da realidade? Pois pensamos que as coisas que temos na vida são fruto do nosso esforço e dos nossos méritos. Mas a verdade é que tudo é uma grande bondade de D'us. Ele nos dá vida, Ele nos dá nossos dinheiro e bens, Ele nos dá nossa saúde. A pessoa que pensa que está saudável está apenas se iludindo, pois a vida do ser humano está sempre apenas por um fio. É por isso que D'us nos criou tão frágeis, para que possamos perceber que nossa vida está sempre nas mãos Dele.

Esta verdadeira percepção da realidade foi um dos últimos ensinamentos da vida de Moshé. A Parashá lida na semana que vem, Vaielech, começa com as seguintes palavras: "E foi Moshé (Vaielech Moshé) e disse: Hoje eu completo 120 anos. Já não posso mais sair e entrar. E D'us me disse: 'Não passará este (rio) Jordão' " (Devarim 31:2). Há um Midrash (parte da Torá Oral) que nos ensina que a linguagem "Vaielech" sempre indica uma advertência. Mas se procurarmos neste ou nos próximos versículos, aparentemente não encontraremos nenhuma advertência ou bronca. Então será que a regra ensinada pelo Midrash se aplica no nosso caso?

A resposta está nas seguintes palavras: "Hoje eu completo 120 anos. Já não posso mais sair e entrar. E D'us me disse: 'Não passará este Jordão' ". De acordo com os nossos sábios, estas palavras contêm uma terrível advertência de Moshé ao povo judeu, que ele deixou para o fim de sua vida justamente para ensinar ao povo de forma marcante. Moshé estava dizendo ao povo que ele, aquele mesmo homem que há pouco tempo atrás havia subido até o céu como uma águia, que havia permanecido 40 dias e 40 noites sem comer e sem dormir para receber a Torá, no mesmo nível dos anjos, agora não podia nem mesmo atravessar um simples rio como as outras pessoas. Por que? "E D'us me disse: 'Não passará este Jordão' ". Quando D'us decreta algo, não existe nenhuma garantia de nada. Ontem foi ontem, hoje é um novo dia. O mesmo Moshé que subiu aos céus não podia mais atravessar nem mesmo um simples rio, pois esta era a vontade de D'us.

Quem percebe isso, quem sabe que estamos sempre na corda bamba, age de forma diferente.  Quem sabe que tudo está em jogo em Rosh Hashaná, o dia do nosso julgamento, age diferente. Todos nós já passamos por momentos de ansiedade, principalmente quando parentes próximos estiveram sob risco de vida. Quando uma pessoa está na sala de espera de um hospital, aguardando as notícias vindas da sala cirúrgica, ela sente de verdade o que é ser um pobre destituído, o que é estar completamente nas mãos de D'us. E neste momento a pessoa age de maneira diferente. Seu coração se conecta com D'us, e ao invés de atos vãos e vazios, a pessoa se ocupa com rezas e Tehilim (Salmos). Esta é a forma de despertar para Rosh Hashaná: lembrar como a condição humana é frágil, lembrar que tudo está nas mãos de D'us, e não há garantia de nada. Todo nosso ano depende dos momentos de conexão com D'us em Rosh Hashaná, pois tudo estará sendo decretado neste dia.

Assim podemos entrar no clima de Rosh Hashaná, entendendo o que está realmente em jogo neste dia. Precisamos lembrar que nossa vida em Rosh Hashaná é julgada de acordo com o "Zero Based Budgeting", isto é, não há garantia de nada. Se entrarmos em Rosh Hashaná nos sentindo como pobres, sem nada garantido na vida, abrindo nosso coração para D'us, teremos muito mais chances de ter bons decretos e um ano com muitas Brachót. Como ensina o Talmud, que nosso ano comece pobre, para terminar muito rico.

"SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA) 

SHABAT SHALOM E SHANÁ TOVÁ        

Rav Efraim Birbojm
Dt. 29:10-30:20, Is. 61:10-63:9

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A ALEGRIA DO RECONHECIMENTO - PARASHAT KI TAVÔ 5775

"O rabino de uma comunidade judaica Sefaradi dos Estados Unidos certa vez desmaiou no meio de uma aula. Ele foi imediatamente levado ao hospital pelo Dr. Goldman (nome fictício), um dos frequentadores da sinagoga. Lamentavelmente a situação do rabino era muito crítica, pois ele não voltava a si e seus sinais vitais começaram a enfraquecer. Depois de uma série de exames, o Dr. Goldman constatou com tristeza que eram poucas as chances de recuperação do rabino. Já esperando pelo pior, ele pediu a alguns alunos do rabino que rapidamente juntassem um "Minian" (grupo de dez homens judeus) para que pudessem fazer o "Vidui" (confissão) antes do falecimento. Infelizmente poucos alunos puderam ser contatados naquele momento e havia apenas nove judeus presentes. Seria uma pena, por tão pouco, não fazer o Vidui com Minian.

Mas o Dr. Goldman não desistiu. Ele revisou a lista de todos os pacientes internados no hospital e descobriu que havia um paciente judeu no último andar. O problema é que aquele doente estava de cama, conectado a tubos e máquinas, muito fraco. Mesmo assim, o Dr. Goldman pediu aos médicos uma permissão especial para mover aquele paciente com sua cama e seus aparelhos e levá-lo até o quarto do rabino, para assim completar o Minian. Mas quando os médicos vieram perguntar ao doente se ele aceitava ir completar o Minian, ele começou a chorar. Quando se acalmou, explicou que justamente aquele dia era o "Yortzait" (data do falecimento) de seu pai, e que ele estava extremamente triste por estar internado no hospital e não poder dizer o "Kadish" (reza em elevação da alma dos falecidos). Ele percebeu que um enorme milagre havia acontecido, pois a Supervisão Divina havia reunido um Minian em pleno hospital sem que ele precisasse fazer nenhum esforço. O paciente pediu permissão para dizer o Kadish por seu pai antes de fazerem o Vidui do rabino. Todos os presentes concordaram e, com muito respeito, escutaram o Kadish que o paciente pronunciou lentamente, enquanto lágrimas corriam dos seus olhos.

Ao terminarem de responder o Kadish mais emocionante de suas vidas, todos se surpreenderam com o que aconteceu. Os batimentos cardíacos do rabino imediatamente começaram a voltar ao normal e, pouco a pouco, ele foi recuperando as forças e a consciência. Parecia que o Vidui não seria mais necessário.

Depois de uma semana, milagrosamente o rabino voltou para casa totalmente curado. Além disso, aquele paciente judeu que havia falado o Kadish por seu pai, que estava há muito tempo à espera da doação de um fígado, conseguiu naquela mesma semana um doador compatível. O transplante foi feito, salvando a vida dele."

Existem alguns momentos nos quais a "Mão de D'us" parece mais evidente. Porém, a verdade é que D'us está presente em cada pequeno detalhe das nossas vidas, e somos nós que não percebemos. Se reconhecêssemos mais as bondades de D'us em nossas vidas, certamente seríamos muito mais felizes. 
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A Parashat desta semana, Ki Tavô, começa descrevendo uma incrível cerimônia, na qual os judeus levavam ao Beit Hamikdash (Templo Sagrado) seus "Bikurim" (primícias, as primeiras frutas colhidas de algumas espécies específicas). Estas frutas, que tinham um enorme valor sentimental para os seus donos, eram colocadas em belas cestas e presenteadas ao Cohen (sacerdote). O dono das frutas também recitava diante do Cohen uma enorme declaração de agradecimento a D'us por todas as bondades recebidas, que começava desde a época dos patriarcas e passava por eventos marcantes do povo judeu, como a saída do Egito e a conquista da Terra de Israel. A declaração terminava com o agradecimento por D'us ter dado a possibilidade de colherem os frutos da terra. E logo depois do assunto dos "Bikurim", a Torá dá uma grande advertência ao povo judeu e descreve as terríveis maldições que poderiam recair sobre eles durante a história. Qual é a relação entre os dois assuntos?

Poderíamos imaginar que estas maldições seriam consequência de terríveis transgressões cometidas pelo povo judeu. Porém, surpreendentemente, a Torá nos traz o motivo explícito delas acontecerem: "Pelo fato de vocês não terem servido a Hashem, teu D'us, com alegria e bondade no coração, quando vocês tinham tudo em abundância" (Devarim 28:47). É interessante perceber que D'us não está nos cobrando atitudes positivas em momentos de testes, dificuldades e sofrimentos. A cobrança é por não fazermos nosso serviço espiritual com alegria mesmo em épocas de abundância, na qual não temos outras preocupações nos desviando do nosso crescimento espiritual. Nos momentos nos quais a tranquilidade permite que o nosso foco esteja na nossa conexão espiritual, fazer o serviço Divino sem alegria é considerado algo grave, quase um desprezo.

Será que estas terríveis maldições previstas na Torá já se cumpriram em algum momento da história? De acordo com o Ramban zt"l (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270), estas palavras, que incluem muitas tragédias pessoais e coletivas do povo judeu, se cumpriram durante o período do Segundo Beit Hamikdash, incluindo sua destruição e o subsequente exílio do povo judeu. Porém, esta explicação desperta um grande questionamento. De acordo com as palavras do Ramban, o motivo da destruição do Segundo Beit HaMikdash foi o fato de não termos servido a D'us com alegria mesmo quando tínhamos tudo em abundância. Porém, o Talmud (Yoma 9b) traz uma opinião completamente diferente ao afirmar que o motivo da destruição do Segundo Beit Hamikdash foi o "Sinat Chinam" (ódio gratuito) que havia dentro do povo judeu. Afinal, qual dos dois motivos é o correto?

A chave para entendermos que não existe nenhuma contradição entre estes dois motivos é observarmos o que ocorre em nossa sociedade. Este conceito trazido pela Torá, das pessoas estarem infelizes apesar de terem tudo, reflete um pouco da realidade em que vivemos atualmente, onde uma grande porcentagem de pessoas, apesar de ter sucesso no trabalho e uma alta posição social, se afunda em depressão e desilusão. Por que tantas pessoas, que aparentemente têm tudo que a vida pode oferecer, ainda demonstram uma total falta de alegria na vida? O que falta para elas serem felizes de verdade?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a pessoa somente é verdadeiramente feliz se ela consegue enxergar e apreciar o que D'us manda para ela na vida. Enxergar as bondades de D'us é saber que tudo é um presente, que não merecemos nada do que recebemos, tudo é parte da Misericórdia Divina. Quem vive desta maneira aprende a dar valor para cada coisa que recebe e a apreciar cada pequeno detalhe da vida. Mas, por outro lado, se a pessoa é egocêntrica e sente que merece tudo o que tem, então ela nunca vai estar contente com o que já conquistou. Ao contrário, vai estar sempre focando nas coisas que ainda não são dela, mas que ela já se acha no direito de ter.

Quando uma pessoa vive sua vida com este tipo de atitude egocêntrica, com a sensação de que todos devem algo a ela, então estará constantemente infeliz. Além disso, pelo fato dela se sentir no direito de ter tudo o que tem vontade, caso outra pessoa tenha algo que ela deseja, acabará sendo vista como uma ameaça. A pessoa egocêntrica começará a sentir aversão pela outra pessoa, mesmo que não exista nenhum motivo real para isso, apenas por causa da percepção de que a outra pessoa a está impedindo de ter algo que, por direito, deveria pertencer a ela. Em outras palavras, este tipo de atitude leva a pessoa a odiar o próximo absolutamente sem nenhum motivo verdadeiro. E é justamente este sentimento de aversão sem justificativas reais que os nossos sábios chamaram de "Sinat Chinam".

Isto significa que, se rastrearmos o que está por trás do Sinat Chinam, encontraremos lá no início a falta de apreciação correta pelo que D'us fez e continua fazendo por nós. Portanto, o Sinat Chinam não é uma razão diferente da trazida pela Parashat Ki Tavô para a destruição do Beit HaMikdash. Na verdade, o Sinat Chinam é apenas uma manifestação de quando a pessoa está infeliz ao fazer o seu serviço Divino. E esta infelicidade ocorrerá apesar de toda a abundância que a pessoa tem na vida.

É por isso que a Torá junta o assunto dos Bikurim com o assunto da advertência. Quando a pessoa levava seus Bikurim para o Beit HaMikdash e fazia a declaração diante do Cohen, ela aprendia a dar valor ao que tinha recebido. Quando uma pessoa planta e colhe, normalmente pensa que o sucesso depende apenas da sua força e da sua inteligência. Mas a verdade é que tudo depende de D'us. A força não é nossa, pois a cada instante é D'us quem está nos mandando energia para os movimentos dos nossos membros e órgãos, como se estivéssemos conectados a um fio de energia. A inteligência para tomarmos as decisões corretas também não é nossa, é um presente de D'us, o Dono de toda a sabedoria. A Terra de Israel depende das chuvas, isto é, depende de D'us, e todo esforço e inteligência não são suficientes se não houver chuvas no momento certo. Até mesmo a existência de uma terra para plantarmos foi um presente de D'us, que nos tirou da escravidão do Egito e nos trouxe, com milagres e sinais, para a Terra de Israel. Sem a ajuda Divina, os Bikurim não poderiam ser oferecidos.

Os Bikurim são um ensinamento de que esta é a fonte de toda a alegria verdadeira: o reconhecimento de que tudo o que temos é um grande presente de D'us, e que não recebemos por causa dos nossos méritos, e sim pela bondade Dele. Vivendo com esta nova ótica, podemos apreciar mais o que temos, e nos alegrar também com as alegrias dos outros, acabando com o "ódio gratuito" e trazendo ao mundo mais harmonia e companheirismo. 

"SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA)

SHABAT SHALOM                                           
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Dt. 26:1-29:9, Is. 60:1-22

sábado, 29 de agosto de 2015

SACRIFÍCIO PELOS FILHOS - PARASHAT KI TETSE 5775

Certa vez Yaacov (nome fictício) foi falar com o Rav Elazar Menachem Man Shach zt"l (Lituânia, 1899 - Israel, 2001), Rosh Yeshivá (Diretor espiritual) da Yeshivá de Ponovich, em Bnei Brak. Ele tinha uma interessante pergunta em relação à Mitzvá de "Kibud Av Ve Em" (honrar os pais):

- Rav, nesta semana meu pai me pediu para que eu parasse de fumar. Eu tenho obrigação de escutá-lo?
- Não entendi sua pergunta - respondeu o Rav Shach - É óbvio que você tem o dever de escutá-lo, por causa da Mitzvá de "Kibud Av Ve Em"!
- Mas Rav - insistiu Yaacov - eu já fumo há muitos anos, e será um enorme sacrifício conseguir parar de fumar. Por isso eu estou perguntando se realmente eu preciso escutar meu pai...
- Como você pode considerar a possibilidade de não escutar seu pai apenas pelo fato de ele ter pedido algo difícil? Você acha que isto te isenta da obrigação de escutá-lo? - questionou o Rav Shach - Eu já fui fumante, sei o quanto é difícil parar de fumar. Mas a verdade é que milhares de dificuldades como esta não chegam nem a um milésimo do que nós devemos aos nossos pais. Ao invés de pensar no sacrifício que você terá que fazer pelo seu pai, você alguma vez já parou para pensar quantos sacrifícios ele já fez por você na vida?

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Nesta semana lemos a Parasha Ki Tetse, que traz uma das Mitzvót mais enigmáticas da Torá: o "Shiloach HaKen". Se uma pessoa encontra um ninho de pássaro e a mãe está lá, cuidando dos seus ovos ou dos seus pequenos filhotes, a Torá proíbe a pessoa de pegar a mãe junto com os ovos ou os filhotes. O correto é primeiro espantar a mãe, garantindo sua liberdade, e somente depois pegar os ovos ou os filhotes. Mas qual é a lógica desta Mitzvá?
Há alguns detalhes que tornam esta Mitzvá ainda mais interessante e enigmática. Por exemplo, a Torá descreve explicitamente a recompensa daqueles que a cumprem: "Para que seja bom para você e seus dias se prolonguem" (Devarim 22:7). Mas por que uma recompensa tão grande, de prolongamento da vida, para uma Mitzvá aparentemente tão simples, de espantar um pássaro do seu ninho? Qual mensagem D'us quer nos transmitir ao valorizar tanto esta Mitzvá?
 
Além disso, a Torá detalha as 613 Mitzvót que D'us nos comandou no Monte Sinai, sendo que 248 delas são Mitzvót positivas (Mitzvót que devemos ativamente cumprir, como fazer o Brit Milá no 8º dia de vida de um bebê ou colocar Tefilin) e 365 são Mitzvót negativas (Transgressões que devemos evitar, como o "Não matarás" e o "Não roubarás"). As Mitzvót negativas normalmente têm o seu castigo explicitamente escrito na Torá, mas as recompensas das Mitzvót positivas não estão escritas. As duas únicas exceções em toda a Torá são as Mitzvót de "Shiloach HaKen" e "Kibud Av ve Em", pois apesar de serem Mitzvót positivas, suas recompensas estão explícitas na Torá.
Ao observarmos as recompensas explícitas destas duas Mitzvót positivas, algo nos chama ainda mais a atenção: a recompensa das duas Mitzvót é exatamente a mesma. Enquanto em relação ao "Shiloach HaKen" está escrito "Para que seja bom para você e seus dias se prolonguem" (Devarim 22:6,7)", em relação ao "Kibud Av Ve Em" está escrito "Para que se prolonguem seus dias" (Shemot 20:12). Porém, estas parecem ser Mitzvót muito diferentes e sem nenhum tipo de vínculo entre elas. Então por que a Torá somente ensinou a recompensa destas duas Mitzvót positivas, e por que justamente as duas têm exatamente a mesma recompensa? Há algum ponto em comum entre elas?
 
Responde o Rav Yaacov Weinberg zt"l (Israel, 1923 - EUA, 1999) que o ponto em comum é a Messirut Nefesh (auto sacrifício) que as duas Mitzvót envolvem, e em ambos os casos a Torá oferece uma grande recompensa como um estímulo para o reconhecimento desta Messirut Nefesh envolvida nelas.
Quando a Torá nos instruiu a honrar os nossos pais, um dos motivos é para nos fazer reconhecer os enormes sacrifícios que os pais fazem pelos seus filhos. Esta verdadeira "entrega total" já começa durante a gravidez, quando a vida dos pais começa a sofrer mudanças. A mãe começa a sentir náuseas, tonturas e um cansaço fora do normal, mudando toda a rotina do casal. Depois do nascimento a situação fica ainda mais complicada, pois as tranquilas noites de sono se transformam em noites de vigília, tanto durante a amamentação quanto nas noites em que as crianças ficam doentes e precisam dos cuidados dos pais. E como diz o famoso ditado, "pequenas crianças, pequenos problemas; grandes crianças, grandes problemas", pois conforme a criança vai crescendo, assim também as preocupações dos pais com o seu bem estar, com a sua educação e com as dificuldades naturais do seu crescimento. E talvez o auge de todo o stress seja o momento do casamento dos filhos, quando recai sobre os pais o grande peso de arcar com as despesas da festa e de uma possível ajuda financeira ao novo casal. Portanto, ser pai significa abrir mão de seu próprio conforto em prol do conforto dos seus filhos. A Torá oferece esta recompensa incrível, o prolongamento dos dias de vida, para aquele que cumpre a Mitzvá de honrar os pais justamente para que as pessoas se esforcem para apreciar, reconhecer e agradecer toda a Messirut Nefesh feita por eles desde a sua concepção.
É exatamente o ponto da Messirut Nefesh pelos filhos que conecta a enigmática Mitzvá de "Shiloach HaKen" com a Mitzvá de "Kibud Av Ve Em". Qualquer pessoa que já tentou pegar um pássaro com suas próprias mãos sabe que isto é uma missão praticamente impossível. Os pássaros são muito ágeis e levantam voo ao menor sinal de ameaça. Em uma praça cheia de pombas, basta chegarmos perto e elas já levantam voo para alcançar algum lugar mais seguro. Existe uma única forma de agarrar um pássaro com as nossas próprias mãos: no momento em que ele está no ninho, cuidando de seus filhotes ou chocando seus ovos. Por que? Pois como qualquer outra mãe, o pássaro está disposto a sacrificar sua própria liberdade apenas para estar junto com os filhotes, tentando protegê-los de qualquer perigo.
Esta é a essência da Mitzvá de "Shiloach HaKen". Ao nos obrigar a espantar a mãe, a Torá está nos proibindo de tirar vantagem do imenso sacrifício que uma mãe faz pelos seus filhos, que é parte de seu instinto maternal. Não podemos aprisionar o pássaro nos aproveitando deste momento de "fraqueza". Portanto, quando damos para a mãe dos filhotes a sua liberdade, deixando-a ir embora, estamos evitando utilizar contra ela o atributo de se sacrificar pelos filhos. De certa maneira isto também é uma forma de apreciar e reconhecer o ato de Messirut Nefesh de uma mãe pelos seus filhos, e por isso as duas Mitzvót estão tão conectadas. E em ambas as Mitzvót, pelo fato de estarmos reconhecendo e apreciando o amor maternal e a enorme preocupação que os pais têm com seus filhos, acabamos nos tornando merecedores de receber uma recompensa tão grande quanto o alongamento dos dias.
Desta Parashat aprendemos o quanto é querido aos olhos de D'us darmos o devido valor a todo o sacrifício que nossos pais fizeram ou continuam fazendo por nós. Na verdade, a Mitzvá de "Kibud Av Ve Em" é tão importante que não termina nem depois do falecimento dos pais. Mesmo depois que eles já partiram deste mundo, continuamos obrigados a honrá-los e a fazer de tudo para elevar suas almas. A Halachá (Lei Judaica) exige que, ao se referir aos nossos pais, mesmo já falecidos, devemos fazê-lo sempre de uma maneira muito honrosa e respeitosa.
Infelizmente vivemos de acordo com aquele ditado que diz que "somente damos valor para a luz quando ela falta". Somos tão egoístas que, na maioria das vezes, somente aprendemos a dar valor aos nossos pais quando nós temos os nossos próprios filhos e sentimos na pele as dificuldades de criá-los. Através destas duas Mitzvót tão especiais, de "Shiloach HaKen" e de "Kibud Av ve Em", D'us nos estimulou a prestarmos mais atenção nas coisas boas que recebemos dos nossos pais e a refletirmos sobre o quanto eles se dedicaram e se dedicam por nós, e o quanto devemos a eles as nossas próprias vidas e tudo o que recebemos de bom deles.
"Um pai consegue cuidar de 10 filhos, mas 10 filhos não conseguem cuidar de um pai"
"SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA)
SHABAT SHALOM                                        
Rav Efraim Birbojm
Dt. 21:10-25:19, Is. 54:1-10

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

BONDADE À PROVA DE NEVE - PARASHAT SHOFTIM 5775

Jerusalém é uma cidade que literalmente para quando ocorre uma nevasca. Como em Israel não neva todos os anos, e mesmo quando neva são apenas alguns poucos dias, então não existe uma estrutura preparada para fazer com que o país funcione após uma nevasca. Por exemplo, não existem equipamentos para limpar e retirar a neve acumulada nas ruas, o que impede as pessoas de circularem de carro. Portanto, quando ocorre uma nevasca em Jerusalém, por dois ou três dias tudo fica paralisado, e as pessoas acabam ficando presas em casa, sem conseguir sair.

Normalmente isto não é um problema. Ao contrário, as crianças fazem guerras de neve na rua e os adultos também acabam se divertindo. Mas às vezes as nevascas podem se transformar em grandes dores de cabeça. Foi o que aconteceu com as famílias Cohen e Diamant (nomes fictícios). O casamento destas famílias estava marcado justamente para a noite em que ocorreu uma grande nevasca em Jerusalém. A pergunta na cabeça de todos era: como os noivos e os convidados conseguiriam chegar até o salão de festas?

Quanto à dificuldade dos noivos chegarem, o problema foi facilmente resolvido. O noivo vivia próximo o suficiente do salão de festas para conseguir chegar lá caminhando. A noiva, que morava um pouco mais longe, foi transportada por uma ambulância da "Hatzalá" (equipe de resgate). Mas o grande problema eram os convidados, justamente os responsáveis por alegrar o casamento. Infelizmente a grande maioria não conseguiria ir, pois não havia qualquer meio de transporte disponível.

A notícia de que haveria uma festa de casamento com grandes chances de ser um fracasso começou a correr entre os judeus religiosos, e chegou às Yeshivót e Seminários para moças. Ao escutar a difícil situação do noivo e da noiva, muitos rapazes das Yeshivót e moças dos Seminários que ficavam no mesmo bairro do salão de festas vieram para participar do casamento e trazer alegria. O lugar logo ficou completamente lotado de pessoas animadas, que apesar de nem conhecerem o noivo e a noiva, faziam de tudo para alegrá-los. A vontade de ajudar era tanta que vieram muito mais pessoas do que havia sido programado. Era tanta gente, em um gesto de amor ao próximo tão impressionante, que em pouquíssimo tempo a comida já havia terminado. 

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Nesta semana lemos a Parashat Shoftim, que nos ensina diversos assuntos, tais como a pena aplicada para pessoas que faziam idolatria, as leis referentes à futura escolha de um rei para o povo judeu, o cuidado com falsas testemunhas e o comportamento do povo judeu durante as guerras.

Em relação às guerras, a Torá nos ensina um detalhe interessante. Antes das batalhas se iniciarem, algumas pessoas eram dispensadas do serviço militar, como está escrito: "Quem é o homem que construiu uma casa nova mais ainda não a inaugurou? Que se vá e volte para sua casa, para que não morra e outro homem a inaugure. Quem é o homem que plantou um vinhedo e ainda não o redimiu? Que se vá e volte para sua casa, para que não morra e outro homem o redima. Quem é o homem que noivou com uma mulher mais ainda não casou com ela? Que se vá e volte para sua casa, para que não morra e outro homem case com ela" (Devarim 20:5-7).  A Torá especificamente registrou três categorias de pessoas que eram dispensadas da guerra. O ponto em comum é que eram pessoas que haviam deixado algo inacabado e, por isso, ficariam preocupadas demais, com medo de morrer na guerra e nunca terminar o que havia ficado pendente.

Muitos comentaristas entendem que esta lei da Torá era uma medida prática. Qualquer soldado que estivesse em uma destas três categorias ficaria, mesmo durante a guerra, com a cabeça completamente ocupada com os pensamentos do que havia deixado para trás, certamente prejudicando seu desempenho. Além disso, sua falta de foco podia ter um impacto negativo sobre seus colegas, diminuindo a moral deles. Por isso, pela segurança do povo, era questão de bom senso dispensar do exército pessoas que se enquadravam nestas três categorias.

Porém, se esta é a explicação do motivo da dispensa, então por que a Torá trouxe apenas estas três situações? Certamente existem centenas de outras situações que fazem com que a pessoa perca o seu foco. Por exemplo, uma pessoa que está com muitas dificuldades na educação de seu filho, uma criança extremamente rebelde e malcriada, ele também não consegue manter seu foco por estar perturbado com seus problemas familiares. Apesar disso, a Torá não inclui este tipo de situação entre as dispensas militares. Por que justamente estas três são mencionadas pela Torá, se existem muitas outras situações que desviam o foco da pessoa?

A pergunta fica ainda mais difícil quando olhamos a explicação dada por Rashi (França, 1040 - 1105), que afirma que estas três situações em especial causam "Agmat Nefesh" (tormento da alma). Mas se todo o problema era apenas a falta de foco, por que Rashi utilizou uma linguagem tão "poética", de "tormento da alma", ao invés de simplesmente ter explicado que o motivo é a falta de concentração por causa das outras preocupações que podem estar na cabeça do soldado?

A resposta está em um interessante ensinamento do Talmud (Sotá 2a), que afirma que 40 dias antes da formação de um feto (neste caso a expressão "formação" refere-se ao momento em que a alma entra no feto em desenvolvimento), uma Voz Celestial anuncia quem será sua futura esposa, onde será sua residência e de onde virá seu sustento. De acordo com nossos sábios, 40 dias antes da formação do feto é justamente o momento da concepção física, quando todos os dados genéticos contidos no DNA começam a atuar no desenvolvimento do bebê. Neste momento da concepção física, detalhes como a inteligência, a aparência, as habilidades e as inclinações da criança, isto é, os dados genéticos que compõe as características básicas dela, já começam a atuar. Mas por que o Talmud afirma que exatamente neste mesmo momento é anunciado ao feto quem será sua esposa, onde será sua residência e de onde virá seu sustento?

De acordo com o Rav Yohanan Zweig, o Talmud está nos ensinando que, apesar destas três coisas parecerem apenas detalhes externos à essência do ser humano, elas são fatores fundamentais na definição e na forma como se expressa a essência da pessoa, exatamente como a carga genética dela. A esposa é a alma gêmea da pessoa, a parte que falta para completar a sua alma. Também a casa e a profissão de uma pessoa são maneiras de definir a sua essência. Por exemplo, o médico é chamado de "doutor" mesmo quando não está trabalhando, pois sua profissão torna-se parte do seu nome. De forma semelhante, o chefe de família é chamado de "Baal HaBait" (dono da casa), pois ter uma casa o torna uma pessoa mais completa.

Ao dispensar estas três categorias de pessoas do serviço militar, a Torá está nos ensinando uma importante lição: a necessidade de iniciar um casamento, de começar um trabalho e de ter a sua própria casa causam uma preocupação muito forte no ser humano. Não se trata apenas do desvio de foco por causa de algo que o incomoda. Como estes três assuntos definem o próprio "eu" da pessoa, e são formas da alma se definir e se expressar, o fato de não ter completado algum destes processos, junto com o temor de que outra pessoa pode vir a colher os frutos do seu árduo trabalho, chegam a trazer tormento para a alma do soldado, impedindo-o de exercer de maneira eficiente suas funções no exército. Neste caso, é melhor ele voltar para casa e terminar o que está pendente do que ficar, completamente atormentado, na frente de batalha.

Atualmente estes fatores não são levados em consideração para dispensar alguém do exército. Então como podemos utilizar este conceito da Parashat para nossas vidas? Em primeiro lugar, isto nos desperta sobre o verdadeiro valor das nossas esposas e maridos, do nosso trabalho e da nossa casa. Como são coisas que estamos em contato constante, infelizmente acabamos nos acostumando e deixando de dar o seu devido valor.

Além disso, há outra aplicação prática: o Chessed (bondade) que podemos fazer aos outros. Se estas três coisas são tão importantes na vida do ser humano, a ponto de definirem sua essência, então devemos nos esforçar muito para ajudar aqueles que ainda não conseguiram atingi-las. E se pararmos para refletir, perceberemos que as oportunidades de fazer Chessed nestas áreas são imensas. Por exemplo, podemos ajudar alguém desempregado a conseguir um bom emprego, fazendo-o se sentir mais completo. Também podemos participar ativamente da Mitzvá de "Achnassat Kalá", isto é, ajudar casais com dificuldades financeiras a realizarem sua festa de casamento. Também é um grande Chessed ir a uma festa de casamento e, ao invés de se preocupar em comer e se divertir, focar em alegrar o noivo e a noiva e fazer daquele momento algo muito especial para eles.

Pessoas que se sentiam "incompletas" não podiam lutar no exército contra seus inimigos. Da mesma maneira, muitas vezes pessoas que se sentem "incompletas" podem também não conseguir vencer suas batalhas do dia a dia. Por isso é tão importante ajudá-las, principalmente nestas três áreas, para que voltem a ter tranquilidade e possam seguir suas vidas de forma mais harmônica e equilibrada.
SHABAT SHALOM                                          

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 16:18-21:9, Is. 51:12-52:12

domingo, 16 de agosto de 2015

DEVOLVENDO A DIGNIDADE - PARASHAT REÊ 5775

Um rabino idoso sentou-se na sinagoga e cumprimentou um jovem rapaz que estava sentado na cadeira ao lado. O rabino perguntou ao jovem se ele era o Sr. Goodman, e o jovem confirmou. Então o rabino disse:

- Sr. Goodman, gostaria de te dar parabéns pelo seu incrível trabalho de "Shalom Bait" (Paz familiar).

O Sr. Goodman agradeceu pelo elogio, mas disse que era um engano, pois ele era apenas um jovem estudante de Torá, recém-casado, que nunca havia se envolvido com aconselhamentos de "Shalom Bait" na vida.

- O elogio certamente é para você - insistiu o rabino - E vou te explicar porque. Há um casal aqui em Bnei Brak que estava passando por terríveis problemas de "Shalom Bait". Eu vinha trabalhando com este casal por mais de seis meses, mas não estava sentindo nenhuma melhora. Na verdade, eu já estava quase desistindo, pois infelizmente sentia que não havia mais nada para fazer.

- Há algumas semanas você estava em uma pequena sinagoga e havia do seu lado um garoto de quatorze anos de idade que estudava sem parar, e este garoto te deixou muito bem impressionado - continuou o rabino - Então o que você fez depois? Você foi até a parte de trás da sinagoga, onde o pai dele estava sentado, e disse: "Meus parabéns pelo filho maravilhoso você tem. Que orgulho!". Você se lembra disso?

O Sr. Goodman lembrava-se vagamente da história, e começou a ficar assustado com aquele rabino que sabia tantos detalhes da sua vida. Vendo a confusão no rosto do Sr. Goodman, o rabino abriu um sorriso e concluiu:

- Então, aquele homem que você elogiou era justamente o marido que estava tendo problemas de "Shalom Bait" com a esposa. Grande parte dos problemas era consequência da baixa autoestima dele. Mas seu elogio a respeito do filho dele mudou tudo. Você devolveu a ele sua honra, e foi como se você tivesse injetado novamente vida em suas veias. Ele saiu da sinagoga um novo homem. Parou em uma floricultura e comprou para a esposa um buquê de rosas e, em seguida, comprou uma caixa do chocolate favorito dela. A partir deste dia sua casa se transformou em um verdadeiro "Gan Éden" (Paraíso). O que eu não pude ajudar em seis meses de trabalho intensivo, você conseguiu com apenas um elogio. Com suas palavras, você deu dignidade a este homem. Assim, mais uma vez, parabéns pelo seu incrível trabalho de "Shalom Bait" (História Real). 
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A Parashat desta semana, Reê, fala sobre muitos temas, tais como a definição de quais animais são Kasher (permitidos para o consumo), o perigo de falsos profetas se levantarem dentro do povo judeu e a importância de dar Tzedaká aos necessitados. A Parashá também nos ensina sobre um assunto interessante, o "Eved Ivri" (escravo judeu). Havia duas possibilidades de um judeu se tornar escravo de outro judeu: caso ele não tivesse meios para manter sua família, podia se vender como escravo; ou caso ele tivesse roubado um objeto e, quando apanhado por seu roubo, não tivesse dinheiro para ressarcir o dono. Neste caso, a pessoa era vendida pelo Beit Din (Tribunal Rabínico) e o dinheirFo da venda era utilizado para ressarcir o dono do objeto roubado.

A Torá nos ensina que após seis anos de trabalho o "Eved Ivri" deveria ser libertado. A Torá acrescenta mais um detalhe sobre esta libertação: "Você não deve mandá-lo embora de mãos vazias. Você deve dar a ele presentes" (Devarim 15:13,14). Isto quer dizer que, além do pagamento no momento da compra, o dono ainda era obrigado a dar ao escravo, no momento da sua libertação, presentes de valor significativo. Qual é a mensagem que a Torá nos ensina ao obrigar uma pessoa a dar ao seu escravo presentes no momento de sua libertação?

Além disso, a linguagem utilizada no versículo nos chama a atenção. Normalmente o verbo utilizado para "dar" é "Latet", mas neste versículo o verbo utilizado é "Lehanek", que literalmente significa "adornar". Por que a Torá utilizou neste caso um verbo tão incomum?

Finalmente, o próximo versículo traz uma informação que parece fora de contexto: "E vocês devem lembrar que vocês foram escravos na terra do Egito, e que D'us os redimiu. Por isso Eu estou comandando isto para vocês hoje" (Devarim 15:15). Qual a relação entre a saída do Egito e a libertação do "Eved Ivri"?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está na análise de um conceito interessante: o ato de dar gorjetas. Por que é uma prática aceita que certos serviços merecem ser recompensados com uma gorjeta, enquanto outros serviços não merecem? Por exemplo, quando a pessoa faz compras em um supermercado, o carregador que embala e leva as mercadorias compradas ao carro do cliente recebe uma gorjeta, mas a pessoa do caixa não recebe nenhuma gorjeta. Outro exemplo é na barbearia, quando a pessoa dá uma gorjeta para o barbeiro, porém não dá nada para a pessoa que cobra no caixa. Por que há esta diferença?

A resposta é que quando uma pessoa serve outra, de certa maneira ela se sente um pouco rebaixada e humilhada. Quanto mais personalizado é o serviço prestado, maior a perda de dignidade sentida. Portanto, é justamente quando recebemos um serviço personalizado é que nós damos a gorjeta. A gorjeta demonstra nossa apreciação pelo que recebemos do outro, e funciona como uma forma de restaurar a dignidade da pessoa que nos serviu. É por isso que o barbeiro e o empacotador recebem a gorjeta, pois fazem serviços exclusivos e diferentes para cada cliente. Já as pessoas que ficam no caixa do supermercado ou da barbearia fazem trabalhos padrões, praticamente iguais para todos os clientes, sem nenhum tipo de personalização, e por isso não recebem nenhuma gorjeta.

Com este conceito também podemos entender uma atitude aparentemente estranha de Avraham Avinu. Quando ele abandonou a sua casa e foi para a Terra de Israel, logo depois houve uma grande fome que o obrigou a buscar alimentos no Egito. Na volta para Israel, a Torá decreve que Avraham foi "de acordo com as suas viagens" (Bereshit 13:3). O Talmud (Arachin 16b) nos ensina que deste versículo aprendemos que Avraham voltou para Israel pelo mesmo caminho que ele havia ido ao Egito. Por que? Para que na volta pudesse se hospedar exatamente nas mesmas hospedarias que havia se hospedado na ida. Mas qual é o sentido de alguém refazer o mesmo caminho apenas para ficar nas mesmas hospedarias?

O dono de uma hospedaria serve seus clientes com uma enorme variedade de serviços personalizados, 24 horas por dia, algo que, de acordo com o conceito que vimos anteriormente, também diminui a sua dignidade. Porém, ao dono da hospedaria não é possível devolver a dignidade apenas dando uma gorjeta. Avraham então nos ensinou que a forma de devolver a dignidade ao dono da hospedaria é continuar dando preferência ao seu estabelecimento. Esta é a verdadeira demonstração de apreciação pelo serviço personalizado recebido.

É por isso que a Torá exige que o dono de um "Eved Ivri" dê a ele presentes no momento de sua despedida. Apesar de haver uma proibição de dar ao escravo qualquer tipo de trabalho muito pesado ou humilhante, o fato de o escravo estar o tempo inteiro à disposição de seu dono, prestando a ele serviços exclusivos e personalizados, faz com que ele perca a sua dignidade. Então D'us obrigou o dono, no momento da despedida de seu escravo, dar a ele presentes de valor significativo, que possam devolver ao escravo sua dignidade.

Entendemos também a utilização deste verbo tão incomum, "Lehanek", no ato de dar presentes ao escravo que está sendo libertado. De acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), "Lehanek" vem do substantivo "Anaká", que significa "uma jóia utilizada em volta do pescoço". Quando a pessoa se adorna com jóias, ela se sente elevada e especial, e isto dá a ela um senso de dignidade. Esta é justamente a função do presente que damos ao escravo no momento de sua partida, para que ele possa recuperar a dignidade perdida nos seus últimos seis anos nos quais ele serviu, de maneira personalizada, seu dono.

Finalmente entendemos a continuação do versículo, "E vocês devem lembrar que vocês foram escravos na terra do Egito". A dura escravidão no Egito quebrou todo o senso de dignidade do povo judeu. Então, antes de nos tirar de lá, D'us fez com que os egípcios nos dessem muitos presentes. Esta foi a maneira que D'us utilizou para nos devolver, através dos nossos próprios opressores, a nossa dignidade. De forma semelhante, cada dono de escravo fica obrigado a restituir, no momento da libertação do seu escravo, a sua dignidade.

Apesar de atualmente não termos mais na prática o conceito do "Eved Ivri", podemos utilizar este ensinamento da Parashat para nossas vidas, pois aprendemos um conceito muito importante e atual: o cuidado com a honra e a dignidade dos outros. Muitas pessoas atualmente sofrem de baixa autoestima e, com algumas palavras de incentivo, podemos ajudar a reerguer alguém que está caindo. Uma gorjeta pode restaurar a dignidade de um trabalhador, mas elogiar, demonstrar que confiamos nos outros e valorizar o que as pessoas fazem são atitudes que podem literalmente dar vida. E, ao contrário da gorjeta, estas atitudes não pesam nem no nosso bolso, pois são de graça.
SHABAT SHALOM          
                               
 Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/


Dt. 11:26-16:17, Is. 54:11-55:5

sexta-feira, 31 de julho de 2015

ENSINANDO PARA APRENDER - PARASHÁ VAETCHANAN 5775

Certa vez o Rav Avraham Yeshayahu Karelitz zt"l (Bielorrússia, 1878 - Israel, 1953), mais conhecido como Chazon Ish, foi fazer uma visita à Yeshivá de Ponovitz, que ficava na mesma cidade em que ele morava, Bnei Brak. Ele percebeu que havia novos estudantes na Yeshivá que estavam tendo muita dificuldade para acompanhar as aulas e se aprofundar nos estudos. O Chazon Ish sugeriu que os alunos mais velhos da Yeshivá, que já tinham um maior domínio do assunto estudado, dedicassem uma pequena parte do dia para estudar com os alunos mais novos. Os alunos mais velhos responderam que gostariam muito, mas que infelizmente não tinham tempo sobrando para isso, pois estavam extremamente ocupados com seu próprio estudo de Torá. Mas o Chazon Ish não desistiu. Ele pediu para que a seguinte mensagem fosse transmitida aos alunos mais velhos:

- Eu sei que vocês colocam Tefilin todos os dias. Mas como isto é possível, se é um ato que tira o tempo de estudo de Torá de vocês? A resposta é que vocês encontram tempo para colocar Tefilin todos os dias pois sabem que é uma Mitzvá da Torá. Porém, vocês estão desprezando uma Mitzvá que não é menos importante do que a Mitzvá de Tefilin: a Mitzvá de dedicar parte do tempo de vocês para ajudar os alunos mais novos com o estudo de Torá deles.

O Chazon Ish estava transmitindo aos alunos de Ponovitz que ensinar Torá aos outros deve ser visto como uma obrigação, com as mesmas rigorosidades que aplicamos a todas as outras Mitzvót da Torá. Por isso, o argumento de "não tenho tempo" torna-se algo completamente infundado e sem sentido. 

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Na Parashá desta semana, Vaetchanan, Moshé continuou seu discurso de despedida, relembrando muitos erros cometidos pelo povo judeu, inclusive o erro que o levou a ser castigado por D'us e não entrar na Terra de Israel. Depois disso a Parashá fala também sobre as cidades de refúgio, repete os 10 Mandamentos e traz o primeiro parágrafo do Shemá Israel, incluindo o famoso trecho "Escuta, Israel. Hashem é nosso D'us, Hashem é um" (Devarim 6:4).

Há algo interessante na continuação do Shemá Israel: "E que estas palavras que Eu ordeno hoje a vocês estejam sobre seus corações. E você deverá ensiná-las aos seus filhos, e deverá falar delas quando se sentar na sua casa, quando você andar no caminho, quando você se deitar e quando você se levantar" (Devarim 6:6,7). Nossos sábios explicam que esta é a fonte da Mitzvá de "Talmud Torá" (Estudo da Torá), a Mitzvá que é descrita como sendo equivalente a todas as outras Mitzvót juntas. Mas por que, surpreendentemente, a Mitzvá de estudar Torá não diz "você deve estudar", e sim "você deve ensinar"?

O Rav Avraham Shmuel Binyamin Sofer zt"l (Hungria, 1815 - 1871), mais conhecido como Ktav Sofer, explica que o versículo sim nos instrui a estudar a Torá, ao afirmar "vedibarta bam" (e deverá falar delas). Mas mesmo assim a dúvida continua, pois apesar do versículo estar nos instruindo a estudar Torá, isto é falado somente depois da instrução de ensiná-la. Como alguém pode ensinar algo que ainda não estudou? Por que a Torá inverteu a ordem? Ele responde que, ao inverter a ordem, a Torá nos ensina um fundamento muito importante da Mitzvá de "Talmud Torá": mesmo o estudo particular da pessoa deve ser feito com o propósito final de ensinar Torá aos outros. A fonte principal de "Talmud Torá" é "deverá ensiná-las" pois o propósito do nosso estudo de Torá é nos tornarmos pessoas capazes de transmiti-la aos outros.

Obviamente que estudar Torá não é apenas um meio para estarmos apto a ensiná-la aos outros. A pessoa precisa estudar Torá para conseguir construir seu relacionamento com D'us, pois a Torá é o nosso "Manual de instruções" espiritual. Apesar disso, fica claro através dos comentários do Ktav Sofer o quanto estudar Torá sem ensiná-la deixa um grande "vazio" no cumprimento da Mitzvá de "Talmud Torá". Baseado nisto, os nossos sábios ensinam: "Aquele que estuda para ensinar é dado a ele a oportunidade de estudar e ensinar" (Pirkei Avót 4:5). Isto significa que querer ensinar é um requisito essencial para o foco do nosso estudo, e aquele que apenas estuda e não ensina nunca chegará a ser completo em seu "Talmud Torá". É por isso que o versículo ressalta o "ensinar" antes do "estudar".
Há mais um detalhe no versículo que ensina outro aspecto da Mitzvá de "Talmud Torá". Normalmente o verbo utilizado para "ensinar" é "Lelamed", mas neste versículo o verbo utilizado é "Veshinantam". Rashi (França, 1040 - 1105) explica que a linguagem "veshinantam" implica em um maior nível de claridade no entendimento de algo, de maneira que caso alguém faça uma pergunta, a pessoa pode responder sem gaguejar. Daqui aprendemos que, quando uma pessoa estuda como uma preparação para ensinar, ela ganha um nível de entendimento e claridade muito maior. Como a pessoa sabe que será desafiada no seu entendimento e na sua explicação, isto serve como um incentivo para que ela estude com mais interesse e cuidado. É isto o que o Talmud quis transmitir ao afirmar: "Aprendi muita Torá dos meus professores, mais ainda dos meus amigos, e acima de tudo dos meus alunos" (Makót 10a).

Porém, poderíamos pensar que tudo isto se aplica apenas às situações nas quais nós também temos benefício direto do que estamos ensinando, como quando os alunos já conhecem Torá e nos deixarão mais "afiados" com suas perguntas e comentários. Mas explica o Rav Moshé Schreiber zt"l (Alemanha, 1762 - Eslováquia, 1839), mais conhecido como Chatam Sofer, que isto também é valido para aquele que abre mão do seu próprio crescimento pessoal em prol da espiritualidade dos outros. Aprendemos isto do comportamento de Avraham Avinu, que dedicou seu tempo e seus esforços para ensinar ateus ignorantes sobre a existência de D'us, ao invés de focar em seu próprio crescimento. Neste tipo de situação, apesar de parecer que a pessoa deixará de ganhar ao abrir mão do seu próprio crescimento, a verdade é que ocorre justamente o contrário. É óbvio que devemos nos esforçar, mas todo o conhecimento que adquirimos não é fruto do nosso esforço, e sim consequência da misericórdia de D'us, o Dono de todo o conhecimento. Quando Ele vê alguém se esforçando, tem misericórdia e dá para ele conhecimento e entendimento das coisas. Já aquele que abandona seus próprios interesses em prol dos outros recebe ainda mais misericórdia de D'us. Apesar de ter menos tempo para investir no seu próprio crescimento espiritual, D'us faz com que ele possa conseguir crescer em menos tempo e atingir níveis espirituais que vão além do entendimento lógico do ser humano.

Das palavras do Shemá aprendemos que ensinar Torá aos outros é parte essencial da Mitzvá de "Talmud Torá", e que aquele que ensina pode colher benefícios incalculáveis, diretos e indiretos. Como outras Mitzvót, ensinar Torá aos outros não é apenas um ato de Chessed (bondade), e sim uma obrigação. Muitos sábios de Torá, como o Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986), legislaram que, da mesma maneira que uma pessoa deve doar para pessoas necessitadas parte do dinheiro que recebe mensalmente, assim também todo aquele que tem recursos e aptidões está obrigado a doar parte do seu tempo para ajudar na espiritualidade dos outros.

Um último ponto interessante deste versículo do Shemá Israel é a linguagem "deverá ensiná-la aos seus filhos". Rashi explica que não se refere aos filhos biológicos, e sim aos alunos. Então por que a Torá não escreveu "deverá ensiná-la aos seus alunos"? Para ressaltar que há um paralelo muito forte entre ensinar Torá a um aluno e conceber um filho. Quando uma pessoa traz uma criança ao mundo, ela está dando a esta criança o incrível presente da vida. De maneira semelhante, quando uma pessoa ensina Torá para outra pessoa, está dando a ela a oportunidade de alcançar a vida eterna. Portanto, ao ensinar Torá, a pessoa alcança o mesmo potencial que tem os pais: o potencial de dar vida. De acordo com o Talmud (Baba Metsia 33a), ensinar Torá para uma pessoa é considerado um Chessed ainda maior do que concebê-la, pois os pais trazem os filhos para o Olam Hazé (mundo material), enquanto o professor de Torá tem o potencial de, ao ensinar sabedoria e Torá ao próximo, trazê-lo para o Olam Habá (Mundo Vindouro), para a vida eterna.

Para podermos compartilhar da nossa espiritualidade com os outros não é necessário ser rabino. Convidar uma pessoa afastada para experimentar uma refeição de Shabat, compartilhar com os outros alguma ideia bonita que escutamos em uma aula de Torá ou dedicar parte do nosso tempo para ensinar pessoas a cumprir Mitzvót são apenas alguns exemplos de como podemos dedicar parte do nosso tempo para ajudar outras pessoas.

Quando estivermos procurando algum bom ato para fazer, algo que possa ajudar os outros, não devemos esquecer que ensinar Torá para alguém e compartilhar da nossa espiritualidade é uma das maiores e mais completas bondades que um ser humano pode fazer na vida.

SHABAT SHALOM                                         

Rav Efraim Birbojm
Dt. 3:23·7:11, Is. 40:1-26

sábado, 25 de julho de 2015

JULGANDO COM JUSTIÇA - PARASHÁ DEVARIM 5775

 
Avraham, um jovem estudante de Torá, mudou-se para uma Yeshivá de Israel onde iria estudar. Logo no primeiro dia, na reza da manhã, ele percebeu que um dos alunos da Yeshivá começou a tirar seu Tefilin antes do final da reza e depois correu em direção ao refeitório. Avraham ficou irritado com aquela demonstração de descaso com a Tefilá (reza). Ficou imaginando que o rapaz era alguém sem autocontrole, cujo desejo pela comida não o permitia esperar até o final da Tefilá, como os outros alunos.

Avraham terminou sua Tefilá, pensando em como ele era Tzadik (Justo) e como aquele outro aluno era egoísta e descontrolado. Ele tirou seu Tefilin e foi para o refeitório tomar o seu café da manhã. Foi então que Avraham viu o rapaz que havia saído antes do final da Tefilá. Ele estava dentro da cozinha, vestindo um avental e voluntariamente ajudando a preparar o café da manhã dos outros alunos da Yeshivá. Depois Avraham soube que todos os dias aquele rapaz terminava sua Tefilá correndo, justamente para poder fazer Chessed (bondade) com os outros alunos.

Avraham entendeu que havia julgado aquele rapaz de forma precipitada. Pois na verdade, o rapaz era uma pessoa muito altruísta, enquanto na verdade o verdadeiro egoísta era ele mesmo. 
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Na Parashá desta semana, Devarim, Moshé começou a relembrar muitos dos momentos vividos pelo povo judeu durante os 40 anos no deserto, e criticou duramente o povo por muitos dos graves erros cometidos. E logo depois do Shabat começa Tishá Be Av, o dia mais triste do ano, no qual choramos ao relembrar as grandes tragédias que recaíram sobre o povo judeu durante a nossa história, como a destruição dos dois Templos Sagrados e a expulsão dos judeus da Espanha e Portugal em 1492. Em geral, Tishá Be Av cai junto com a Parashá Devarim. Qual é a conexão entre os dois?

Um dos pontos que Moshé relembrou foi como era pesado para ele julgar sozinho todo o povo, e a solução sugerida por seu sogro, Itró, de apontar pessoas retas e íntegras do povo como juízes, que o auxiliariam nos casos mais simples. Moshé também relembrou as instruções que ele passou aos juízes escolhidos: "Escutem entre os seus irmãos, e julguem com justiça" (Devarim 1:16). Mas estas palavras de Moshé precisam de explicação, pois por que dizer aos juízes que eles deviam escutar as partes envolvidas antes de dar o veredicto final, se era algo óbvio? Além disso, por que o versículo diz "escutem entre os seus irmãos" e não simplesmente "escutem seus irmãos"? E finalmente, por que era necessário Moshé ressaltar aos juízes que eles deveriam sempre julgar com justiça e retidão, se o papel de um juiz é justamente ser alguém justo e reto para definir quem tem a razão?

Rashi (França, 1040 - 1105) explica que Moshé estava exigindo dos juízes que eles fossem extremamente cuidadosos em cada julgamento, e mesmo que vários casos similares já tivessem sido julgados por aquele tribunal, eles não deveriam julgar de forma precipitada. Esta é a fonte da primeira Mishá do Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Sejam cautelosos no julgamento" (1:1). Aparentemente esta Mishná nos ensina que cada situação tem nuances que podem afetar e resultado do julgamento, e por isso cada caso deve ser analisado com cuidado.

Apesar deste ensinamento de Moshé também se aplicar para casos criminais, ele está escrito em um contexto de casos civis, pois foi utilizada a linguagem "entre os seus irmãos", isto é, em casos onde há algum tipo de disputa. Porém, o ensinamento de "sejam cautelosos no julgamento" deveria ter sido ensinado em um caso criminal. Um veredicto equivocado em um caso civil, como a disputa por um bem material, pode ser facilmente revertido se o Beit Din (Tribunal Rabínico) identificar o erro. Mas um erro do Beit Din no julgamento de um crime pode ter consequências muito mais graves e, portanto, neste caso o Beit Din deveria ser muito mais cuidadoso. Então por que o ensinamento é em um contexto civil e não criminal? E, além disso, se é tão importante ser uma pessoa ponderada e cautelosa nos nossos atos, por que a Torá não aplica esta exigência também a outros profissionais, como os médicos, cuja falta de cautela pode resultar na perda de uma vida?

Explica o Rav Yohanan Zweig que, no mundo empresarial, a grande maioria das disputas civis não ocorre entre indivíduos que sempre mantiveram um relacionamento conflituoso, pois neste caso as duas partes tentam deixar bem claro quais serão as medidas tomadas caso surjam situações indesejadas e tomam as precauções necessárias para evitar maus entendidos. As disputas costumam ocorrer justamente quando há um elemento de confiança entre as partes, e por causa desta confiança, muitos detalhes técnicos, como recibos e contratos, acabam sendo deixados de lado, abrindo brechas para desentendimentos e dúvidas.
Quando a confiança inicial é quebrada e inicia-se uma disputa, cada uma das partes tem uma percepção subjetiva da realidade, e por isso cada um percebe os fatos de acordo com as suas próprias predisposições e tendências. Nos casos em que esta disputa não pode ser resolvida sem a ajuda do Beit Din, então os juízes devem estar cientes que cada pessoa está aderindo às suas percepções distorcidas e está completamente relutante em enxergar a percepção da outra parte envolvida, fato que dificulta a reconciliação. E pelo fato de nenhuma das duas percepções representarem a realidade objetiva, então é responsabilidade dos juízes verificar e encontrar a verdade objetiva a partir das duas opiniões subjetivas dos litigantes.

Este conceito nos ajuda a entender um intrigante ensinamento dos nossos sábios: "Quando os litigantes estiverem diante de você, considere ambos como culpados, mas quando eles partirem de você, considere ambos como inocentes" (Pirkei Avót 1:8). O Pirkei Avót não está indo contra o conceito de que a pessoa deve ser considerada inocente até que provem a sua culpa. Mas no momento da argumentação, o juiz deve ver os litigantes como se fossem culpados, pois certamente cada um deles está apresentando a sua percepção distorcida dos fatos, e é obrigação do juiz não acreditar cegamente nas palavras de nenhum dos litigantes sem verificá-las bem. É justamente isto o que Moshé estava transmitindo aos juízes. Um juiz tem que tomar muito cuidado para julgar de maneira correta. Nunca dois casos são iguais, pois cada pessoa entende as coisas de acordo com a sua própria perspectiva, e determinar a verdade objetiva a partir das argumentações subjetivas dos litigantes exige muita cautela. Por isso os casos civis, onde há disputas entre dois litigantes, exige mais cuidado até mesmo do que casos criminais.

Por que a Torá se preocupou somente em ensinar este conceito aos juízes e não aos médicos? Pois ao contrário do juiz, o maior colaborador do médico para chegar a um diagnóstico correto e preciso é o próprio paciente. Baseado nas reclamações do paciente, nos sintomas e nas dores que ele relata, o médico consegue chegar ao diagnóstico da enfermidade. Já os litigantes têm um relacionamento conflituoso com o juiz, pois o juiz está buscando a verdade objetiva, enquanto os litigantes estão oferecendo uma percepção subjetiva da realidade. Por isso é um grande feito quando um juiz consegue ter sucesso e se proteger das enganações dos litigantes. É por causa desta grande dificuldade que a Torá sentiu a necessidade de ordenar aos juízes que eles se protejam, na busca pela verdade, contra as enganações e visões subjetivas do caso.

Qual a conexão com Tishá Be Av? Esquecemos que não apenas os juízes fazem julgamentos. Cada um de nós, no nosso dia a dia, também está constantemente julgando as outras pessoas. E da mesma maneira que os juízes devem ser cautelosos e ponderados nos julgamentos de disputas civis ou na elucidação de casos criminais, nós também devemos ser muito cuidadosos com a maneira como julgamos os outros. Normalmente somos muito apressados em julgar e rotular as pessoas de maneira negativa, por pequenas atitudes que elas fizeram que pareciam erradas aos nossos olhos.

Ensinam os nossos sábios que o Primeiro Templo Sagrado foi destruído por que o povo judeu estava praticando as três transgressões mais graves: idolatria, relações ilícitas e assassinato. Mas após a destruição do Templo e o exílio do povo judeu, eles se arrependeram e consertaram seus graves erros, e em 70 anos o Templo foi reconstruído. Porém, o Segundo Templo Sagrado foi destruído pelo ódio gratuito e por causa do Lashon Hará (maledicência) que havia dentro do povo judeu. Infelizmente já se passaram mais de dois mil anos e não tivemos ainda o mérito de reconstruir o Templo Sagrado. Isto significa que, mesmo após tanto tempo, ainda não conseguimos consertar estes erros tão graves.

Por que é tão difícil não falar Lashon Hará? Pois o Lashon Hará é uma consequência direta de não julgarmos as pessoas de forma positiva e favorável. Falamos Lashon Hará porque consideramos que nós estamos sempre certos e aqueles que discordam de nós estão sempre errados. Falamos Lashon Hará pois consideramos que a nossa forma de viver é a perfeita e ideal, e portanto todo aquele que é mais rigoroso do que nós é visto como um fanático, enquanto aquele que é menos rigoroso do que nós é desleixado. Falamos Lashon Hará pois não damos aos outros o benefício da dúvida, da mesma maneira que gostaríamos que os outros dessem quando nós cometemos algum erro. Por exemplo, quando alguém chega atrasado a uma reunião, imediatamente é visto como um irresponsável, enquanto quando nós chegamos atrasados, esperamos que as pessoas sejam compreensivas e entendam que o trânsito estava caótico.

Pensamos que tragédias somente podem ocorrer quando juízes erram nos julgamentos de casos criminais. Mas Tishá Be Av é um lembrete constante de que os erros de julgamento no nosso dia a dia podem ser ainda mais trágicos.

SHABAT SHALOM                                          

Rav Efraim Birbojm
DEUTERONÔMIO 1:1-3:22